Uso de calculadoras divide professores e especialistas


 

Lusa/ AO online   Nacional   3 de Out de 2007, 11:40

As alterações ao programa de Matemática do ensino básico, em discussão pública até quinta-feira, prevêem o uso das calculadoras desde o primeiro ciclo, uma questão que está a levantar polémica, dividindo opiniões entre professores e especialistas.
      A proposta para o reajustamento do programa da disciplina estipula que, "ao longo de todos os ciclos, os alunos devem usar calculadoras e computadores na realização de cálculos, na representação de informação e na representação de objectos geométricos".

    Para a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), o incentivo à utilização das máquinas de calcular desde os primeiros anos de escola pode ser arriscado, já que "o seu uso indiscriminado faz perder a destreza de cálculo".

    "Este reajustamento do programa insiste demasiadamente na máquina de calcular e não coloca qualquer limitação ao seu uso. O ensino da Matemática é sobretudo o ensino do pensamento, pelo que os elementos essenciais devem continuar a ser o papel e o lápis", disse à Lusa Nuno Crato, presidente da SPM.

    Ressalvando que aqueles instrumentos "não devem ser completamente afastados do ensino básico", o especialista defende uma utilização selectiva e apenas como "um auxiliar do ensino, nunca como uma peça central".

    Já Joana Brocardo, da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação, defende a proposta, considerando que "nos dias de hoje usar a calculadora começa a ser como usar os dedos".

    "A questão é usar a calculadora de forma inteligente, do ponto de vista educativo. O documento impõe a importância do cálculo e prevê que os alunos disponham de um conjunto alargado de formas de calcular, sendo que a máquina calculadora é apenas uma delas", explica.

    Segundo a responsável, que acompanhou o grupo de trabalho encarregue da elaboração da proposta, o reajustamento define as situações em que deve ser utilizado aquele instrumento, estipulando que na antiga primária o recurso à calculadora deve ser feito na resolução de problemas em que "o essencial não é a forma de cálculo, mas sim a aprendizagem matemática que a tarefa envolve".

    Em relação ao segundo ciclo, o documento defende que o uso da calculadora "permite a realização de experiências com padrões e o trabalho com situações reais que, de outra forma, pela sua morosidade, seriam difíceis de concretizar".

    A presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), Rita Bastos, partilha a opinião e dá um exemplo prático: "Para os alunos perceberem os múltiplos de cinco o melhor é recorrerem à calculadora porque vêem todos os números aparecer e isso permite-lhes identificar o padrão, percebendo que todos acabam em zero ou cinco".

    "Sem calculadora isso seria muito mais difícil porque seriam necessários muitos cálculos", explicou à Lusa Rita Bastos, defendendo que aquelas máquinas "têm de ser utilizadas no ensino básico, mesmo no primeiro ciclo, mas não indiscriminadamente e sem substituir o cálculo mental".

    Em discussão pública desde Julho e até quinta-feira, a proposta de reajustamento introduz alterações ao programa de Matemática do ensino básico em vigor desde o início da década de 1990.

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