Situação política na Birmânia

Monges budistas, a consciência e voz de um povo silenciado

Monges budistas, a consciência e voz de um povo silenciado

 

Lusa / AO online   Internacional   27 de Set de 2007, 00:53

No budismo Theravada da Birmânia, os monges não podem sequer recusar serviços religiosos a violadores ou a assassinos, mas quando os recusaram aos membros da Junta Militar no poder, tornou-se claro que o descontentamento era mais profundo que nunca.

Bastou essa simples recusa, totalmente pacífica e simbólica, para que os birmaneses percebessem que a única fonte de poder existente no país para além da Junta Militar estava prestes a desafiar a sinistra ditadura militar que governa a Birmânia (ou Myanmar).

Há muito a dividir o budismo de tradição Theravada dos monges da Birmânia - que enfatiza o caminhar religioso do indivíduo em direcção à redenção (nirvana) através da renúncia das coisas - do budismo Mahayana - de carácter menos individual, cujo líder é o Dalai Lama no Tibete -, mas uma coisa as duas escolas têm em comum: uma profunda legitimidade social que lhes permite atingir objectivos políticos de forma totalmente pacífica.

Sociedades como a birmanesa, em que 90 por cento dos cerca de 47 milhões de habitantes são budistas Theravada, acreditam que a vida na terra é apenas um estágio antes de várias reencarnações até atingirem o nirvana. Os únicos guias neste caminho são os monges e daí a sua legitimidade moral.

A questão agora é qual a dinâmica que fez os monges manifestarem-se nesta altura, com tanto vigor, para além da razão imediata quando soldados dispararam tiros de aviso sobre um grupo de monges que se tinham juntado a uma manifestação contra o enorme aumento dos preços dos combustíveis, na cidade central de Pakokku, a 05 de Setembro.

Um mosteiro retaliou fazendo reféns 20 funcionários governamentais numa espiral de tensão até aos ataques de hoje das forças de segurança a milhares de monges que se manifestavam pacificamente no centro de Rangum, a maior cidade da Birmânia.

Na semana passada, a Aliança de Todos os Monges Budistas Birmaneses divulgou um comunicado em que declarava a Junta Militar, liderada pelo general Than Shwe, como "o inimigo do povo".

Os analistas dizem no entanto que a revolta dos monges é tanto contra o governo como contra a ordem interna da Sangha, a comunidade, para os budistas, dos monges e freiras ordenados.

"Não é um conflito novo, sempre existiu na história do budismo birmanês", explica Aung Zaw, editor do The Irrawaddy, publicação independente, cujos jornalistas birmaneses cobrem o país a partir do norte da Tailândia.

"O que existe é um conflito entre os monges mais novos e os superiores. Os monges superiores são vistos como corruptos e comprados pelo poder da Junta Militar", acrescenta o analista.

Os monges budistas têm uma longa história de participação nos combates políticos da Birmânia, desde as lutas contra o domínio colonial do país até ao levantamento pró-democracia de 1988, que a Junta Militar esmagou matando mais de três mil pessoas.

Após as revoltas de 1988, para controlar os monges, os militares reanimaram um supremo conselho da Sangha, que tinha caído no esquecimento desde o século XIX, quando a Birmânia caiu em poder do Império Britânico.

Se o conselho fazia sentido no século XIX, quando o rei na Birmânia era tomado como metade rei metade espírito do Buda reencarnado, no século XXI a população encara o órgão como uma forma de os militares mandarem na Sangha, ao aparecerem em público como patronos dos mosteiros, recebendo alguma da legitimidade social e política do clero budista.

"Os monges mais jovens são rebeldes e não estão felizes com a forma como o governo lida com a Sangha, com a forma como o governo joga com políticas de dividir para reinar entre os monges mais novos e os monges superiores", diz Aung Zaw.

Mas o poder político dos monges infiltra-se também na sociedade porque o papel do monge é inseparável e está presente em toda a malha social - para qualquer rapaz birmanês, dar entrada num mosteiro é um dever religioso, mesmo que por um curto período de tempo, e é uma forma de honrar a família.

Grande parte dos jovens birmaneses do sexo masculino dão entrada nos mosteiros, como noviços, antes de fazerem 16 anos e mais tarde, como monges, quando cumprem 20 anos, o que significa que em quase todas as famílias há - ou houve - um monge.

Ao longo do ano, os mosteiros da Birmânia têm em média cerca de 400 mil monges, 80 por cento dos quais na segunda cidade do país, Madalay.

Como deve ser numa sociedade budista devota, crente na reencarnação e sem uma divisão estanque entre a vida terrena e a vida após a morte, monges e povo dependem uns dos outros. Os monges vivem das esmolas do povo, que, acreditam os birmaneses, são a forma de ganhar méritos, as boas acções que permitem estar mais perto do nirvana na próxima vida.



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