Músico e formador Roberto Rosa

“Não gostava de ir para a filarmónica”

“Não gostava de ir para a filarmónica”

 

Sónia Bettencourt/AO Online   Regional   1 de Nov de 2019, 10:00

Dentro das quatro linhas é treinador de futebol de formação. Fora é músico – toca trompete e dirige a batuta. Roberto Rosa, de 34 anos, nasceu no Canadá, cresceu na ilha de São Jorge e estudou no Faial e na Terceira onde reside. No desporto e na música, o seu objetivo: ter um papel ativo na sociedade.

Bola no pé e sopro no trompete. Uma rotina de paralelos no desporto e na música. Portanto se não for no campo, será nos palcos que, por norma, encontramos Roberto Rosa. Ora sensível a José Mourinho, Jorge Jesus e Jurgen Klopp, ora a Wynton Marsalis, Cris Botti e Chet Baker, o jovem nascido no Canadá, filho de pais da Ribeira Seca, na ilha de São Jorge, depressa aprendeu que tudo na vida resulta de trabalho, esforço e dedicação, alguma sorte e um sem número de alegrias e desilusões próprias de quem se mete em projetos seja de que área for. Por outras palavras, é como quem diz “a sorte dá muito trabalho” ou, ainda, “sê todo em cada coisa”.

Será uma das formas de tentar chegar à perfeição, diz o músico/treinador, fazendo lembrar as palavras do seu avô José Garcia da Rosa, uma das referências na sua educação. Aliás, se há coisa que Roberto Rosa não se esquece é de quem lhe deu a mão. E o pé, se quisermos fazer uma analogia ao futebol.

Assim, por um lado, nomes como Paulo Borges, Antero Ávila, Anabela Albuquerque, Antonella Barletta, Sara Miguel e Tomás Lamas Pimentel surgem vezes sem conta durante a nossa conversa, por outro, Nicolau Carvalho e Pedro Lima. Escusado será dizer que se tratam de músicos, professores e técnicos desportivos; figuras de proa no percurso de um jovem que deu os seus primeiros passos na Sociedade Filarmónica União Popular da Ribeira Seca, uma das bandas de metais mais antigas dos Açores, ainda em atividade, era então Porfírio Pacheco o seu maestro, a quem, hoje, lhe reconhece uma visão à frente do seu tempo.

“Não gostava de ir para a filarmónica. Fui obrigado pelo meu pai. Chorava. Sentia medo do que era diferente e, na altura, a música era [um lugar] mesmo diferente”, confessa Roberto Rosa, contando que, mais tarde, aos 12 anos, escolheu o seu instrumento por influência de um primo que tocava trompete na mesma filarmónica.

“Depois de tocar com um emprestado, chegou o meu trompete, novo, do Canadá. Os meus olhos brilharam e aí deu-se um 'click' e um sentido de responsabilidade acrescido pelo esforço dos meus pais nesse investimento financeiro”, recorda.

Uma época determinante que integrou inclusive uma viagem da filarmónica aos Estados Unidos da América, em finais dos anos 90, num misto de aventura e “passagem de nível”, fomentando o gosto e a importância da educação musical; enaltecendo o papel do seu próprio pai também ele ligado à música e às tradições locais jorgenses.


Do Jazz ao Orfeão

Aos 16 anos conheceu o terceirense Paulo Borges, músico e professor de trompete, agora a lecionar na Escola Secundária Tomás de Borba, em Angra do Heroísmo, que considera o seu melhor amigo. Foi da Terceira a São Jorge dar uma formação e então começou uma nova vida para Roberto Rosa que ainda antes de fixar residência na ilha de 'Jesus Cristo', passou pelo Faial para frequentar o Conservatório Regional da Horta.

Do seu currículo e dos projetos musicais em que tem vindo a inscrever o seu nome, é caso para dizer que “o primeiro dia do resto da tua vida” começou na “terra dos bravos”, aos 21 anos, ou seja os convites e as oportunidades surgiram-lhe como se fosse obra do destino, traçada lá atrás, perdida nas Fajãs, quando em criança, por receio, evitava ir aos ensaios da centenária banda filarmónica ligada ao reconhecido compositor e musicólogo Francisco de Lacerda.

