Açoriano Oriental
“Ser criativa é uma torneira que nunca fecha”

Sofia de Medeiros. Escultora e professora, mantém uma inquietação criativa que atravessa fronteiras, materiais e gerações. Nascida em São Miguel, mas com raízes no Algarve, construiu um percurso artístico entre o continente e os Açores, onde hoje continua a criar, ensinar e a desafiar os limites da arte


“Ser criativa é uma torneira que nunca fecha”

Autor: Ana Carvalho Melo

Uma mente em constante ebulição, onde a criatividade está sempre ativa, a artista Sofia de Medeiros diz que gosta de desafios e de aprender.

“Eu gosto muito, muito, muito de aprender. Temos de nos desafiar para crescer. Ser criativa é uma torneira que nunca fecha”, afirma.

Por isso, Sofia de Medeiros, que em breve vai apresentar os trabalhos que resultaram da residência artística ”Entrelaçar com fibras vegetais” na Lagoa, conta que nunca deixa de criar novas peças de arte, ainda que possa ir modificando o seu registo, tendo sempre como constante o trabalho em escultura com metal.

“Vai-se mudando o registo, mas é impossível parar, porque criar é um processo doloroso. Quase de angústia. É uma ansiedade de pôr essa coisa cá para fora. E, até isso acontecer, é um processo angustiante”, revela.

Sofia de Medeiros nasceu e cresceu em São Miguel, mas teve uma infância muito influenciada também pelas origens algarvias da sua mãe.

“A minha infância e a minha adolescência foram ótimas. Passei-as entre cá e lá, porque, como a minha mãe é algarvia, todos os verões íamos para o Alentejo e Algarve. Por isso, tenho sempre esta relação muito próxima com essa região. Embora os meus avós tenham falecido cedo, tenho uma ótima relação com o campo e com o saber-fazer. Lembro-me da minha avó estar sentada num banquinho, sobretudo a fazer trabalhos têxteis. A minha avó era extremamente inteligente e aproveitava tudo”, relata.

Recorda também a forte influência dos pais, que sempre a incentivaram a experimentar coisas novas.

“Os meus pais eram os dois muito dotados, por isso sei fazer muitas coisas. Viajar também foi muito importante para mim”, refere.

Durante a adolescência iniciou-se no mundo das artes, tanto na pintura e no desenho como na dança contemporânea com Milagres Paz, que teve e continua a ter um grande impacto na sua vida. 

“No sétimo ou oitavo ano comecei. A única coisa que havia era a Academia das Artes. Os meus pais colocaram-me logo lá, onde tive aulas de desenho, de carvão e de pintura”, conta, recordando: “A partir do décimo, tive aulas que foram muito importantes no meu percurso artístico, com o Francisco Cogumbreiro, que tinha vindo da Suíça há pouco tempo. E ele é excelente em termos de desenho”.

Recorda mesmo um episódio que “deixou as pessoas muito chocadas”.

“O Francisco Cogumbreiro dava aulas de modelo nu e lembro-me que metade dos alunos desistiu, mas eu e mais uns três ou quatro não. Imagina, no final dos anos 80, aqui na ilha, meninas adolescentes a terem aulas de nu. Mas os meus pais não ligavam nada a isso. Eram super abertos e consideravam que devia frequentar as aulas se eram necessárias para ter boas bases”, lembra.

Mesmo assim, na hora de escolher, ainda ponderou entre as Belas-Artes e a dança. A falta de bases em dança levou-a a decidir-se pela escultura na Faculdade de Belas-Artes do Porto.

“Fui sozinha, não conhecia o Porto. Mas sempre fomos uma família de aventureiros. Nunca tivemos medo de experimentar coisas novas”, afirma.

No Porto, concluiu o bacharelato em Escultura, tendo a vontade de ter uma experiência no estrangeiro levado a que completasse a licenciatura também em Escultura, pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Aí teve acesso a uma bolsa do programa Sócrates/Erasmus na Norwich School of Art & Design, em Inglaterra.

