Almeida Firmino E o poeta, ainda existe?

Almeida Firmino E o poeta,  ainda existe?

 

André Pimentel Garcia   Regional   15 de Set de 2019, 07:00

Poeta desapareceu em 1977, mas continua a ser para o Pico o poeta da Ilha Maior. No Cais do Pico, há quem ainda o recorde. Uma vida conturbada, lembrada agora por quem com ele conviveu

Almeida Firmino é o poeta de “Ilha Maior”. João Júlio de Almeida Caldeira Firmino nasceu em Portalegre em 1934. Depois de uma passagem pela Terceira, foi no lugar do Cais do Pico, em São Roque do Pico, que viveu desde 1958 até ao fim da sua vida em 1977. A sua obra poética publicada foi reunida numa edição intitulada Narcose de 1982 da Secretaria Regional de Educação e Cultura (SREC), reeditada em 2009 pela Câmara Municipal de São Roque do Pico (CMSRP).

Em 1957, Almeida Firmino publica o seu primeiro livro, Saudade Dividida, no qual se unem diversas temáticas: identidade à deriva, solidão, angústia, sexualidade e insularidade. O livro começa com um dos poemas mais marcantes: “Mãe! (…) / Foi com as tuas lágrimas / Que eu escrevi meus versos…”. Tanto Maria Helena como Ilda Gomes memorizaram este poema; Ilda revela que Almeida lhe confidenciara que a sua mãe nunca compreendera a sua vocação para a poesia e a sua decisão de vir para São Roque do Pico, deixando-a.

Mais tarde, em 1968, escreveria “É inútil o que diz o povo”, mas é justamente na boca do povo que encontramos Almeida Firmino. Seguimos-lhe os passos, revisitamos a sua obra e, talvez, os seus pensamentos.

“Eles vinham cá jogar à canasta e a gente ia lá. Antigamente era assim que fazíamos os serões, cá e lá. Éramos família, mas o pouco que sabíamos era por fora.”

“Ele era muito inclinado à escrita, quando íamos lá estava sempre a escrever, e a Maria dos Anjos era uma pessoa muito calada, de maneira que sabíamos muito pouco da vida deles. Convivíamos, mas não havia uma clareza de conversas sobre a vida”, contam-nos Ascensão Estela e a sua filha, Júlia Rosa (Julinha), parentes do poeta por via da mulher com quem casaria.


Início

“A Maria dos Anjos foi desde pequena muito reservada, teve tudo, os pais eram muito ricos, era uma pequena muito boa, muito mimosa”, recorda Maria Helena, prima de Maria dos Anjos. “Como vivia no Canto e nunca vinha para o Cais convivia pouco. Perdeu o segundo ano no Faial, a avó chorou muito, não queria que ela fosse para o Faial outra vez, era a neta mais chegada, por isso a Maria desistiu da escola.”

Almeida chegara ao Pico em 1958, saído do Serviço Militar, concorrera a uma vaga no Tribunal de São Roque do Pico, no qual fora colocado. Viveu, primeiro, na Pensão Gomes (atual Snack-bar Aço), onde conheceu a sobrinha das proprietárias, Maria Luísa Gomes, mãe de Ilda Gomes. A data do casamento de Maria Luísa Gomes haveria de marcar a sua vida para sempre: foi aí que Almeida, desejoso de arranjar uma namorada, conheceu Maria dos Anjos, prima de Maria Luísa.

“Via-se tudo por aí abaixo: o Convento [de São Pedro de Alcântara], a doca, os navios a entrar”, descreve Teófila, vizinha de Julinha e de Maria dos Anjos, relembrando outros tempos, sem incensos em que, do balcão de sua casa, via toda a rua do Canto. “Disseram ao Senhor Caldeira que a Maria dos Anjos morava numa casa que fazia esquina na rua do Canto, por isso eu via-o ao portão de casa da Julinha à tardinha.” Estava enganado. A casa que Caldeira procurava, e eventualmente encontraria, era a de Maria dos Anjos, que ficava na mesma rua e numa esquina, porém um pouco mais a acima da casa da prima, Julinha.

