Açoriano Oriental
‘A imprevisibilidade relativamente ao futuro tão próximo é uma enorme preocupação’

Tibério Dinis, presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória adianta que há novas medidas de apoio às famílias e às empresas do concelho e que se prolongam até ao final do ano. O autarca diz ainda que o setor do turismo foi o que mais sofreu com a pandemia e todos os serviços associados.

‘A imprevisibilidade relativamente ao futuro tão próximo é uma enorme preocupação’

Autor: Susete Rodrigues/AO Online

Como avalia o desconfinamento no concelho da Praia da Vitória?

O desconfinamento está a ser feito de forma gradual. Neste momento já estamos bastante avançados na medida em que todas as infraestruturas, quer públicas quer de serviços privados, encontram-se em funcionamento, sendo certo que, com determinadas limitações, nomeadamente aquelas que são as recomendações e indicações da Autoridade de Saúde Regional. Fundamentalmente a palavra-chave é um desconfinamento com segurança e confiança. Creio que é isto que se passa na Praia da Vitória.

Quais foram os setores mais afetados pela pandemia?

É demasiado evidente o impacto brutal que tem no turismo. É um impacto de grande dimensão, quer ao nível do volume de negócios, quer ao nível do emprego gerado e de todos os serviços associados ao turismo, desde as empresas marítimo-turísticas, às empresas de animação turística, do pequeno comércio tradicional associado aos souvenir e tudo aquilo que era habitualmente adquirido pelos turistas; até mesmo setores que vinham crescendo derivado da dinâmica que o setor do turismo vinha a imprimir na Praia da Vitória. Falo dos setores das pescas e da agricultura porque o turista que vem à Praia da Vitória e aos Açores é um turista que gosta de experimentar os produtos locais. Portanto, havia aqui um crescimento substancial de serviços e de produtos desses dois setores que por via da restauração e hotelaria vinham chegando ao setor do turismo com grande impacto, por isso há uma quebra indireta nesses setores.

Por ocasião do confinamento, a autarquia da Praia da Vitória avançou com diversas medidas de apoio, às famílias e às empresas. Estas medidas são para continuar?

Tomámos um conjunto de medidas para os meses de abril, maio e junho, das quais destaco, por exemplo, o desconto de 50% na fatura da nossa empresa de água e resíduos para todas as famílias do concelho. Além disso, todas as empresas com sede na Praia da Vitória ficaram isentas da taxa e tarifa de resíduos. Digamos que estas foram as medidas mais genéricas e de maior impacto. Tomámos também medidas de apoio direto e urgente devido ao Covid-19 para a Associação Voluntária dos Bombeiros da Praia da Vitória e para as IPSS do concelho que tinham estruturas residenciais, nomeadamente os lares de idosos, as estruturas para crianças e jovens. Posteriormente no passado dia 20 de junho, aquando da celebração do 39º aniversário de elevação da Praia da Vitória a cidade, avançamos com um conjunto de medidas de caráter mais permanente até ao final do ano. Estas medidas já estão em vigor e pretendem, por um lado atenuar as dificuldades em alguns setores como a isenção da tarifa de resíduos para todo o canal horeca (hotéis, pensões, hostel, residenciais restaurantes, snackbar, cafés e similares), mas também tomamos medidas de impulso económico e, dentro do que são as competências da câmara municipal, há uma medida para um setor que não sofre com esta pandemia e que pode ser fundamental para alavancar a economia, ou seja, o setor da construção civil. Desta forma, todas as licenças urbanísticas e de edificação na Praia da Vitória estão isentas até ao final do ano. Esta é, na nossa opinião, uma medida de grande alcance que permite dar um impulso a este setor porque é um setor que garante a criação de emprego. Acrescem também outras medidas de apoio às famílias e às empresas, nomeadamente a isenção de todas taxas que a câmara municipal cobra, desde os concessionários, ao parque habitacional do município; e a isenção de taxas de ocupação da via pública, publicidade e similares.

Que ‘feedback’ tem sido transmitido pelos empresários em relação às medidas de apoio da autarquia e às do Governo dos Açores de forma geral?

Na sequência do desconfinamento e da medidas que pretendíamos implementar para este segundo semestre do ano - que sabemos que será muito difícil para as famílias e para as empresas - e antes de anunciarmos estas medidas que referi, a Câmara Municipal da Praia da Vitória reuniu com os 50 maiores empregadores do concelho, ouvimos os seus contributos, ouvimos os seus anseios, as suas dificuldades e creio que as medidas que anunciamos para este segundo semestre vai ao encontro daquilo que foi reivindicado pelos empresários. Assim, creio que o balanço é positivo. Aliás, neste exercício orçamental, a Câmara Municipal tinha terminado com a derrama, ou seja, já tínhamos eliminado este imposto às empresas da Praia da Vitória. Relativamente às medidas quer do Governo dos Açores, quer da República, penso que o balanço também é positivo. Naturalmente, há uma grande preocupação em especial dos empresários do setor do turismo e a expressão utilizada pelos próprios e que compreendemos é que teremos um período com três invernos. Ou seja, tivemos o inverno passado, este verão será muito semelhante a um inverno e teremos o inverno que se aproxima. Provavelmente, só a partir de meados da Páscoa de 2021 é que o setor do turismo poderá voltar aos indicadores que tinha anteriormente, na medida em que esperamos que não haja nem uma segunda, nem mais nenhuma vaga da pandemia.

