Moderação nos brinquedos modernos


 

Lusa/AOonline   Nacional   23 de Dez de 2007, 10:08

Os brinquedos dominam a atenção das crianças que preferem cada vez mais as novas tecnologias, mas cabe aos pais a moderação no uso destes brinquedos porque em excesso são prejudiciais para a esfera familiar.
 As crianças têm acesso a brinquedos tecnológicos cada vez mais cedo, até porque também são incentivadas ou estimuladas à utilização desse tipo de brinquedos, como explicou à Lusa a socióloga Sílvia Saramago, referindo-se à publicidade que se faz à volta da promoção de determinados produtos infantis.

    "As crianças são muito expostas à publicidade e o desenvolvimento tecnológico está também nesse mundo e é inevitável que a evolução dos brinquedos tenha esse curso", disse Sílvia Saramago.

    Para esta socióloga, as crianças "têm vindo a tornar-se numa fatia de mercado cada vez mais apetecível pelas grandes empresas e pelas grandes corporações ligadas à indústria dos brinquedos e é fundamental referir que esta tendência está em consonância com um movimento de ‘empoderamento’ que tem vindo a ser fomentado relativamente ao grupo da infância".

    Quer isto dizer que cada vez mais o poder que as crianças têm sobre o seu contexto familiar é maior e tudo indica que a influência sobre as tendências de consumo dos seus agregados familiares continue a crescer.

    Junto de uma das maiores lojas de brinquedos foi possível perceber que as preferências das crianças se viram cada vez mais para as novas tecnologias em detrimento dos brinquedos tradicionais e que essa é uma tendência acompanhada pela vontade constante dos pais em satisfazerem os desejos dos filhos.

    "A tendência dos últimos anos é que as crianças preferem os brinquedos mais tecnológicos, principalmente as consolas e os videojogos (...) que acabam por ser os brinquedos mais comprados porque os pais, como é lógico, tentam satisfazer sempre os pedidos dos filhos", revelou o gerente da loja Toys'r Us do Centro Comercial Colombo, em Lisboa.

    Entre os pais, é notório que tudo fazem por conseguir satisfazer as vontades dos filhos, mesmo quando não gostam ou não aprovam as prendas que os filhos lhes pedem.

    Para Susana Simões, mãe de uma criança com seis anos e outra com 10, "o Natal é sempre a altura em que é suposto receberem aquilo que andam a pedir a toda a hora", como o jogo e a playstation que os filhos lhe pediram e a que Susana acedeu, mesmo não sendo "muito fã".

    "Quando se fala de jogos playstation, por exemplo, não sou muito fã, não sou muito adepta e está controlado o tempo para esse tipo de jogos lá em casa, mas concordo que a certos níveis, por exemplo, lhes desenvolve a capacidade de reacção, os reflexos, concordo porque já experimentei e vejo como é difícil muitas vezes", justificou.

    Nuno Melo, por seu lado, entende que o contacto com as novas tecnologias deve ser feito "quanto mais cedo melhor".

    "Hoje em dia vivemos uma realidade completamente diferente e em que as tecnologias estão sempre presentes e quanto mais cedo eles aprenderem a contactar com elas tanto melhor para o futuro deles. Acho saudável, obviamente desde que supervisionado o conteúdo dos jogos", garantiu Nuno Melo, pai de dois filhos, com 8 e 9 anos.

    Exemplo do que de mais avançado se tem feito com novas tecnologias ao nível dos brinquedos é a boneca Violeta, indicada para crianças a partir dos cinco anos, e que chegou ao mercado português durante o mês de Novembro, sendo já um sucesso de vendas.

    Classificada como "a boneca tecnologicamente mais avançada do mercado", a Violeta tem 800 arquivos de som, um inovador sistema informático, é capaz de comer, brincar, falar, rir, dormir e "sentir" e a sua tecnologia inclui reconhecimento de voz, chips de memória e também robótica facial.

    "O objectivo de Judy Shackelford quando inventou esta boneca foi introduzir esta tecnologia tão avançada em brinquedos tradicionais como é o caso das bonecas e ao mesmo tempo privilegiar as meninas com essa tecnologia avançada porque as meninas continuam a voltar-se mais para este tipo de brinquedo tradicional", explicou Maria de Vasconcelos, comunicadora, durante a apresentação da boneca.

    Perante esta evolução galopante ao nível dos brinquedos e do direccionamento inequívoco para as novas tecnologias, qual deverá ser a postura dos pais? Proibir ou permitir?

    Áurea de Ataíde, psiquiatra da infância e da adolescência, alertou para a importância de se manter as características e a qualidade do 'brincar', principalmente na idade pré-escolar, porque "é fundamental para o desenvolvimento da criança", sobretudo da sua imaginação.

    Esta psiquiatra salientou que estão comprovados os malefícios da televisão e dos jogos electrónicos nas crianças quando usados durante muitas horas seguidas:"Por exemplo os jogos, especificamente os agressivos, também se sabe que provocam alteração no comportamento das crianças, fazem com que elas fiquem mais agressivas e utilizem formas mais destrutivas de lidar com os conflitos na sua vida", revelou.

    Nas palavras desta especialista, cabe aos pais a mediação entre os filhos e os brinquedos tecnológicos para que as crianças não venham a sofrer pelo uso em excesso e sem regras e é da opinião que as consequências negativas destes brinquedos podem ser minimizadas se os pais optarem por brincar com os filhos.

    Sílvia Saramago, socióloga da infância, não concorda com a teoria de que as crianças que usem novas tecnologias brinquem menos com as outras crianças porque entende que estes são brinquedos normalmente utilizados em casa e que, por isso, se há "alguma esfera que tenha a perder com o avanço da tecnologia é claramente a esfera familiar".

    "Identificada esta questão, as famílias deverão, e obviamente que isso é saudável, encontrar contextos alternativos. Porque não os próprios pais participarem na utilização da tecnologia? Brincarem também com os filhos quando utilizam a playstation ou utilizam o jogo?", sugeriu.

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