No centenário do “Peter Café Sport”

No centenário do “Peter Café Sport”

 

Victor Rui Dores   Regional   8 de Jan de 2019, 11:45

Neste espaço de todos os reencontros, bebo o gin da amizade com José Henrique Azevedo, proprietário do “Peter”. O café festejou, no passado dia 25 de dezembro, 100 anos de existência.

Simbolicamente o programa comemorativo incluiu 100 atividades que decorreram ao longo de 2018, com especial destaque para as diversas provas náuticas. Foi também o ano em que o “Peter” integrou a Associação Europeia de Cafés Históricos. Mas de que falamos nós quando falamos do “Peter”? Feliz e orgulhoso, José Henrique fala-me do historial do café.


Começa por lembrar seu bisavô, Ernesto Lourenço Azevedo (1859-1931), comerciante já instalado na praça faialense que possuía um bazar de artesanato no Largo do Infante e que se dedicava ao comércio de produtos locais: bordados, rendas, chapéus e cestos de palha, flores de penas, trabalhos de crivo e muitos outros artigos do artesanato local. Foi com estes produtos que em 1888 participou na Exposição Industrial de Lisboa, tendo obtido, pela sua qualidade e diversidade, a respetiva medalha de ouro e diploma.


A mudança do século XX levou Ernesto Azevedo para a Rua Tenente Valadim, adquirindo um dos edifícios que hoje está incluído naquilo que é o “Peter”. Chamando-lhe “Azorean House”, mantendo o comércio de artesanato mas passando também a vender bebidas, este novo estabelecimento permitia ao seu proprietário a enorme vantagem de estar mais próximo do porto e por isso de todo o movimento que ele gerava como único local de entrada e saída de bens e pessoas da ilha.


Já nessa altura o estabelecimento apresentava uma característica fundamental: era um negócio familiar, ocupando o pai, Ernesto Azevedo, e o filho Henrique Lourenço Ávila Azevedo (1895-1975), que acabaria por ser o 'continuador' da tradição familiar e o herdeiro da “Azorean House”.


Entretanto na Europa e no Mundo sucedem-se acontecimentos marcantes nomeadamente as duas grandes guerras mundiais que direta e indiretamente atingem o Faial: aumenta, significativamente, o movimento do porto da Horta, numa altura em que já ali estavam instaladas as companhias dos cabos Telegráficos Submarinos.


Em 1918, já por sua conta, Henrique Azevedo transfere a “Azorean House” para o edifício vizinho do lado norte, mantém o mesmo ramo de negócio e, como era desportista, muda-lhe o nome para “Café Sport”; escolhe novo mobiliário e decoração com motivos náuticos (com destaque para a famosa águia americana como símbolo) e, por influência dos ingleses ligados às companhias dos cabos telegráficos, aposta, com sucesso, na venda de gin tónico.


O entrevistado dá um salto temporal para falar de seu pai, José Azevedo (1925-2005) que, menino e moço nos anos 30, ajuda o pai no café e vai executando vários serviços, desde o transporte de munições para os navios, passando pelo trabalho na cantina que fornecia víveres aos barcos de passagem. Com o tempo, o miúdo vai melhorando o seu domínio da língua inglesa. Um inglês, oficial chefe dos serviços de munições e manutenção do navio Lusitania II, atracado no porto da Horta, engraçou com José Azevedo, agora com 15 anos de idade. Achando-o parecido com o filho que tinha ausente, passou a chamá-lo pelo nome dele, “Peter”, argumentando que assim pensaria ter o filho a seu lado.


Dos ingleses para os portugueses, o nome “Peter” passou tão rápido como indelevelmente e de tal forma suplantou o nome de batismo de José Azevedo. Estava encontrada a marca registada daquele que viria a ser um dos mais carismáticos e emblemáticos cafés do mundo.


Sempre com o pai por perto, José Azevedo dedica-se a tempo inteiro ao café e reforça a prestação de serviços aos navios que aportam à Horta. A partir dos anos 60 surge um novo tipo de visitantes: os tripulantes das embarcações de recreio (“Os aventureiros”). Para além do convívio e da tertúlia, o “Peter” torna-se agência de informações, posta-restante e espaço de câmbios.


Por este café têm passado os skippers mais celebrados de todo o mundo, incluindo o cantor belga Jacques Brel, que ali cantou no dia 19 de setembro de 1974. Hoje a comunidade iatista internacional considera o “Peter” como um dos melhores bares do mundo para receber velejadores.


Com a morte de José Azevedo, seu filho, José Henrique Gonçalves Azevedo, que desde muito novo vinha ajudando o pai, mantém a tradição familiar e toma as rédeas do café. Nos últimos 40 anos, alargou e expandiu a marca “Peter” para outras localidades, dando ao negócio um cunho moderno e empresarial. Foi em grande parte devido ao seu empenho que nasceu, em 1986, o Museu de Scrimshaw (que guarda valiosíssimo espólio de artefactos em dente e osso de baleia), bem como a loja de Souvenirs, contígua ao café.


O “Peter” continua a ser sinónimo de acolhimento, repouso, hospitalidade e convívio. E, mais do que um café, é hoje uma instituição de renome internacional.




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