Açoriano Oriental
No Pico “somos grandes conhecedores do tempo”

Documentário ‘O tempo escrito nas nuvens’ tem 14 testemunhos de pessoas no Pico que ao observar as nuvens, a lua e o mar, por exemplo, fazem as suas próprias previsões meteorológicas


Autor: Paula Gouveia

Já imaginou prever as condições meteorológicas, fazendo uma leitura e análise observacional das nuvens, terra, mar, lua e estrelas? Não é de todo fácil, mas nos Açores ainda há muitas pessoas que o fazem.

No Pico, as características da ilha e da própria Montanha levam a que a capacidade de previsão meteorológica das pessoas seja ainda mais notória. É essa memória e testemunhos de quem trabalha no mar e na terra no Pico que Paulo Henrique Silva quis preservar com a realização do documentário ‘O tempo escrito nas nuvens’.

Já existem previsões meteorológicas oficiais nos Açores baseadas em modelos matemáticos e científicos há mais de 100 anos. No entanto, Paulo Henrique Silva explica em entrevista ao Açoriano Oriental que, sendo a região dos Açores povoada há mais de 500 anos, sempre houve uma necessidade de as pessoas fazerem uma leitura das condições meteorológicas.

Deste modo, o documentário pretende abordar o “conhecimento empírico das populações, neste caso da ilha do Pico, nas previsões meteorológicas, recorrendo a tudo o que for possível”, refere o realizador.

No total, foram 14 os testemunhos recolhidos que documentam a memória de pessoas que usam conhecimentos empíricos para prever o tempo. Uns fazem por fascínio com as próprias nuvens ou outros elementos da natureza, outros por questões de trabalho, e a maioria porque esta já é uma competência inerente, resultante de anos e anos de tradições orais a transmitir este conhecimento.
Embora reconheçam a grande evolução das previsões meteorológicas em termos científicos e matemáticos e também pela utilização de imagens de satélite, os picarotos admitem que esta informação nem sempre é fidedigna, tendo em conta a instabilidade do clima açoriano e dos ‘microclimas’ presentes na própria ilha.

Por esta razão, muitos recorrem ao conhecimento empírico, especialmente quem depende do bom tempo para desempenhar a sua profissão, como é o caso dos ‘skippers’, que fazem observação de cetáceos, ou os guias da montanha.

“Somos grandes conhecedores do tempo”, declara um dos testemunhos. “É mais importante o que vejo do que oiço”, diz outro dos entrevistados, referindo-se às previsões meteorológicas. Já outros contam que “[ver o mar] é a primeira coisa” que fazem quando acordam. Por outro lado, um guia da montanha refere que “colocamos em prática o nosso conhecimento pessoal, a nossa avaliação pessoal pela experiência que temos, é a mais-valia”.

Há ainda quem considere que a montanha do Pico é um “autêntico barómetro” para quem a sabe ler, pelas suas características. Condição que é possível observar pela forma como as nuvens se apresentam. Se houver um ‘chapéu’ em cima da montanha significa que vem mau tempo, indica um entrevistado.

São estes detalhes que analisam diariamente. Mas existem inúmeros: a velocidade e a direção dos ventos, as fases da lua, as estrelas e as nuvens no Pico e até em São Jorge. Não há limites para estas previsões meteorológicas quotidianas. As pessoas observam e analisam esta pletora de elementos, cada um à sua maneira e tendo em conta o que lhes foi ensinado. Algo que a maioria faz desde a sua infância. “Nunca me lembro de fazer o contrário”, confessa outro dos testemunhos.

Paulo Henrique Silva afirma que, de todas estas observações abordadas no documentário, “99% têm a sua devida explicação, um enquadramento científico”. As explicações por detrás deste conhecimento e esta capacidade de prever as condições meteorológicas que o próprio desconhece, e nunca teve necessidade de aprender desde que visitou o Pico há mais de trinta anos, culminou na vontade de querer documentar esta realidade e as memórias das pessoas.

Assim, e com a produção do Museu do Pico, o documentário serve não só para “preservar as memórias” dos testemunhos recolhidos, mas também para depositar no próprio museu “questões relacionadas com o património imaterial”, neste caso relativas a tradições orais muito importante no quotidiano dos açorianos, sustenta Paulo Henrique Silva, acrescentando que os testemunhos em bruto vão estar no museu e “podem ser consultados por quem entender”.

‘O tempo escrito nas nuvens’ estreou a 14 de outubro no Museu dos Baleeiros. O documentário, da autoria de Paulo Henrique Silva, é uma produção do Museu do Pico, com música de Rafael Carvalho e produção executiva de Leandra Peixoto, Rogério Soares e Manuel Costa Júnior.

PUB
Regional Ver Mais
Cultura & Social Ver Mais
Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados