Desde junho de 2025, 850 crianças já receberam o livro “O Tesouro do Arco-Íris”, uma iniciativa da Direção Regional das Comunidades que tem vindo a promover, de forma simples e positiva, a aceitação da diversidade junto das crianças do pré-escolar e do 1.º ciclo. O projeto já passou por 10 escolas em em São Miguel, além de ações em eventos públicos, e pretende agora estender-se gradualmente a todas as nove ilhas.
O livro surge de uma lacuna identificada no terreno. Nas visitas frequentes às escolas, a equipa percebeu que havia pouca oferta, em língua portuguesa e adaptada às crianças mais novas, que abordasse a diversidade sem recorrer a conceitos abstratos como preconceito ou discriminação: “Nestas idade, isso ainda não existe de forma consciente, o que existe é a repetição de comportamentos e de frases ouvidas”, explica Liliana Cardoso, autora do conto e técnica superior na Direção Regional das Comunidades.
Foi dessa dificuldade que nasceu “O Tesouro do Arco-Íris”. A história começa com uma pergunta simples: se o verdadeiro tesouro está ou não no fim do arco-íris. E, ao longo da narrativa, mostra como cada cor é diferente das outras. No final, a mensagem ensina que é precisamente na diferença e na aceitação de cada cor que se constrói um arco-íris bonito e completo: “Nenhuma cor brilha sozinha tanto quanto brilha em conjunto”, resume a autora sobre a moral da história.
Inicialmente pensado para alunos do 1.º e 2-º anos, o projeto acabou por conquistar também crianças do pré-escolar até ao 4º ano, devido à grande adesão das escolas e à forma como o conto foi apresentado. Cada criança recebe um pequeno livro em formato de caderno, com o texto da história e várias atividades práticas, como desenhos para colorir, labirintos e exercícios de reflexão. O formato simples permite controlar custos, facilitar o transporte e garantir que todas as crianças possam levar o livro para casa.
Sempre que possível, a iniciativa é dinamizada presencialmente nas escolas pela equipa da Direção Regional das Comunidades. Em ações de maior dimensão, como a realizada na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, integrada no Festival do Mundo e em parceria com AIPA, a atividade foi dividida em vários momentos. Além da leitura do conto, as crianças participaram na criação de murais coletivos, onde pintaram as suas mãos. Este geste é simbólico, mas mostra que todas são diferentes, refletindo sobre aquilo que as torna únicas.
Num dos exercícios, cada criança foi convidada a completar a frase “se eu fosse uma cor, seria...”, associando a emoções, gostos e traços da sua personalidade. A sessão termina sempre com a música “Ser Diferente é Normal” de Gilberto Gil e Preta Gil, reforçando a mensagem central do projeto de forma lúdica e emocional.
“O impacto tem sido murito positivo”, segundo Liliana Cardoso, admitindo que as crianças compreendem facilmente a mensagem e dão exemplos a partir do seu próprio dia a dia.
Curiosamente, as diferenças apontadas raramente está ligadas à cor da pele ou à origem cultural, mas sim a gostos pessoais, brincadeiras preferidas ou até clubes de futebol: “Muitas vezes a diversidade está mais na cabeça dos adultos do que nas crianças”, sublinha a responsável pelo projeto.
Para o futuro, o objetivo passa por continuar a levar o livro a mais escolas em São Miguel e, progressivamente, às restantes ilhas. Nem sempre será possível realizar as sessões presenciais, mas os livros serão enviados para que os professores possam trabalhar o conto em sala de aula. Embora o primeiro contacto seja geralmente feito pela equipa, as escolas também podem solicitar a atividade.
Mais do que uma ação pontual, “O Tesouro do Arco-Íris” é pensado como um projeto a longo prazo: “São muitas escolas e muitas crianças. Não é um trabalho que se faça num só ano”, conclui a autora. Um arco-íris que se constrói devagar, cor a cor, deixando uma marca que vai além das páginas do livro.
