Açoriano Oriental
Como a costura colocou um sorriso na cara de Sasha

Sasha Kosolap e a sua família chegaram aos Açores em março, fugidos à guerra. No CRAES da Cáritas reencontrou-se com a paixão de uma vida


Autor: Nuno Martins Neves

De cabelo branco, cortado rente dos lados, Sasha abana a cabeça ao som de heavy metal. As mãos seguem o seu ritmo próprio e vão trabalhando gentilmente o tecido que passa por entre a agulha da máquina de costura. Na sua cabeça, mil ideias correm: no seu coração, o calor de fazer o que sempre quis fazer ajuda a esquecer o mundo lá fora. Um mundo que, sem querer nomear ou sequer falar, é conhecido de todos, desde 24 de fevereiro deste ano. Filha de Kyiv, capital da Ucrânia, a família Kosolap chegou aos Açores a 12 de março e foi a primeira família acolhida na Região.

“Trabalhava na construção civil, a colocar parquet e ladrilhos, tanto na Ucrânia como na Polónia”, conta Sasha ao Açoriano Oriental. O sorriso na cara é tão natural como a originalidade que imprime nos trabalhos que tem feito no Centro de Recursos de Apoio à Emergência Social (CRAES), da Cáritas, a instituição que o acolheu de braços abertos.

É ali, no armazém instalado na Travessa da Rua Domingos Rebelo Pintor, que Sasha tem dado asas à sua imaginação, recuperando móveis antigos para autênticas obras de arte. “Aprendi a costurar aos 6 anos, com a minha mãe. Ensinou-me como se fazia e ao fim de um mês fiz as minhas primeiras jeans. Só que ficaram muito grandes (risos)”.

“É um artista, tem uma imaginação incrível”, intervém Susana Raposo, coordenadora do CRAES, ligado à Cáritas da ilha de São Miguel.  A instituição tem feito os possíveis para dar uma vida condigna a Sasha e à sua família, constituída pela sua mulher, filha de 13 anos e mãe.

Apoiando os Kosolap com o que vão precisando no dia a dia, a Cáritas foi um “porto seguro” para Sasha poder fazer o que sempre sonhou fazer. “Para ser sincero, sempre adorei costurar. A minha esposa sempre falou: Sasha, faça o que quer e não o que não quer. Mas eu sempre desvalorizei-me e nunca enveredei pela costura. Lamento não ter começado a fazer isto há 15, 20 anos. Mas sei que nunca é tarde para começar”.

E começou nos Açores, terra que diz, após um longo suspiro,  estar a gostar de viver. “Sempre sonhei viver perto do mar e acho que não vou viver em local nenhum tão perto como nos Açores. Nós vivemos em Kiyv a vida toda e lá só tínhamos o rio Dniepre. Mas falávamos muitas vezes em ir para Odessa, na reforma. Mas nunca pensei que acabaria assim. Açores, very good. I like Açores”.

Para Susana Raposo, a dedicação de Sasha Kosolap é difícil de colocar em palavras. A coordenadora do CRAES reconhece que “ninguém se consegue colocar nos sapatos do Sasha”, mas nunca o viu triste, apesar de saber que “há um mundo que ficou lá”.

A entrega e, principalmente, a criatividade que o refugiado ucraniano imprime nas peças de mobiliário que faz - e não só, também surpreendeu os colegas e amigos com um peluche de coelho, primeira “encomenda” que teve e que esgotou em dias - fazem com que Susana Raposo deseje que Sasha tenha sorte. “E se não for aqui, que alguém lhe dê um emprego, porque o que ele faz, faz com qualidade”.

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