Açoriano Oriental
Falta de prática desportiva regular pode causar danos na autoestima

Luís Carneiro, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e investigador em Psicologia de Desporto ressalva papel que a família pode desempenhar na motivação dos jovens atletas

Falta de prática desportiva regular pode causar danos na autoestima

Autor: Nuno Martins Neves

O desporto de formação, tal como o resto do mundo, vive desde março debaixo de um clima de incerteza. Que impacto tem a falta de treinos e competição nos atletas mais jovens, principalmente a nível mental?

De modo geral, o impacto é negativo. Por um lado, as constantes interrupções dos treinos e das competições desportivas geram ansiedade e stress, devido à incerteza da situação pandémica atual, o que prejudica o normal funcionamento das modalidades desportivas.

Por outro lado, medo visto que os atletas poderão desenvolver a perceção que poderão perder forma física, preparação técnico-tática e consequente dificuldades no rendimento desportivo e competitividade no geral.

Para além disso, também é importante referir que, independente dos fatores individuais de cada atleta, se tem traços de ansiedade, mais negativismo, se são mais perfeccionistas ou não, ou mesmo do próprio historial de vida, se tem traumas familiares, se tem episódios depressivos, os atletas poderão desenvolver, devido às paragens, falta de treinos e competições, problemas emocionais mais graves. Nomeadamente, perturbação de ansiedade, do humor ou até do sono, além da natural desmotivação para continuar a praticar a sua modalidade.

Os jovens dos escalões mais precoces poderão ver o seu envolvimento no desporto muito limitado pela pandemia e assim o prazer, o entusiasmo pela prática, que são necessários nestas idades, ficarem negativamente afetados.

Por outro lado, atletas que usam o desporto para a melhoria da condição física e mental/emocional, poderão ficar sem essa hipótese dessa atividade essencial na sua vida, que traria visíveis benefícios.

A nível físico, a falta de treinos e competições pode contribuir para a ocorrência frequente de lesões, devido à menor preparação física. E consequentemente, as lesões afetam a competente emocional dos atletas, dependendo dos fatores individuais de cada e um e a forma como cada lida com as suas emoções. Há atletas que percecionam que não conseguem recuperar a sua condição física e ter sucesso; versus aqueles que têm outra visão e que conseguem percecionar que conseguem recuperar bem das lesões e da falta de condição física e consequentemente ter sucesso. Esta questão das lesões também é muito importante referir, pois não é só a parte psicológica que é influenciada pela pandemia, mas o facto de ter menor preparação física pode trazer mais lesões, pode ter maior impacto psicológico.

E serão efeitos a curto, médio ou longo prazo?

Poderão notar-se em ambos os cenários, tudo dependerá da influência da pandemia na realização das atividades competitivas. Por um lado, caso a pandemia continue a forçar a paragem dos treinos/competições, claro que os efeitos psicológicos poderão ocorrer a curto prazo, podendo propiciar o tal medo ou incerteza de continuar a praticar e correr o risco de contrair o vírus, podendo levar mesmo à desistência da prática. Por outro lado, a médio/longo prazo, os efeitos também poderão verificar-se no sentido que a falta de treinos e competições, poderá contribuir de forma negativa para a evolução pessoal enquanto atleta, possibilitando o surgimento de pensamentos e criações de crenças com desvalorização pessoal e fracasso. Do ponto de vista psicológico, a falta de prática desportiva regular, pode gerar problemas ao nível da autoestima e da auto eficácia dos próprios atletas, e ser um obstáculo à perspetiva que os atletas já possam ter criada de objetivos futuros no desporto, como por exemplo, ser atleta de alta competição, vencer vários títulos, estar envolvidos em competições regionais e internacionais, ir aos Jogos Olímpicos, etc.

Haverá atletas que saindo nesta altura poderão cortar de vez com o desporto?

É possível, olhando para um lado mais negativo, pela falta de treinos, pela falta de competição e pela perceção dos próprios atletas que não estão a evoluir, que lhes está a ser vedada. Num lado mais otimista, existirão atletas que, mesmo com estas interrupções no desporto, continuarão motivados, através de algum treino em casa, ou mediante a sua capacidade mental de superação da situação atual.

Os atletas com uma visão mais desafiadora da situação, enfrentarão com menor ansiedade e maior tolerância à frustração. Enquanto atletas mais negativistas e que percecionam a situação atual da pandemia como ameaçadora, irão encarar com maior ansiedade, mais frustração, maior desmotivação.

Mas acho que aqui é importante referir uma intervenção possível neste abandono. De forma geral, é importante a intervenção das famílias, para compreender os sentimentos negativos dos jovens, o apoio emocional, o diálogo sobre as incertezas destes atletas, a motivação para a manutenção da prática desportiva. E também a transmissão, por parte da família, de padrões de pensamento de esperança e superação e nunca de perspetivas de ansiedade, negativismo e desespero. As famílias já eram antes e tornam-se ainda mais modelos muito importantes para a motivação dos jovens para o desporto, seja para o início, manutenção, etc.


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