Cultura: A Economia que nos assiste

Cultura: A Economia que nos assiste

 

Alexandre Pascoal   Regional   22 de Nov de 2007, 14:30

«(...) a criação é uma coisa maravilhosa,
e as pessoas
que criam ao mais alto nível 
levam uma vida privilegiada,
por mais árdua e difícil que possa ser.
Uma vida interessante,
cheia de aspectos peculiares
e estranhas satisfações. (...)»
 
Paul Johnson (in Criadores)
A cultura passou a estar nas bocas do Mundo. Pelo menos na Europa, onde se definiu como uma prioridade assim que se percebeu que representa 2.6% do PIB (Produto Interno Bruto) da economia da UE. Paralelamente, e tendo em conta o enfoque atribuído à construção europeia num espaço cada vez mais alargado e com a multiplicidade cultural emergente, passou a ter lugar preponderante na solidificação e no estreitamento de elos de ligação entre os vários países do espaço europeu - a cultura como futuro: um elixir para a cura de alguns males que grassam na Europa e uma forma de promover o diálogo intercultural, pela mais-valia diplomática e pelo importante contributo na educação e no investimento do futuro da unidade europeia.
A revelação de que a cultura representa um papel importante na economia europeia e portuguesa (1,4% do PIB) deve-se ao impacto dos dados reunidos no “Estudo da Economia da Cultura” (KEA European Affairs, 2006), encomendado pela Comissão Europeia. A cultura para a Comissão Europeia é apresentada e defendida como um factor importante para a concretização dos objectivos de prosperidade, solidariedade, segurança e uma via para assegurar uma presença dos povos e nações ao nível internacional. Independentemente da perspectiva optimista que possa estar subjacente a esta concepção, existem vozes dissonantes que olham com desconfiança para este posicionamento, nomeadamente Andy C. Pratt, professor em Londres de Economia Cultural Urbana, que afirmou numa conferência que “a cultura está a ser usada instrumentalmente para alcançar outros fins (1). Lúcido, sem dúvida.
Uma importante percepção a ter da cultura é o seu valor económico intrínseco e o modo como ela se posiciona em pé de igualdade com os restantes sectores da economia. Contudo, tal não significa que não tenhamos de atender à cultura como uma questão particular, que pouco tem a ver com as leis do mercado tradicional na medida em que o seu tempo de maturação é diferente e o risco associado é ainda mais frágil e imprevisível. Até porque um dos maiores problemas no sector cultural é a sua fragilidade económica, gerada fundamentalmente pela forte afinidade com o investimento do Estado, o que, em época de crise ou de redução de despesas (o “estado” actual), condiciona e penaliza fortemente o sector pela contínua redução dos orçamentos, revelando desta forma a fragilidade inerente ao espaço cultural pela dificuldade em manter a coerência, a consolidação das actividades, das estruturas e o investimento.
Mas, que áreas de acção é que estão implicadas nesta “coisa” chamada Cultura? No “Estudo da Economia da Cultura”, da responsabilidade da Comissão Europeia e que foi apresentado em Novembro de 2006, incluíam-se no campo do que se definiu como cultura, para além do sector tradicional das artes, as indústrias culturais (cinema, música, livros, jogos de vídeo), os media, a moda, o design, a arquitectura, a publicidade e o turismo cultural. E podemos igualmente incluir a religião e as tradições. Neste sentido, a cultura abrange uma ampla extensão de áreas e de ofícios, muitos deles com situação laboral precária.
O conceito de cultura não foi, para os responsáveis por este estudo, fácil de definir, fundamentalmente porque o mesmo não é entendido de igual modo em todos os países europeus. A título de exemplo, é curioso sublinhar a contradição que o estudo nota nos portugueses: 74% dizem que a cultura é importante para a sua vida e 73% não participam em qualquer actividade artística. Na primeira percentagem, os portugueses estão próximos da média europeia (77%), na segunda só são ultrapassados pela Bulgária (79%), distanciando-se muito da média europeia (38%) e nos antípodas da Estónia e da Suécia (13% e 7%, respectivamente) (1). Nos Açores falta-nos conhecer os números e as motivações por detrás das opções do público, com o intuito de se perceber que “público” é esse. Mas só recentemente é que surgiram salas, auditórios e outras instituições com programação e actividade regular, isto para além dos cinemas. A este nível muito há a fazer na consolidação de público e na criação local em torno da cultura.
A formação de público(s) é um objectivo primordial nesta conquista. E nessa medida, a recepção cultural apresenta-se, antes de mais, como uma prática social. A mensagem cultural não encontra, aquando da sua recepção, um vazio de referências. De igual modo, a recepção cultural não é uma prática unilateral. Existem, sim, formas diferenciadas de apropriação dos produtos culturais e, nessa medida, existe toda uma série de códigos na mediação entre autor e receptor. Apesar de existirem obras que definem à partida o seu público, essa questão não se pode assumir como definitiva. A frequência de uma mesma actividade cultural pode ter subjacentes distintos projectos e motivações, no sentido de se recuperar um “atraso cultural”, compensar um défice de “cultura geral”, manter-se actualizado, descobrir novas obras e projectos ou buscar uma participação no “ambiente social”. Paralelamente, a uma fruição cultural corresponde o inverso: a não-prática, o não-consumo, que muitas das vezes está associado ao desconhecimento, à vergonha cultural, ou surge como resposta a uma decepção ou por recusa face à coisa cultural.