“Namoraram-se. Ele era uma pessoa instruída, dedicado aos livros, a Maria dos Anjos não tinha queda para isso. Depois casaram-se [em 1961, ele com 27 e ela com 18 anos], foram viver para casa dos pais dela e, depois, até compraram um carro, iam sempre à missa, iam a festas”, conta Maria Helena, “ninguém adivinhava o que aconteceria.”

Em 1964 Almeida publica o livro Novembro, Cidade dos Crisântemos Esquecidos, obra na qual se cristaliza a identidade insular aliada a uma tristeza latente: “o Cais”, “o exílio”, “a mágoa”, “o silêncio” e alguma inspiração religiosa.

O primeiro poema de Novembro, Cidade dos Crisântemos Esquecidos, intitulado “O Poeta Ainda Existe”, descreve um Cais do Pico que “dorme velada e liricamente…”, construindo a imagem através dos “barcos à deriva”, das “araucárias” e dos “metrosíderos”. Nesse texto há uma clara alusão à Casa de Saúde de São Rafael onde o poeta, ainda na Terceira, estivera internado pela primeira vez, “Um só porto / Onde não há (…) manicómios pintados de amarelo”.

Também em Novembro, Cidade dos Crisântemos Esquecidos, escreveu “Seus dedos nos meus / Não desejam mais ternura / Parece até querer / Ausentar-se de mim”. Seria um prenúncio de um amor malfadado?

Quatro anos mais tarde, em 1968, Ilha Maior é publicado, seguindo uma linha semelhante à do livro anterior. Destaca-se o poema homólogo sobre o Pico, “Ilha-Mãe adoptiva” do poeta, como ele próprio descreve. Este é o mais conhecido poema de Almeida Firmino, que retrata a sua perceção da insularidade: “Ilha Maior no sonho e na desgraça / (…) Ancoradouro de aves, poetas e baleeiros, / Heróis sem nome, com um pé na terra e outro no mar, / Quantas vezes em vão a balear… / (…) É aqui, cavada a seu lado, / Que eu quero ter a minha sepultura.”


Loucura

“A Maria dos Anjos começou a ter problemas, a não estar boa da cabeça, talvez fosse alguma depressão”, descreve Maria Helena, “os pais foram com ela à Terceira, a São Rafael, ficaram duas semanas. Queriam que o Almeida fosse, mas ele não quis ir, ficou em casa sozinho e também ficou pior da cabeça…”

“Quando voltaram ele tinha destruído tudo. Ele tinha dado cabo de tudo. Ele tinha picado tudo”, salienta Lubélia Faria, prima de Maria dos Anjos.

“Até levou raparigas lá para casa, desarrumou a casa, foi buscar coisas da atafona, partiu vasos”, continua Maria Helena, “um vizinho chamou meu irmão, meu marido [colega de Almeida no Tribunal] também foi a casa deles. Estava tudo desarrumado, coisas partidas, ele desnorteado a falar, não me lembro já o que ele dizia… Meu marido falou com o Doutor Tibério [Ávila Brasil, médico] e mandaram-no na lancha Caravelas para a Terceira.”

“Ele era esquizofrénico. Ele tinha problemas psicológicos”, alega Lubélia, “o esquizofrénico tanto pode ser pacífico como pode estar numa situação depressiva; tanto dá para uma banda como dá para a outra, e ele teve aquele pico.”

Em Ilha Maior, o poeta escreve outros versos que se podem revelar importantes para a articulação da sua vida e obra “era tão bom que tu viesses / de bordo dum navio perdido / sem ti nada aqui faz sentido.”

Ainda em Ilha Maior o poeta deixa-nos Testamento: “Eu hei de sepultar meu coração / Numa fragata, junto ao mar, / (…) E o coração ao debruçar-se na água / Verá o céu, falará com Deus, / Que, afinal, a morte é como a vida, / Não passa dum breve e sentido adeus.”

Em Memória de Mim foi publicado em 1971, o livro juntou quase todos os poemas anteriores e oito poemas inéditos, precedidos da seguinte explicação “Este livro é um ato de amor. / Em memória de mim o escrevi. / Quando o meu corpo deixar a vida. / Fica no poema quanto sofri.”; Almeida Firmino justifica esta atitude com o fecho de um ciclo poético, ao que se seguiria outro chamado Narcose, nome da antologia editada pela SREC, reeditada pela CMSRP.

