Açoriano Oriental
André Xarepe: “Uma prancha de madeira é muito mais resistente, com uma pegada ambiental muito menor”

André Xarepe produz pranchas de criptoméria com pequenos apontamentos de outras madeiras e material reciclado como restos de outras pranchas, restos de cortiça ou restos de madeira. O instrutor de surf acredita que as modalidades aquáticas estão a expandir nos Açores e, como tal, é importante apelar à sustentabilidade

André Xarepe: “Uma prancha de madeira é muito mais resistente, com uma pegada ambiental muito menor”

Autor: Tatiana Ourique
André Xarepe tem 32 anos e é natural de Faro, no Algarve. Vive na ilha Terceira há vários anos e é licenciado em Desporto de Natureza e Turismo Ativo com especialização em desportos aquáticos pela Escola Superior de Desporto de Rio Maior.

É surfista desde os 10 anos e participou em diversas competições, mas foi o free surf que o apaixonou. Hoje é instrutor de Surf na Associação de Surf da Terceira.

Apesar de apaixonado pela área de formação, André não concordava com a cultura consumista de algumas escolas de surf. “A ideia de fazer pranchas de surf de madeira surgiu pouco depois de acabar a licenciatura. Eu não estava de acordo com a filosofia de muitas escolas de surf- que era o que eu tinha estudado para ser- por isso decidi procurar trabalho na construção de pranchas de surf. Dos muitos contactos que fiz, o José Antunes da Yoni surfboards foi o único que me respondeu e fazia pranchas de Madeira, fiquei por lá uns tempos, fiz uma prancha para mim, adquiri conhecimentos básicos na construção de pranchas de madeira e a partir desse momento a minha cabeça já não pensava noutra coisa”, disse Xarepe.

Com a vinda para os Açores a ideia de sustentabilidade ganhou maior fulgor: “A ideia de fazer começar o projeto nos Açores, mais concretamente na ilha Terceira, foi por várias razões, mas a mais importante foi o potencial da região para a prática de desportos aquáticos, poder potenciar a cultura do surf na região e também trabalhar no que amo fazer”, adiantou o professor de surf.

A madeira açoriana foi uma grande aliada do seu ideal de sustentabilidade: “Maioritariamente uso madeira de criptoméria local, com pequenos apontamentos de outras madeiras que arranjo ou então material reciclado como restos de outras pranchas, restos de cortiça, restos de madeira, etc. O que me fez optar por fazer pranchas de madeira em vez das convencionais foi pela sua sustentabilidade, uma prancha de madeira é muito mais resistente que uma convencional, com uma pegada ambiental muito menor”.

Dependendo dos detalhes e do tamanho, uma prancha com assinatura “Sharep Surfcrafts” pode levar de 1 a 3 meses para ser construída e poderá custar entre 700 e 1500 euros: “O processo de produção das minhas pranchas começa com a colagem de 2 painéis de madeira, para a parte de cima e de baixo da prancha, depois corte e colagem da estrutura interna, de seguida colagem de todas as partes. Depois de estar tudo colado vamos dar a forma final á prancha e por fim passamos fibra de vidro e resina para impermeabilizar”, explicou.

A marca “Sharep Surfcrafts” produz pranchas de surf, stand up paddle board e handplanes para bodysurf e “a procura por artigos deste género tem vindo a crescer visto que cada vez mais as pessoas procuram opções mais sustentáveis e estão mais sensibilizadas para os produtos que compram”, refere, admitindo que “ainda temos de mudar muitas mentalidades tanto localmente como globalmente, mas o meu mercado por enquanto tem sido a nível regional e nacional. Ainda não exportei as minhas pranchas, mas já tenho tido interesse por parte do mercado nórdico, Itália e EUA. Um dia chegarei lá”, assegura.

Para o jovem farense a residir nos Açores, estas pranchas de madeira servem a maior parte dos surfistas. “A diferença entre uma prancha normal e uma de madeira não é muita, aproximadamente 400 ou 500 gramas. Um surfista profissional, que precisa de ter o equipamento mais leve possível iria sentir a diferença, mas o surfista comum não. Temos de ver que as marcas querem vender, a prancha para o melhor surfista do mundo não é a prancha indicada para mim, mas a maior parte das vezes é vendida como tal. As minhas pranchas além de serem de madeira eu tento conjugar com conceitos e designs clássicos que são mais amigos do surfista comum”.

Questionado sobre os sonhos para a marca, André só quer poder dedicar-se à produção de pranchas sustentáveis a tempo inteiro. “Gosto de dar um passo de cada vez e tento não ser muito ambicioso, mas se eu puder fazer isto o resto da minha vida e conseguir pagar as contas já é muito bom”.

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