Roberto Rosa fala com carinho da extinta Orquestra Regional Lira Açoriana e da participação na Federação de Bandas Filarmónicas dos Açores, e mostra orgulho e paixão pela Orquestra Angrajazz, um género de “primeiro amor” que teve como intermédio um Curso Livre de Jazz orientado pelos músicos Claus Nymark e Pedro Moreira. “Na altura, a minha cabeça começa a virar-se para o jazz. Embora oiça todos os géneros musicais, o jazz é a minha primeira opção”, destaca.

E entre o jazz que se tornou pulmão e as contínuas formações, contrariando a máxima que a tirania estimula a criação, o músico luso-canadiano agarrou nas suas ferramentas, reforçou laços com quem faz das partituras o seu 'modus vivendi', e impulsionou a criação da Orquestra de Sopros da Ilha Terceira – OSIT, em 2012, com os músicos Paulo Borges e Antero Ávila.

Deixou fluir a música e abraçou ainda os projetos Lava Brass Quintet, Sara Miguel Quarteto, Bruma Project (cofundador) e, em 2018 o Orfeão da Praia da Vitória, este último na qualidade de maestro, uma função que demorou a aceitar. “Devemos sair da nossa zona de conforto para crescer”, considera.


Fairplay

Recuando no tempo, até São Jorge, Roberto Rosa confessa que sempre jogou futebol e que desde cedo percebeu o quão “desajeitado” era para dar um pontapé numa bola. Porém o gosto estava lá no campo onde ia com o seu pai ver as partidas. Se, na realidade, o desempenho parecia difícil como jogador, no virtual o cenário aliciava o lado do treinador – os videojogos passaram a fazer parte dos seus tempos livres, sem expectativas, longe de imaginar que no futuro iria chegar a treinador de futebol de formação da Escola Academia Sporting de Angra do Heroísmo (EASAH).

Entretanto apostou nos cursos de treinador de futebol, passou pelo Sport Clube Praiense, e épocas depois foi convidado pelo Sport Clube Lusitânia que tem uma parceria com a EASAH. Hoje, aos 34 anos, treina sub 5 e sub 11. “Ponderei muito. É uma das escolas de futebol de formação de referência a nível mundial e com uma metodologia de treino que faz a diferença. Basta ver jogadores como Cristiano, Nani, Quaresma, William Carvalho... Foram e são também uma referência”, salienta o treinador que defende a importância das crianças viverem o 'desporto-rei' de forma “divertida e apaixonada”, sem pressão para serem “bons” como o jogador A ou B, pois, esclarece, sobretudo para os pais, “o resultado nesta fase não é o mais importante”.

Neste sentido, questionado acerca das conquistas que procura um treinador de futebol de formação, o 'mister' considera acima de tudo “ter a consciência de que não sabemos se vão ser jogadores de futebol, mas sim que vão ser cidadãos”. “Procuro ter um papel de formador antes de ser treinador. Não vou preparar uma equipa para perder jogos, mas os valores têm de estar em primeiro lugar e, então, depois, vem a parte técnica. Claro, o meu papel passa por fazer com que eles evoluam tecnicamente para prosperarem enquanto jogadores”, explica a propósito, também, da relevância do 'fairplay'.

Com tantos projetos, diz que organização e planeamento são palavras-chave. São todos trabalhos diferentes, mas o músico/ treinador é perentório quando questionado sobre o ponto que lhes será comum: a partilha. “A partilha tem de estar presente em cada projeto para que as coisas possam funcionar entre todos os que dele fazem parte”, defende o também formador de Expressão e Educação Musical no ATL 'Olhar Poente', no concelho da Praia da Vitória, e indivíduo com um papel social ativo que preza e defende.

“Procuro que os meus alunos oiçam música de qualidade e que os meus jogadores sejam melhores pessoas no futuro. Fazer com que tenham espírito crítico e não aceitem tudo sem refletir”, concretiza Roberto Rosa.

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