Não Queremos Bombas na Cidade (1974) dá continuidade ao estilo a que nos vem habituando, sobressaindo um fervor popular fruto do Ultramar (1961-1974), do 25 de Abril (1974) e da guerra do Vietname (1955-1975), seguido de Tailândia, em 1976.


Separação

“Ele ficou algum tempo em São Rafael e depois voltou. Continuaram a viver juntos, aponta Maria Helena, “depois de uma certa altura, começou-se a dizer que eles não estavam a viver bem e que ela não o queria, que os pais estavam revoltados com ele. Ele também adoeceu de uma mão, no tribunal dava pouco rendimento”.

“Eu estava na pensão Gomes e ele apareceu lá com a mala”, acrescenta Maria Luísa, “tinham-no mandado embora. Estava muito triste, muito choroso, ele gostava muito da sua Maria dos Anjos, não esperava um caso daqueles. Um dia perguntou ao meu marido se ele não queria ir com ele a casa falar com os meus tios e com a Maria dos Anjos a ver se o recebiam. Eles não o receberam.”

Teófila lamenta “não haviam de o ter deixado em casa sozinho. Mas não no haviam de ter mandado embora”. “Meu tio queria que ela tivesse casado com um lavrador, para trabalhar nas terras”, alega Lubélia. “A separação deu-se por influência dos pais”, opina Maria Luísa, “ela talvez gostasse dele, mas como nunca tinha saído de casa, vivia muito debaixo da saia da mãe, não teve coragem e força de vontade para segui-lo.”

Lubélia relembra que Ana, uma vizinha de Maria dos Anjos, lhe contou que depois de ele sair de casa, lhe pediu um favor:

“– Ó Senhora Ana, eu gostava de falar consigo.

– O Senhor Almeida diga.

– Eu precisava que me levasse um recado à Maria…

– Sim Senhor.

– Diga à Maria se ela me deixa ir para cima, mesmo que seja para a atafona ou para a loja, mas ela que me deixe ir para cima…”

“Para ele estar lá em cima, era sinal para o povo que ele não estava separado”, comenta Lubélia, “e ele já se sentia mais confortável. Só que Senhora Ana foi para cima, falou com a Maria e por detrás estava a mãe dela que disse:

– Ele para aqui não volta.”

“Cá vou, / Sem parentes, / Amigos ou amantes. / Cá vou, / Com o meu canto / De vagas vagas e distantes.”, escreve no poema que abre o seu último livro publicado em vida, Um Búzio no Regaço, 1977.


Tentativas

“Ele já tinha tentado antes”, destaca Lubélia, “veio cá a tropa e trouxe um camião, o primeiro camião que apareceu por aí, conduzido pelo Sargento Sirgado. O Sargento estava a virar a curva na Estrada Regional [perto da Pensão Gomes] e trava. Para:

– O senhor sabe o que é que ia fazendo? O senhor não ia dando cabo de si. O senhor ia dando cabo da minha vida. O senhor sabe o que é um tropa matar um civil?”

“Aquilo irritou-me porque eu gostava muito dele”, reconhece Lubélia, que ainda era uma criança, “para mim ele tinha todas as qualidades, como é que alguém o poderia tratar mal? Venho-me a aperceber, depois de ele ter desaparecido anos mais tarde, que o sargento tinha razão, ele tentara matar-se.”

“Meu marido não tinha ido trabalhar nesse dia porque veio um corregedor ao Tribunal e foram dar a volta à Ilha”, relembra Maria Helena, “eu andava no jardim e vi-o encostado a uma casa ali na esquina [aponta para baixo] a olhar para aqui para cima. Não falamos. Nunca mais o vimos.”

O poeta desapareceu, supostamente nas ondas do mar, a 14 de novembro de 1977, com 43 anos, na antevéspera do trigésimo quinto aniversário de Maria dos Anjos, de quem nunca se divorciara. Foi no Lugar do Moinho da Lapinha, na atual zona industrial de Santo António, que se encontrou a sua gabardina e o seu guarda-chuva.

Falaram-nos de Almeida Firmino com ternura, com admiração, com uma certa incredulidade. É certo que o valor da sua obra está, sobretudo, em ser ancorada nesta terra, no meio desta gente. E é este o poeta que ainda existe.


















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