Açoriano Oriental
AAUA pede revisão do modelo de acesso ao ensino superior face à redução de candidatos açorianos

A quebra nas candidaturas à Universidade dos Açores (UAc) levanta preocupações sobre o modelo de acesso, os custos da habitação e o impacto do ensino profissional. A Associação Académica da UAc defende a revisão das regras e maior apoio aos estudantes.

AAUA pede revisão do modelo de acesso ao ensino superior face à redução de candidatos açorianos

Autor: Filipe Torres

A redução de 16,6% no número de candidatos açorianos ao ensino superior, face a 2024, acendeu os alertas na Associação Académica da Universidade dos Açores (AAUA).

Ao Açoriano Oriental, João Soares, administrador da AAUA,  afirma que a quebra exige uma reflexão profunda sobre o modelo de acesso, as condições económicas das famílias e o peso crescente da habitação estudantil.

Um dos fatores apontados pela AAUA prende-se com o crescimento do ensino profissional. Muitos cursos oferecem estágios práticos no final do 12.º ano, frequentemente seguidos de estágios remunerados. “Isso complica a adesão imediata à universidade, porque o estudante vê no estágio uma oportunidade de rendimento antes de prosseguir estudos”, afirma.

As mudanças recentes nas regras de acesso ao ensino superior, nomeadamente a redução do peso dos exames nacionais, também terão contribuído para a diminuição. “Tem de existir uma revisão do modelo já para o próximo ano letivo. Este ano houve menos de 9 mil candidaturas e menos de 6 mil colocações em todo o país, face a 2024. São sinais preocupantes”, defende o administrador.

A Associação considera que esta revisão deve ser acompanhada por uma discussão mais ampla sobre o financiamento das instituições e sobre a ação social escolar.

O custo da habitação surge como uma das maiores barreiras. Em Ponta Delgada, quartos para estudantes podem atingir os 400 euros mensais. “Estamos a falar de valores incomportáveis para muitas famílias, sobretudo quando somados às propinas e às despesas correntes”, explica.

O Observatório do Alojamento Estudantil aponta para um aumento de 50,5% nos preços em quartos privados em Ponta Delgada, com uma média que ronda precisamente os 400 euros - e um máximo de 500 euros. Perante este cenário, a AAUA defende um esforço conjunto entre Governo Regional, Universidade e setor privado. “Temos de criar mais camas e garantir contratos de arrendamento formais. Caso contrário, continuaremos a ter uma cidade mais virada para o turismo do que para os estudantes.”

A UAc prepara-se para reforçar a oferta de alojamento. Em Ponta Delgada estão projetadas 120 novas camas, a que se juntam mais 100 em Angra do Heroísmo e outras tantas na Horta. “Não resolve totalmente o problema, mas é um passo positivo. Uma residência universitária é sempre um chamariz para os novos estudantes”, considera o dirigente académico.

A Associação defende igualmente que é preciso rever a oferta formativa, tanto nos Açores como no continente. “Há cursos com pouca adesão este ano, como Proteção Civil, que tradicionalmente têm procura elevada. É necessário avaliar o panorama, perceber o que está ajustado ao mercado e o que deve ser reformulado”, afirma João Soares.

Segundo a AAUA, o ensino superior deve garantir que o estudante adquira ferramentas que lhe permitam uma integração sólida no mercado de trabalho. “O futuro do país passa pela formação que damos hoje.”.

As dificuldades são particularmente sentidas pelos estudantes açorianos que optam por universidades no continente. “Um quarto no Porto pode custar 500 euros. Além disso, há propinas e transportes. Enquanto isso, um colega natural de Braga ou Guimarães pode estudar no Porto e regressar diariamente a casa, poupando centenas de euros”, salienta.
Daí o apelo da AAUA para que os jovens olhem para dentro da Região. “Temos bons cursos, docentes qualificados e uma ligação próxima às empresas. A UAc não deve ser vista como segunda opção, mas como uma escolha válida e estratégica.”

Com a segunda fase do concurso nacional de acesso a decorrer, ainda estão disponíveis 229 vagas na Universidade dos Açores. A Associação Académica espera que muitas sejam preenchidas, invertendo parcialmente a tendência negativa registada este ano.

“Estamos prontos para receber os novos colegas, apoiar na integração e garantir que sentem a UAc como a sua casa”, conclui João Soares, deixando ainda uma mensagem de boas-vindas: “Que venham com vontade de aprender, de conhecer e de participar. É com todos que construiremos um ensino superior mais forte e um futuro mais risonho.”

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