Sociedade

Novo 'call-center' vai quebrar isolamento da comunidade surda


 

Lusa/AOonline   Nacional   31 de Out de 2008, 16:23

A partir da próximo dia 4 de Novembro a comunidade surda vai ter à disposição um 'call-center' com serviço de vídeo-intérprete, para quebrar o isolamento e ajudar em coisas tão simples como marcar uma consulta médica.
"O serviço pretende unir a comunidade surda à comunidade ouvinte através de um 'call-center' onde vão estar intérpretes a fazer o atendimento das chamadas", explicou à Agência Lusa Nuno Carvalho, presidente executivo da ZONAdvanced, a empresa que disponibiliza à Associação Portuguesa de Surdos (APS) o serviço e o equipamento que permite o funcionamento do 'call-center'.

    "O surdo poderá contactar esse 'call-center' através de três formas: o telemóvel, através de vídeo-chamada; através do computador, descarregando uma aplicação que permite fazer a chamada; e através do telefone fixo, com um equipamento para chamadas de vídeo", adiantou Nuno Carvalho.

    Com este 'call center', todas as pessoas surdas que ligarem 1000 - se estiverem a utilizar um telefone fixo ou o computador pessoal - ou 210343712 - se estiverem a ligar de um telemóvel - podem a partir da próxima segunda-feira pedir ajuda para marcar uma consulta médica, chamar um táxi ou pedir os serviços de um electricista, por exemplo.

    "O intérprete fará a ponte ao serviço correspondente para ajudar o surdo a aceder ao serviço", explicou o representante da empresa que fornece o serviço.

    Para o presidente da APS, João Alberto Ferreira, este serviço vai permitir retirar a comunidade surda do isolamento e funcionar como um grande ajuda em caso de dificuldade.

    "Pessoas que vivem sozinhas em casa, como é que depois chamam alguém? Em caso de incêndio ou fuga de gás, uma cheia, qualquer coisa que possa acontecer, pedimos a quem esse auxílio? O nosso objectivo, no fundo, é que a pessoa não perca o contacto", declarou João Ferreira.

    Hugo Passos, casado com uma pessoa surda e pai de um filho ouvinte, já por várias vezes se confrontou com situações em que sentiu falta de um serviço como o que vai estar disponível com este 'call-center'.

    "Já estive em muitas situações em que senti falta deste tipo de serviço. Às vezes com o meu filho fico na dúvida, o que é que se passa com ele. Às vezes a família e os amigos não têm tempo para me ajudar e precisava de facto de um serviço destes. Às vezes vou ao hospital e há uma barreira na comunicação. É muito complicado", disse.

    Também Roberto Camacho só encontra vantagens na utilização deste novo serviço, que, afirmou, vai aumentar a comunicação e acessibilidade dos surdos.

    "A ideia é que haja uma igualdade entre os ouvintes e os surdos e mostrar às pessoas ouvintes que existe essa igualdade e não uma disparidade a nível de acesso", referiu.

    Para o presidente da APS, a única falha a apontar de momento é o horário de atendimento, que está restringido a um funcionamento entre as 09:30 e as 12:30 de segunda a sexta-feira.

    "O horário não é suficiente. O meu objectivo era disponibilizar o serviço durante as 24 horas, mas estamos a dar um passo e é melhor que nada, como se costuma dizer", lamentou João Ferreira.

    Quando o serviço estiver disponível durante as 24 horas do dia, sete dias por semana, pretende-se estabelecer uma ligação ao número de emergência, 112.

    De acordo com Nuno Carvalho, o modo de funcionamento do 'call-center' já permite uma integração do serviço de emergência, uma vez que se for feita uma chamada com o intuito de pedir auxílio, o próprio intérprete pode fazer a ligação para o 112.

    "No entanto, parece-nos mais conveniente que as próprias entidades que servem o 112 possam de certa maneira integrar isto nos seus 'call-centers'", sustentou.

    A tecnologia envolvida nos equipamentos que permitem aceder ao serviço podia ser à partida uma forma de excluir alguns membros da comunidade surda do acesso ao 'call-center', mas João Ferreira considerou que, apesar de alguma falta de informação, o problema pode ser facilmente ultrapassado.

    "Podemos resolver essa situação dando-lhes formação, mostrar os equipamentos, explicar como é que eles funcionam. Depois na prática é uma questão do dia-a-dia. É no fundo igual a qualquer pessoa que acabe por se adaptar a um novo meio tecnológico", declarou.

    As chamadas para o 'call-center' não terão qualquer custo para os utilizadores, a menos que sejam feitas a partir de telemóveis, sendo, nesse caso, taxadas de acordo com os tarifários para vídeo-chamadas da operadora móvel utilizada.

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