“A minha grande motivação é todo esse lado humano que o meu trabalho tem”

Foi o legado do avô que o inspirou a seguir a fotografia na vertente documental. Foi fazendo o seu caminho naturalmente e as viagens ajudaram a traçar o seu trabalho. Através da sua lente dá a conhecer comunidades. Gosta de criar laços por onde passa para poder contar as suas histórias



É a sua história familiar que ajuda a interpretar o “caminho” do fotógrafo Pepe Brix. “Foi esta história que me colocou no lugar onde estou hoje em dia, diz o fotógrafo natural de Santa Maria, neto de artistas de circo que depois de terem percorrido o país em espetáculos de circo, chegaram aos Açores e decidiram ficar em Santa Maria. “O meu avô vendeu a sua parte do circo para comprar uma câmara fotográfica e começou a trabalhar como fotógrafo”. E, “esse caminho foi muito importante para mim, porque realmente moldou o meu imaginário durante a minha infância”.

Começou a ganhar o gosto pela socialização muito cedo porque o “meu pai (Max Brix Elisabeth) também era uma pessoa muito sociável”, disse, para sublinhar que teve uma infância “super feliz em Santa Maria”, dividindo-se em inúmeras atividades desportivas (...). “Muito do meu tempo era passado em treinos e neste espírito de trabalhar o conceito de grupo”, recorda. 

Ainda na infância, Pepe Brix começou a ter algumas bandas, “com 13/14 anos, começamos a ter bandas de punk e fazíamos o nosso papel no seio da comunidade, com a nossa música de intervenção na altura”. Tem imensas recordações dessa época porque essas atividades e “a música geraram uma dinâmica de grupo muito interessante. Tínhamos imensos amigos que vinham aos nossos ensaios e aos nossos concertos, e nós estávamos sempre juntos. Lembro-me perfeitamente que a minha infância foi muito moldada também por essa componente sonora. O meu pai também gostava muito de música e o meu irmão também”. Foi essa infância feliz que “puxou bastante pela minha criatividade. Andei livre, íamos para a rua sem preocupações nenhumas, brincávamos até altas horas da noite, enfim, tenho belíssimas recordações aqui de Santa Maria que, como qualquer outra ilha dos Açores, é uma ilha segura para se andar e para se criar as crianças, não há melhor sítio do que os Açores”. 

Fez a sua escolaridade até o 12.º ano em Santa Maria, porque “não fui para Artes no 11.º ano. Fui para Ciências. Ainda um pouco a perceber o que é que ia ser a minha vida”. Contudo, nessa altura já fotografava, “já tinha consolidado a minha paixão pela fotografia, mas não estava certo se a fotografia ia ser uma carreira ou não”. Depois teve de decidir o que ia fazer e “andei com um pé na Psicologia e um pé na Fotografia, mas acabei por ir para o Instituto de Fotografia no Porto fazer o meu curso profissional de fotografia”. Quando ingressou no curso, já trabalhava com o pai na Fotopepe. 

Recorda que “cobríamos todo o tipo de eventos. Já andava muito pela ilha a fazer um registo mais vocacionado para um teor documental”. Inspirou-se no trabalho que o seu avô deixou: “O meu avô deixou um arquivo fotográfico muito grande, sobretudo do mundo rural de Santa Maria. Com 16/17 anos, já conseguia perceber o valor que aquele arquivo tinha, porque as coisas já tinham mudado bastante. Ou seja, Santa Maria já não era a mesma ilha que era na década de 40, 50, 70”. Percebeu que a fotografia “tinha um poder especial de nos ajudar a reinterpretar o meio onde vivemos, através do espólio. Na verdade, o que decidi durante o curso foi que carreira fotográfica é que queria fazer porque já sabia que ia ser fotógrafo”, confessou. 


Depois de terminar o curso, em 2005, Pepe Brix fez um intercâmbio com a Associação Juvenil da Ilha de Santa Maria à Polónia, e nessa viagem “fui devidamente equipado para fotografar e fui com a preocupação de recolher algumas imagens dessa viagem”, contou. No ano seguinte fez o seu  primeiro interrail sozinho, que “depois resulta na primeira exposição que inaugurei no Arco 8, na altura em que o Pedro e a Gisela ainda lá estavam”. Confessa-nos que a partir daí “quase que me adaptei a esse ciclo que era: viajar, fotografar, voltar para a ilha, editar, escrever e expor (...)”. Foi isso que o ajudou a perceber que “realmente esse era o caminho que queria fazer. Foi um caminho que fui fazendo muito naturalmente, aos poucos. Mas as viagens ajudaram-me muito a aguçar e a talhar essa vontade”. 


