Avanço tecnológico é benéfico mas deve ter em conta características humanas

O cientista e neurologista António Damásio realçou os benefícios trazidos pela evolução tecnológica e científica, principalmente na saúde, mas defendeu que não podem ser esquecidas cautelas relacionadas com as características dos humanos.


 

António Damásio apontou os "desenvolvimentos fascinantes" que permitem prolongar capacidades, como a visão e a audição, nos casos dos óculos ou dos aparelhos auditivos, ou ter tratamentos para doenças graves, como o cancro.

E recordou que, atualmente, se regista "uma escala inédita na neurobiologia e na medicina", com avanços que "tocam a natureza interna dos seres humanos", já que se relacionam com funções da mente e podem interferir com a tomada de decisão, referindo a inteligência artificial, a robótica e a automação.

O médico neurologista falava na conferência "Technology, Science and the Human" ("Tecnologia, ciência e o humano"), que decorreu em Lisboa, para assinalar o lançamento da Fundação Bankinter em Portugal.

Os avanços na tecnologia e na ciência têm como ponto de partida a procura, pelos seres humanos, da felicidade, do bem-estar e do prazer, mas também a necessidade de ultrapassar a doença e a dor, e, neste âmbito, "os sentimentos têm uma valência muito importante", disse António Damásio.

Em vários exemplos de avanços tecnológicos podem ser referidas vertentes preocupantes, como a disponibilidade e acesso ao conhecimento, que é positiva, porém permite a sua manipulação, se os seus utilizadores não tiverem dados para analisar a origem e credibilidade da informação, ou se não estiverem atentos.

António Damásio referiu a polémica recente relacionada com a divulgação de informações falsas em redes sociais relacionadas com as eleições presidenciais norte-americanas, em que os utilizadores não têm forma de filtrar o que recebem de uma fonte em que confiam.

Também apontou a possibilidade de um armazenamento infinito na 'cloud' (nuvem) digital porque ninguém "quer excluir nada" ou a dependência de 'smartphones' ou telemóveis inteligentes. E perguntou a quem participava na conferência se não tinham já consultado os seus aparelhos várias vezes, durante a sua intervenção.

"A necessidade foi criada, gerada por um conjunto de sentimentos. As pessoas ficam ansiosas não por um medicamento ou por vinho, mas para obter informações", explicou.

A ideia falsa de que, por ter 'smartphones', alguém domina o conhecimento e não precisa de peritos "é um desastre", defendeu António Damásio, acrescentando que continua a ser necessário ouvir aconselhamento de especialistas e refletir sobre a informação que é recebida, em várias áreas da vida.

Sobre a automação, o debate centrou-se no desemprego que vai criar, por exemplo, entre os camionistas, com a adoção de veículos sem condutor.

"É preciso estar ciente disto e não pensar só na parte boa", alertou António Damásio, acrescentando que "encontrar soluções para os problemas exige reconhecê-los".

Uma das iniciativas da Fundação Inovação Bankinter é o 'Think Tank' "Future Trends Forum", ou forum sobre desafios do futuro, que conta com o trabalho de mais de 400 especialistas para antecipar e detetar as tendências da inovação, o seu impacto na sociedade e nos modelos de negócio.

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