Manifestações contra regime militar começaram há oito dias

Comunidade internacional apela para a não repressão dos protestos

Comunidade internacional apela para a não repressão dos protestos

 

Lusa / AO online   Internacional   25 de Set de 2007, 16:58

A comunidade internacional apelou hoje aos líderes da Birmânia para não reprimirem os milhares de manifestantes que há oito dias começaram a protestar nas ruas contra o regime militar.
Logo após o fim da manifestação de hoje em Rangum, realizada em desafio às ordens governamentais, camiões de transporte de soldados foram vistos nas ruas, de acordo com diplomatas e representantes das guerrilhas étnicas.

A Birmânia vive uma grave crise desde há mais de um mês, com protestos crescentes nas ruas, que hoje, apesar de um aviso emitido segunda-feira pelo exército, juntaram cerca de 100000 manifestantes, entre as quais 30000 monges, nas ruas da capital birmanesa.

O Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da UE, Javier Solana, disse hoje esperar que o regime militar da Birmânia (cuja actual denominação é Myanmar) promova um "processo de autênticas reformas políticas" face aos protestos dos últimos dias.

Também a Comissão Europeia manifestou hoje preocupação pelo aumento da presença militar nas ruas birmanesas, mas recordou que a imposição de novas sanções contra o país deve ser acordada pelos 27.

A presidência portuguesa da UE inicia esta tarde, em Bruxelas, um processo de consultas entre os 27 sobre as manifestações na Birmânia e eventuais reforços das sanções contra o regime militar daquele país.

"Em Bruxelas estamos a fazer consultas, ouvir a sensibilidade dos nossos parceiros europeus, e só depois é que decidiremos", disse o porta-voz da presidência portuguesa, Manuel Carvalho, na capital belga em resposta a uma questão da Agência Lusa sobre se seriam tomadas medidas adicionais contra o regime na Birmânia.

Em Bournemouth (Reino Unido), o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, apelou hoje à UE para endurecer a posição face à Birmânia, exortando as autoridades birmanesas a "darem provas de contenção" em relação aos manifestantes.

"É vital que as autoridades birmanesas dêem provas de contenção face aos manifestantes e lancem um processo de verdadeiras reformas políticas", defendeu o primeiro-ministro numa carta dirigida a presidência portuguesa da UE bem como aos chefes de Estado europeus.

"Eu apoiaria firmemente uma iniciativa da presidência (da UE) para avisar o governo birmanês de que nós observamos o seu comportamento e de que a UE imporá sanções mais duras se fizerem uma má escolha", adiantou Brown.

A União Europeia já tem um pacote de sanções, que foram revistas em Abril último, em vigor contra a junta militar no poder na Birmânia.

Essas sanções incluem a proibição de emissão de vistos para várias pessoas ligadas ao actual regime político, um embargo de venda de armas e proibição das empresas europeias de financiarem as empresas públicas da Birmânia.

O Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, sublinhou, por seu lado, a natureza pacífica dos protestos na Birmânia e manifestou a esperança de que a junta militar «aproveite esta oportunidade para iniciar sem demora o diálogo com todas as partes relevantes para o processo de reconciliação nacional».

Na Assembleia-geral da ONU, o presidente norte-americano, George W. Bush, anunciou medidas concretas para agravar as sanções económicas contra os líderes do regime e apelou a outras nações para pressionarem Rangum (actual Yangum).

A ministra da Cooperação sueca, Gunilla Carlsson, afirmou que os olhos do mundo observam a Birmânia para ver como a junta militar vai lidar com os pedidos de reforma dos manifestantes.

Em declarações aos jornalistas em Nova Iorque, onde se encontra para a Assembleia-geral das Nações Unidas, a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que "apenas se pode esperar que o processo continue sem derramamento de sangue".

Em Paris, o porta-voz adjunto do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Frederic Desagneaux, avisou os militares birmaneses no poder de que "serão responsáveis pela segurança dos manifestantes aos olhos da comunidade internacional".

Também o governo italiano pediu às autoridades de Rangum para iniciar "imediatamente" o diálogo com os monges budistas que lideram actualmente o movimento de protesto na Birmânia, num encontro com o encarregado de negócios birmanês em Roma, Hlaing Myint, de acordo com um comunicado oficial.

O prémio Nobel da Paz e arcebispo sul-africano Desmond Tutu elogiou, numa declaração, a "coragem do povo birmanês" ao apoiar as manifestações e defendeu os apelos internacionais à libertação de todos os presos políticos e a uma resolução pacífica dos protestos.

A líder da oposição birmanesa Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz em 1991, que passou a maior parte dos últimos 18 anos privada de liberdade, apareceu no fim-de-semana no exterior da sua casa em apoio aos manifestantes.

O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Miliband, elogiou o apoio de Aung San Suu Kyi, 62 anos, aos manifestantes e afirmou: "Penso que será cem vezes melhor quando ela assumir o lugar que lhe pertence por direito enquanto líder eleita de uma Birmânia livre e democrática".

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