Açoriano Oriental
França
Imigrantes preocupados com extrema-direita duvidam que aplique o seu projeto

Imigrantes por regularizar em França estão preocupados com o crescimento da extrema-direita, mas consideram impossível que aplique o seu projeto de expulsar quem está em situação ilegal, salientando que são eles que põem a economia do país funcionar.

Imigrantes preocupados com extrema-direita duvidam que aplique o seu projeto

Autor: Lusa/AO Online

A viver na rua, e com a situação por regularizar em França, os imigrantes ilegais são um dos principais alvos do projeto da União Nacional (Rassemblement National, em francês), que, segundo as sondagens, deverá ganhar a segunda volta das eleições legislativas francesas, este domingo.

O seu líder, Jordan Bardella, já anunciou que, se ganhar, uma das primeiras medidas que vai tomar é a “suspensão imediata da regularização” da situação das pessoas que estão em situação ilegal em França.

Nesse projeto de lei, o partido pretende também criar a figura jurídica de “crime de residência ilegal”, que faria com que quem estivesse em França sem documentos passasse a ser passível de multas, penas de prisão ou expulsão.

Vários imigrantes entrevistados pela Lusa desconfiam, contudo, que o partido consiga implementar na prática este projeto, salientando que a França tem “mais de 600 mil quilómetros quadrados” e a questão da imigração é sobretudo um argumento eleitoral.

Thabti, tunisino que chegou a França em 2021 e vive na rua com a mulher e o filho de oito meses, considera que o facto de a extrema-direita focar-se tanto na temática da imigração tem sobretudo “fins eleitorais”,

“Para implementar um projeto desses, eram preciso cinco ou 10 anos. Como é que vais fazer isso? Vão pôr polícias com armas, apontar às pessoas e dizer ‘senhor, venha comigo para o aeroporto’? É impossível. Há coisas mais importantes para os franceses se preocuparem do que nós”, diz.

Sokhona, de 31 anos, chegou a França em 2019. Veio da Mauritânia, após ter tentado duas vezes atravessar o mar Mediterrâneo de barco - a primeira vez, o barco afundou - e, agora, afirma estar preocupado com uma eventual vitória da União Nacional, apesar de salientar que não gosta de falar de política.

“Tenho confiança nos franceses e acho que não nos vai acontecer nada. Eles não podem expulsar os imigrantes, seria muito complicado: há muitos africanos a trabalhar cá”, refere o jovem, que vive na rua também com a mulher e filho, já tendo tentado por duas vezes obter documentos para viver legalmente em França, sem sucesso.

Para muitos destes imigrantes, o facto de, para sobreviverem, terem de fazer os trabalhos “que os franceses não querem fazer”, faz com que, mesmo que a extrema-direita quisesse implementar o seu projeto, o país acabaria por ficar na ruína.

“Quem é que trabalha aqui? São os árabes que constroem os prédios, que trabalham na restauração e nas obras. Somos nós que fazemos os trabalhos difíceis, não são os franceses”, frisa à Lusa Gaith Jamil, que vive nas ruas de Paris com a mulher, depois de ter feito uma viagem a pé de 10 meses, desde Istambul, em 2021.

Também Thabti, que tem formação jurídica e tinha uma agência de viagens na Tunísia - que foi à falência com a pandemia, em 2020, deixando-o com muitas dívidas -, salienta que uma grande parte da população francesa “é idosa” e a expulsão de imigrantes provocaria “uma nova crise”.

“Se nós nos formos embora, vai haver uma crise de mão de obra: vai deixar de se encontrar um canalizador, quem trabalhe na construção pública, nas padarias, etc. Eu vou-me agora embora e depois? Não vai haver nada, vai ser preciso formar franceses para trabalharem na canalização, carpintaria, para soldar e pescar, etc. Não há estratégia nenhuma, usam-nos para as eleições”, critica.

Apesar disso, a maioria destes imigrantes estão preocupados com o crescimento da extrema-direita, como Bienvenue, da República do Congo, que chegou a França em 2023, com a mulher e três filhos, “para fugir da política”.

“Viemos pedir asilo à França para vivermos descansados. Não gosto de falar de política, isso é com os franceses. Se me obrigassem a voltar para o Congo, não poderia fazer nada, mas só viemos porque já não podíamos estar lá e aquilo agora é muito perigoso para nós”, refere.


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