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Amazónia corre o risco de se "savanizar"

Amazónia corre o risco de se "savanizar"

 

Lusa/AOonline   Internacional   22 de Out de 2008, 12:28

Um investigador brasileiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), um dos principais órgãos de pesquisa do Brasil, alertou em entrevista à agência Lusa para o perigo de quase metade da Amazónia desaparecer até ao final do século.
“Boa parte da Amazónia pode desaparecer se houver um aumento global da temperatura de quatro graus centígrados ou mais até o final do século”, disse à Agência Lusa Carlos Nobre, considerado um dos maiores especialistas no Brasil em mudanças ambientais globais.

    Segundo o especialista, o perigo é de até 40 por cento da Amazónia desaparecer.

    Nobre esteve no Rio de Janeiro na terça-feira para participar da sexta edição da Bienal de Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que este ano apresenta o tema “Amazónia: Evolução e Diversidade”.

    Nos últimos 50 anos a temperatura em todo o mundo subiu 0,7 graus celsius e as observações climáticas apontam também para um aquecimento nas regiões de florestas, explicou Carlos Nobre, também presidente do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera, entidade de pesquisa interdisciplinar sobre as mudanças ambientais globais.

    “A Amazónia corre o risco de savanizar”, alertou Nobre, adiantando que as florestas tropicais precisam de muita chuva, quase diariamente, para sobreviver.

    Esta transição decorre não apenas da subida das temperaturas provenientes do aquecimento global como também dos incêndios florestais, da diminuição de chuvas e da mortalidade de árvores, o processo denominado por cientistas como “savanização”.

    “O que se projecta para a Amazónia é uma savana empobrecida de espécies. Diferente do que temos no rico cerrado na região central do Brasil que tem um período com muita chuva e grande biodiversidade”, assinalou.

    Segundo Nobre, a projecção para o final do século é “preocupante”.

    “A Amazónia abriga o maior reservatório de espécies vivas do planeta e poderá perder a sua riqueza biológica”, lembrou.

    Para o investigador, a perda de florestas tropicais “potencia a erosão da biodiversidade” e pode ter consequências para o resto do mundo. Ainda não se sabe o alcance dos resultados, mas admitiu que “pode haver a perda de um terço das espécies do planeta”.

    E avançou que já há espécies de animais e vegetais que desapareceram nos últimos 15 anos devido da subida da temperatura nas regiões tropicais.

    Nobre reconheceu que “não é fácil reverter o quadro”. Mesmo que o Brasil e os países em desenvolvimento, que respondem por quase 20 por cento das emissões de gases estufa, voltassem "milagrosamente” a zero nas suas emissões, o aquecimento global continuaria.

    Apesar da situação actual parecer pessimista, a partir de suas investigações no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do INPE, Carlos Nobre apontou para algumas saídas que podem amenizar e alterar as projecções para o futuro.

    O investigador propõe o uso sustentável dos recursos, um “novo paradigma económico para a Amazónia”. “Temos que agregar valor à floresta sob a óptica de um funcionamento ecológico preservado”.

    Como exemplo, o especialista cita a fruta açaí que “já virou uma commodity mundial” e bastante comercializada.

    Para Nobre, ainda há um desconhecimento da ciência de como funciona o sistema biológico da região amazónica.

    O especialista defendeu que a área desmatada pela pecuária, por madeireiras e pelo agronegócio, que representa 18 por cento da área desflorestada, seja substituída por um mecanismo de pequenos proprietários que praticam uma agricultura mais tradicional.

    “A tragédia da Amazónia deve-se ao uso dos recursos de modo não sustentável”, declarou.

    Carlos Nobre é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, além de participar desde 2007 como membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS), uma organização autónoma com sede em Itália.

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