O pintor apaixonado pela harmonia das formas

O pintor apaixonado pela harmonia das formas

 

Lusa/AO Online   Nacional   11 de Dez de 2013, 12:57

A paixão pelas formas e o prazer de criar proporções harmoniosas marcaram a obra de Nadir Afonso, pintor falecido esta quarta-feira, aos 93 anos, que nunca se arrependeu de ter abandonado a arquitetura, uma arte que lhe criava problemas por ser "utilitária".

 

Mas talvez a arquitetura nunca tenha abandonado o artista nascido em Chaves, em 1920, porque as paisagens urbanas, na sua essência, vão manter-se vivas em inúmeras telas do artista que introduziu o abstracionismo geométrico em Portugal.

Em quase todas as intervenções públicas, Nadir Afonso recordava o episódio que explicava a sua matrícula em arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, por ter cedido aos conselhos de um funcionário.

Depois de ter estudado arquitetura, ainda chegou a trabalhar com Le Corbusier, em Paris, e Oscar Niemeyer, no Brasil, ambos arquitetos muito conceituados que lhe permitiram dedicar algum tempo à pintura, o que lhe proporcionou um grande prazer e até alívio.

Estudou pintura em Paris e foi um dos pioneiros da arte cinética, trabalhando ao lado de Victor Vasarely, Fernand Léger, August Herbin, Cândido Portinari, e André Bloc.

Numa entrevista à agência Lusa em 2009, confessava que abandonou a arquitetura em 1965 justamente por sentir que lhe trazia "problemas".

"Se uma forma está harmoniosa não pode ser utilitária porque a proporção matemática é exigentíssima e não permite que a forma suporte qualquer utilidade", justificou, na altura, admitindo ter-se sentido incapaz de conciliar ambas as áreas.

Com uma obra representada dentro e fora de Portugal, em espaços privados e públicos, como, por exemplo, os grandes painéis de azulejos da estação de metro dos Restauradores, em Lisboa, Nadir Afonso não "escapou", contudo, ao fascínio das formas arquitetónicas das cidades.

Para Nadir Afonso, o mais importante era a essência do seu trabalho, algo que para ele tinha que ver com a harmonia e a proporção das coisas e era intemporal e universal.

"Por isso, ainda hoje sentimos satisfação estética nas obras de arte egípcias, gregas ou do Renascimento", exemplificava.

Em 2009, para assinalar os 70 anos de carreira do pintor, a Assembleia da República prestou-lhe homenagem, organizando uma exposição intitulada "As Cidades no Homem", com vinte telas produzidas por Nadir desde a década de 1940.

Admitiu que nunca viu algumas das cidades que pintou ao longo da vida. "Para documentar uma obra tive que escolher alguns nomes de cidades, mas nunca as vi na realidade. O que me interessa é a sua essência", disse, sobre a visão pessoal das paisagens urbanas.

A matemática e as formas geométricas foram as maiores fontes de inspiração de Nadir Afonso: "Um quadrado tem quatro ângulos perfeitamente iguais! Um círculo é um ponto central equidistante dos pontos periféricos. Isto é uma fantástica lei matemática que nos cria emoção", observou também, na entrevista à Lusa, sobre o fascínio que estas áreas lhe despertavam.

Nadir Afonso morre sem ver concluídas as obras de construção da sede da Fundação Nadir Afonso, um projeto desenhado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira que deverá albergar um ateliê, salas de exposição, auditório, biblioteca e o espólio do artista.

Em 2010, foi realizada uma grande exposição da sua obra, no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, e, seguidamente, no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, em Lisboa.

Uma grande exposição foi apresentada no Museu Carlo Bilotti-Vila Borghese, em Roma, (2012) e outra em Veneza, no Palazzo Loredan (2012).

Nadir Afonso - condecorado com os graus de Oficial (1984) e de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (2010) – deixa uma vasta obra de reflexão sobre estética, matemática e pintura.

O seu maior desejo, como artista, era "ser lembrado como aquele que descobriu as leis que regem a obra de arte".

 


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