“Em Inglaterra trabalhei em fundição. Uma experiência única”, conta.

Quando regressou a Lisboa, concluiu a licenciatura e, depois, fez o mestrado em História da Arte na Universidade Lusíada.

“A minha tese foi sobre a talha barroca, que publiquei através da Artes e Letras, porque foi sobre a região. Esta é uma área que me inspira muito”, realça.

Entretanto, começou a lecionar no final dos anos 90, no Alentejo.

“Fiquei no Alentejo Litoral, onde consegui sempre conciliar a minha vida profissional com a vida artística. Consegui sempre ter um ateliê de escultura. Houve sempre alguém que me emprestasse uma garagem, um cantinho. Tive sempre essa sorte - até hoje - houve sempre alguém que me acolhesse”, refere.

Foi também no Alentejo que apresentou a sua primeira exposição individual, no Centro Cultural de Sines.

“Até então tinha feito coletivas. A exposição chamava-se ‘O Voo’, com esculturas em metal e desenho de nu sobre tela.”

Veio para os Açores em 2005, por causa do trabalho, e foi onde depois teve o seu filho, tendo decidido ficar definitivamente na Região para que ele pudesse crescer com a mesma qualidade de vida de que ela própria usufruiu.

Ao regressar aos Açores, começou por dar aulas e, depois, foi convidada a liderar o Centro Regional de Apoio ao Artesanato dos Açores (CRAA), o atual Centro de Artesanato e Design dos Açores (CADA).

“Esse desafio foi possível porque foram visitar a exposição que fiz no Museu Carlos Machado: ‘Brincos Princesas. Nem princípio, nem fim’. Era uma exposição com pouco trabalho em ferro e muito trabalho têxtil. Na altura, por ter regressado, despertou-me a vontade de estudar a questão do artesanato e da arte. E fiz aquela exposição dedicada só à exploração têxtil, com um olhar feminino e muito crítico do papel social da mulher. E foi a partir desse trabalho que me fizeram um convite que aceitei - como sempre”, recorda.
Sobre a experiência no Centro de Artesanato dos Açores, recorda que foi “um desafio muito interessante”: “Conheci pessoas interessantíssimas. As artes e ofícios são extremamente ricos aqui na região, em todas as ilhas. E há muito para fazer ainda. Fiz muito, desenvolvi muitos projetos ligados à educação, para criar condições de promoção, programas de apoio. Dediquei-me imenso. Claro que, nesses anos, fiz menos trabalho artístico. Mas não deixei de fazer”, afirma.

Atualmente está a lecionar, mas continua a produzir artisticamente, apresentando os seus trabalhos individualmente ou através de projetos de partilha, como tem acontecido com a artista plástica Nina Medeiros.

“O projeto de partilha com a Nina tem sido recorrente, porque, embora com áreas completamente diferentes, com linguagens diferentes, temos pontos comuns - sobretudo em temas que gostamos de explorar. Ainda no Dia Internacional dos Museus fizemos uma intervenção no Museu do Traje que se chamava ‘Sem Espartilho’. Ela apresentou vídeo e eu escultura,”, destaca.

Desses trabalhos de partilha resultou também, recentemente, o espetáculo multidisciplinar “Diz-me que luz veem os teus olhos”, com direção artística de Milagres Paz, no Coliseu Micaelense, para o qual criou o trabalho escultórico.

Mesmo assim, lamenta que os artistas açorianos atualmente façam pouco trabalho em conjunto.

“Hoje em dia, acho que só há projetos para jovens e há pouco envolvimento, até intergeracional”, diz.

Neste momento, Sofia de Medeiros está a trabalhar num projeto que surgiu de um desafio feito pelo Município da Lagoa, a residência artística ”Entrelaçar com fibras vegetais” onde junta metais com fibras naturais.

“Estou fascinada com essa mistura. Portanto, estou fascinada com a espadana. E quero explorar mais a parte da espadana e da folha de milho. Isso deu-me um gozo! E agora os próximos trabalhos vão ser com essa mistura que adorei aprender”, destaca.

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