Pediatra Mário Cordeiro adverte

Os "lobos" dos contos infantis têm de continuar a ser maus e a morrer


 

Lusa/AO   Nacional   30 de Out de 2007, 08:02

O "lobo" tem de continuar a ser "mau" nos contos de fadas e "o pau deve ser atirado ao gato" nas canções infantis para que as crianças aprendam a distinguir o bem do mal, defende o pediatra Mário Cordeiro.
O médico está a preparar um novo livro onde pretende contestar a forma politicamente correcta como as histórias e canções tradicionais infantis tendem a ser hoje em dia contadas e cantadas às crianças.

    "Acho que deve ser como sempre foi. Não se devem suavizar as histórias. Quando se fala de lobos, reinos ou príncipes encantados nas histórias de 'Era uma Vez', isso significa o próprio percurso de vida", explicou em entrevista à Lusa Mário Cordeiro, que em Novembro lança "O Livro da Criança", da editora Esfera dos Livros.

    Na história dos “três porquinhos”, as casas de palha, madeira e tijolo significam as várias etapas da vida do indivíduo, em que há uma evolução e estruturação social e pessoal, exemplifica o pediatra.

    "A casa de tijolo transmite a noção de que o trabalho e a segurança são necessários à brincadeira e ao lazer", sustenta.

    Mas, segundo o pediatra, essa casa deve ter sempre a chaminé e um caldeirão de água a ferver onde o lobo morre, já que a presença destes elementos na história lembram sempre a vulnerabilidade do ser humano e a sua capacidade para superar situações. "Porque se o porquinho vivesse num 'bunker' sem chaminé não poderia cozinhar e, logo, morreria de fome", explica.

    Da mesma forma, o lobo da história tem de morrer e não se deve contar uma versão em que a fuga é a solução, até porque isso deixa a porta aberta para a possibilidade de um regresso: "Isso sim é que provoca pesadelos às crianças", diz o pediatra.

    E por mais cruel que pareça, também as várias histórias em que morre a mãe de uma personagem devem ser contadas tal e qual, para preparar os filhos para uma vida própria e autónoma. E é também por isso que as mães, segundo Mário Cordeiro, são substituídas por madrastas más, para deixar de haver um pólo de segurança.

    "Um dia vais ter de fazer a tua própria vida", esta é a mensagem, explica o pediatra.

    Para Mário Cordeiro, "os adultos são arrogantes a contar histórias e contam-nas para si próprios".

    "Não é por o lobo ibérico estar em extinção que não se deve matar o lobo na história. Não se pode confundir realidade com fantasia", argumentou.

    A falta de definição entre o bem e o mal pode levar a um medo de crescer, que, segundo o médico, é a causa de grandes problemas na adolescência.

    Para realizar este trabalho, Mário Cordeiro está a comparar várias versões de histórias e canções tradicionais e tem verificado que "estão a desajudar imenso as crianças com versões absurdas".

    Neste livro, que deverá estar pronto dentro de um ano, o pediatra propõe-se explicar como se diferencia a família psicológica da família real e qual é a construção que a criança faz do seu triângulo familiar.

    A partir dos 18 meses, explica o pediatra, a criança perde a noção da omnipotência e deixa de se sentir Deus para passar a perceber as fragilidades de qualquer ser humano.

    "Tenta, então, refugiar-se no seu próprio triângulo e tenta projectar o seu futuro dentro de casa, perspectivando os seus próprios filhos. O primeiro sinal disso é quando uma criança começa a embalar um boneco ou um urso".

    Nesta altura, a criança começa a identificar-se mais com o progenitor do sexo oposto e a rivalizar com o do mesmo sexo.

    No fundo, Mário Cordeiro tentará explicar "o medo de crescer", dando aos pais ferramentas para se responsabilizarem na definição de limites para os filhos.

    "É fundamental uma criança conhecer os limites da sua relação com o outro", afirma.

    A obra que o pediatra lança em Novembro, "O Livro da Criança", pretende responder a algumas dúvidas e inquietações dos pais de crianças com entre um e cinco anos de idade e segue-se ao "O Grande Livro do Bebé", também da Esfera dos Livros, uma obra do mesmo género sobre bebés até aos 12 meses.

    Com estas obras, o autor "não pretende criar manuais de instruções", mas antes aumentar a sabedoria dos pais para que tomem decisões informadas e fundamentadas em relação aos seus filhos.

    Nos planos futuros de Mário Cordeiro estão ainda mais dois livros, um para crianças em idade escolar e outro para a adolescência.
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