Um bom exemplo desse caminho é a colaboração com que mantém com a National Geographic. Pepe Brix começa por nos explicar que “o meu pai morreu em 2010, e em 2011 fui para a Índia. Passei lá vários meses, na Índia e no Nepal, a fotografar. Voltei para fazer exposições, lancei um livro com o Daniel Gonçalves ‘Ensaio sobre o Comprimento do Silêncio’ e andámos pelo país a fazer a apresentação do livro”. Nesse período começou a pensar que viagem é que iria realizar a seguir, e em conversa com um amigo, “o Henrique Ramos, que tem a empresa seaExpert - ele faz a gestão dos observadores de pesca na zona onde os portugueses vão buscar o bacalhau, no Atlântico Noroeste - acabámos por perceber que o meu próximo trabalho podia ser uma reportagem sobre aquela que é a pesca contemporânea da pesca do bacalhau (...)”. E assim foi, esteve três meses e meio embarcado com o navio Joana Princesa. “Fiz o trabalho, escrevi o artigo a bordo do navio e quando cheguei a terra enviei um email para o Gonçalo Pereira Rosa, que é o diretor da National Geographic Portugal e, foi aí que começou esta colaboração que se mantém há 10 anos - neste momento estou com uma exposição no Museu de Santa Maria, que é precisamente a celebração desses 10 anos de artigos publicados com a revista National Geographic Portugal”.

Foi com essa reportagem que também venceu o prémio Gazeta 2015. Pepe Brix diz que “foi uma situação bastante caricata, porque nunca tinha concorrido e foi a última vez que concorri a um concurso de fotografia, porque não é o meu modus operandi”. (...) Conta-nos que “ligaram-me a disser que tinha sido o vencedor do Prémio Gazeta, mas depois disseram o nome de um trabalho que não era o meu.Disse que aquele não era o meu trabalho e ouvi um silêncio do outro lado, então o senhor disse-me que ia confirmar com os colegas. Pensei ‘se calhar deram-me um chupa que me vão tirar agora’. Entretanto, voltaram a ligar, pediram desculpas e confirmaram que o trabalho vencedor era o meu, da pesca do bacalhau. Claro que fiquei super contente porque é um prémio de bastante relevância, com júris muito sérios e claramente é um marco na minha carreira e abriu muitas portas”.

Os prémios podem ser motivadores para muitas pessoas, mas para Pepe Brix o que o motiva mais “é pensar que agora estou dedicado a descobrir uma comunidade, a conhecer pessoas novas, a criar laços com essas pessoas, para conseguir contar essa história. Na verdade, essa é que é a minha grande motivação, é todo esse lado humano que o meu trabalho tem”.

Questionado se, de todos os seus trabalhos, existe algum que o tenha marcado mais, o fotógrafo afirma que “todos”, porque “sou sempre a mesma pessoa e mais qualquer coisa, depois de cada trabalho finalizado. Por isso é difícil dizer que este ou aquele trabalho me marcou”, adiantando que “aquela viagem à Índia marcou-me bastante. A pesca do bacalhau também. Lá está, são duas experiências completamente diferentes. (...). Portanto, todas as experiências acabam por absorver coisas bastante diferentes e esta é que é a grande beleza do meu trabalho, nunca absorvo o mesmo de dois trabalhos diferentes”. 

E o que vê Pepe Brix através da sua lente que nós não conseguimos ver? A esta questão, diz-nos que “acho que não vejo nada que as pessoas não vejam. Acho é que dedico mais tempo e faço um exercício de tentar abster-me de algum ruído que, às vezes, anda à nossa volta e que nos ofusca alguns detalhes. Na verdade, é isso. Não sinto que veja mais que os outros. Se calhar olho com mais silêncio”.

Em termos de projetos, para além da exposição “10 anos de Histórias em Fotografia”, patente no Museu de Santa Maria até 31 dezembro e que vai ir “para as restantes ilhas dos Açores em 2026, e para o Continente e Madeira em 2027, estou a acabar um documentário sobre a investigação do mar profundo: ‘Meia milha para baixo’, para a RTP (...)”. Refere ainda que “este ano de 2025 e o próximo estão muito concentrados num trabalho documental que estou a fazer para a Direção-Geral das Artes, que é uma recolha fotográfica para o repositório de artesanato de Portugal”.

Questionado se tem algum projeto que gostava de realizar, Pepe Brix, começa por dizer que “essa pergunta é engraçada porque, nos últimos anos, os trabalhos têm vindo ter comigo e acabo por decidir o meu caminho em função daquilo que me aparece”. “Acho que o teu caminho leva-te ao teu caminho, as coisas vão-te aparecendo em função das coisas que te vão acontecendo. Eu acho que isso é super-bonito, porque gera aqui uma fluidez e uma harmonia no teu trabalho, no teu percurso, que para mim tem sido muito gratificante”.

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