A cultura não é igual para todos e o público tem um papel primordial ao aceitar ou rejeitar a obra que lhe apresentam.
Mas nem só de público vive a cultura. São necessárias infra-estruturas. Mas também estas servem de pouco se não existir uma produção com um carácter consubstanciado no know-how acumulado, ou se não houver o contributo de estímulos duráveis à criatividade, criação e usufruto cultural. De qualquer modo, nada disto faz sentido se não se conseguir melhorar as condições e os modos de vida quotidianos.
No caso dos Açores colocam-se desafios ainda maiores. A produção cultural está condicionada pelo seu carácter disperso, pela idiossincrasia da sua cultura, pela formação dos seus executantes, pelo confronto com outras influências e, sobretudo, pelo isolamento, cada vez menor, a que estão sujeitos os criadores insulares. O confronto com novas linguagens, abordagens e um público esclarecido definem, em muito, a evolução operada no sector. Público e artistas/criadores partilham, actualmente, um palco comum. Assistimos a toda uma aprendizagem, difícil, a que estão sujeitos os diversos agentes culturais nas diversas áreas. A mutação de valores e de práticas alterou substancialmente as formas de ver e de olhar a cultura. A abertura de novos espaços e a renovação e reabilitação de outros possibilitou uma maior fruição e a programação regular de múltiplas formas artísticas, bem como o encontro regular de forma mais ou menos informal com artistas, jornalistas e críticos e tem permitido a difusão de capital informativo, fundamental na prossecução de uma maior disseminação cultural. No entanto - e não obstante todas as alterações operadas no sector cultural público, privado, associativo e mesmo recreativo - persiste um carácter amador intrínseco à actividade. 
Existem uma série de condicionantes que interferem com uma actividade criativa regular, o que delimita a evolução em termos de dinâmica e mesmo de programação atempada, sendo que esta continua a ser, a par com uma articulação em rede de várias instituições, uma das lacunas a melhorar a curto prazo na Região. Obviamente que a actividade cultural não gera per si rendimentos que a façam subsistir por si mesma. Toda e qualquer actividade cultural, seja ela de cariz associativo, de intercâmbio ou a itinerância, carece de um apoio institucional, municipal ou governamental. O apoio (não podemos falar de mecenato) de privados, apesar de diminuto (à dimensão do tecido económico regional) é fundamental para a prossecução e na promoção de inúmeras iniciativas regionais. No entanto, a exígua dimensão económica da Região reflecte-se nos números associados ao denominado mecenato cultural, na medida em que, e apesar de existir legislação regional aprovada, esta aplicação nem sempre é potenciada pelo empresariado, por desconhecimento ou desinteresse. Aliás, na maioria dos casos os apoios são concedidos por critérios que estão para além da lógica economicista, quedando-se a participação das empresas privadas por intermédio de contactos privilegiados, pelo carácter inovador da proposta (se for caso disso), por prestígio ou por sensibilidade da cúpula dirigente. O retorno, na maioria destas “transacções”, é difícil de contabilizar, pelo que a comparticipação do seio empresarial está intimamente associada à notoriedade social na comunidade onde se insere. Contudo, acredito que, no conjunto das entidades envolvidas em torno da questão cultural, os números gerados pela dinâmica económica local são significativos, muito embora não haja dados que o comprovem, pelo menos em termos oficiais. Um desafio que se coloca.
Mas, o âmbito cultural deve ser estendido àquilo que se denomina de turismo cultural. O tipo de turista associado a este segmento caracteriza-se por ser citadino, com um nível de educação superior e tendo à partida um interesse ambiental aguçado. Procura as tradições do local que visita através da fruição de museus, livrarias, casas-museu, monumentos, publicações especializadas, de modo a “recolher” a informação de que necessita. A integração dos passeios pedestres e toda uma série de ofertas turísticas ditas ambientais transforma-as, igualmente, em experiências culturais, sendo que muitas das vezes estas actividades são ignoradas ou menosprezadas pelos habitantes locais. Este é um sector em expansão mas que carece de especialização. E poderá ser uma das áreas a investir fortemente, pois as fragilidades não residem no destino mas estarão nos serviços complementares à visita. A oferta disponível na animação e nos circuitos turísticos deverá ser integrada e articulada entre as várias entidades. O desenvolvimento deste tipo de actividade turística tem de ser implementado concomitantemente com a precaução que se lhe exige, pelo eventual impacto ambiental associado à introdução de novas práticas, pertença de uma cultura dita pós-moderna, e de um turista urbano, que procura novas experiências numa realidade diferente da sua, quiçá exótica, e numa condição o mais genuína possível. Tudo isto me parece ser exequível, muito embora haja ainda uma grande distância a percorrer.
Para a Europa, “a cultura está no coração das políticas”. A mesma expressão terá em Portugal uma aplicação paulatina. Construir cultura com sede nos Açores requer uma dinâmica criativa e uma abrangência alargada em que “(...) o local é global, o global é local. Tudo está em tudo ao mesmo tempo e como tal tem que ser pensado”.

Bibliografia consultada

1.Cristina Margato na edição de 05/10/07
do Expresso/Única
2.A Cidade e a Cultura – Um estudo sobre práticas
culturais urbanas de João Teixeira Lopes,
Edições Afrontamento (2000)
3.Alexandre Melo, Globalização Cultural, Quimera (2002)

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.