Por esta altura já se vê muitos turistas no concelho?

Já se nota, mas com números muito abaixo daquilo que era habitual nesta altura do ano. Esta seria a semana das Festas da Praia, uma altura em que recebia os seus emigrantes, tantos e tantos turistas, em que a capacidade hoteleira da ilha Terceira ficava esgotada. O período que vivemos agora, comparado com o homólogo e anos anteriores, era a altura do ano em que havia mais rendimentos no setor do turismo e da hotelaria e o que se passa hoje em dia não é nem de longe, nem perto o que era habitual. Contudo, já que se nota alguns turistas, alguns visitantes, nomeadamente de outras ilhas dos Açores e também de Portugal Continental, por isso deixo aqui o repto a todos os açorianos para que venham até cá neste verão, que venham desfrutar, em segurança e em família, de umas merecidas férias na Praia da Vitória.

Concorda com o cancelamento da operação sazonal da Atlânticoline deste ano?

Creio que foi uma boa decisão, porque a operação sazonal da Atlânticoline tinha duas premissas que não seriam comportáveis no cenário atual. Por um lado, o valor do fretamento dos navios é bastante avultado para o número de passageiros que seria expectável transportar este ano e naquilo que é a operação no Grupo Central a mesma foi alargada a todo o grupo e vem de alguma forma acomodar um setor e um nicho de mercado regional e interno do Grupo Central.

Em relação ao número de voos interilhas para a Terceira, na sua opinião são suficientes para colmatar o cancelamento da operação marítima?

Creio que neste momento a questão do número de toques de navios é o número de toques dos aviões. Aliás, atualmente apesar do número de voos ser muito menor daquilo que seria habitual nesta altura do ano, o certo é que os voos ainda têm muita capacidade para terem passageiros a viajar até à ilha Terceira. A questão fundamental é termos uma oferta de voos superior à procura de passageiros.

Ter que cancelar as ‘Festas da Praia’ foi uma decisão difícil?

Sem dúvida que foi uma decisão difícil e uma decisão que tem impactos na riqueza gerada no concelho e em particular no setor do turismo e junto dos nossos empresários, bem como na criação de emprego no nosso concelho. Procuramos sempre adiar esta decisão. Chegamos a pensar numas ‘Festas da Praia’ local ou regional caso existissem condições, mas considerando o evoluir da situação entendemos que não poderíamos manter o cartaz e a atração turística quando decorreu a abertura da Região, porque poderíamos ter um fluxo externo de pessoas que seria incomportável. É importante dizer que o principal objetivo e aquilo que nos move neste momento é salvaguardar a situação de saúde pública na Praia da Vitória e na ilha Terceira.

No que diz respeito ao festival literário ‘Outono Vivo’ que a autarquia da Praia da Vitória organiza entre outubro/novembro, a sua concretização será avaliada nos próximos meses?

Exatamente. Iremos avaliar em meados de setembro. Recordo que em relação às feiras e festivais literários a nível nacional por esta altura do ano é que irão acontecer, nomeadamente a Feira do Livro de Lisboa e do Porto. Relativamente ao ‘Outono Vivo’ iremos avaliar sendo certo que há duas preocupações, o ‘Outono Vivo’ coincide com um período em que há quase sempre um pico da gripe sazonal e em que é previsível coincidir com uma eventual segunda vaga de Covid-19. Desta forma, não iremos arriscar, e se tivermos que cancelar o evento, assim o faremos porque em primeiro lugar está a saúde pública. Numa segunda linha, a organização do ‘Outono Vivo’ obriga a uma grande antecedência devido à vinda dos milhares de livros. Portanto, este prazo e estas questões obrigam-nos a uma decisão que creio que em setembro teremos condições de a tomar com toda a segurança.

O que lhe preocupa mais nessa altura?

Preocupa-me a possibilidade de uma segunda vaga. Esta é uma incógnita que nos assola a todos. Esta eventual segunda vaga é tão falada e comentada a nível nacional, com muitas divisões entre os especialistas em epidemiologia. Não conseguirmos perspetivar o que vai acontecer num futuro imediato é muito difícil porque se este ano já está a ser um ano extremamente exigente e difícil para todas as famílias e empresas e, no momento em que falamos, não podemos perspetivar a evolução que a pandemia terá para podermos projetar, de uma forma mais segura, os meios e mecanismos necessários. Temos que ir gerindo a nossa vida, quer pessoal, quer profissional, quer comunitária quase que ao dia conforme a evolução da situação. A imprevisibilidade relativamente ao futuro tão próximo é uma enorme preocupação. Claro que a saúde pública tem de ser uma prioridade absoluta e é isso que nos deve mover e concentrar toda a nossa energia. Neste cenário a grande preocupação de qualquer autarca é a sustentabilidade e o equilíbrio do concelho, apoiar as famílias que passam dificuldades e tiveram perda de rendimentos e apoiar as empresas que também sofrem com esta crise e que não conseguem ser geradoras de riqueza e de emprego.





 
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