UE elogia Portugal, mas política económica não mudou “uma vírgula”, diz Marisa Matias

UE elogia Portugal, mas política económica não mudou “uma vírgula”, diz Marisa Matias

 

Lusa/Ao online   Nacional   19 de Jan de 2019, 12:14

Os elogios na União Europeia (UE) ao desempenho da economia portuguesa não se traduziram em qualquer mudança na política económica comunitária, diz a cabeça de lista do BE às eleições europeias, Marisa Matias.

“Nem uma vírgula foi alterada nos tratados por causa da experiência que se viveu em Portugal”, critica a eurodeputada em entrevista à agência Lusa.

Marisa Matias, que se candidata a um terceiro mandato no Parlamento Europeu (PE), assegura mesmo que “a maior frustração” do mandato que está a terminar foi, enquanto membro da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários, perceber que a UE não aprendeu “rigorosamente nada com a crise”.

A eurodeputada do BE frisa que a reversão de cortes em Portugal “foi feita em confrontação com o que está escrito nos tratados”, o que faz do caso português “a exceção e não a regra”.

“Nem mesmo comprovando que o que era preciso era aumentar os salários e não esmagá-los, e não reduzir os direitos laborais, como são as recomendações europeias”, salienta.

Com a mudança prevista nas políticas para tentar salvar o euro do Banco Central Europeu (BCE), que vai levar a uma subida das taxas de juro, a UE está “na iminência de uma próxima crise” e, nesse cenário, “quem vai sofrer na pele são os países periféricos”.

“Mesmo aqueles, como Portugal, que ao contrário do que seria de esperar tiveram um crescimento económico acima da média e conseguiram reduzir 10 pontos percentuais na dívida pública”, continuam confrontados com uma dívida “ainda impagável” numa UE em que “nada foi feito para que se controlasse verdadeiramente” este problema.

Além disso, o crescimento da economia portuguesa, “não está consolidado o suficiente […] para aguentar o embate”, alerta.

“Assistimos nos últimos anos a enormes desequilíbrios macroeconómicos, as economias periféricas a serem esmagadas, o que foi feito com a Grécia, com Portugal, e creio que se há uma lição que se pode retirar é que quando se procura sacrificar o país em nome de um acordo com a UE, a única coisa que resta é o sacrifício do país porque a UE não vai cumprir esse acordo”, acusa.

Exemplo, assegura, são as sanções por incumprimento do défice, em que “os critérios do défice não são iguais para todos”.

Além disso, muito do trabalho desenvolvido pelo PE nesta legislatura para uma “verdadeira regulação do sistema financeiro” não levou a mudanças efetivas.

“Tivemos várias comissões de inquérito e comissões especiais em relação às políticas fiscais, políticas de evasão e de elisão fiscal, à existência de paraísos fiscais dentro da própria UE. Houve resultados muito importantes desse trabalho e as consequências foram zero”, critica.

“É uma frustração enorme perceber como é que ao longo destes dez anos, e eu entrei no PE precisamente na sequência da grande crise financeira, que se converteu numa crise económica e numa crise social […], foram dez anos de falsas promessas e da constatação que, no essencial, ninguém estava muito interessado em mudar a natureza da construção e da integração europeia que conhecemos até agora”, lamenta.




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