Director do Museu Carlos Machado contra "cultura da aparência"

Director  do Museu Carlos Machado contra "cultura da aparência"

 

Paulo Faustino   Regional   21 de Out de 2009, 22:30

"Sobre o desígnio do falso mito do desenvolvimento cultural, Ponta Delgada está a tornar-se um mega palco de abundantes espectáculos gratuitos, que serve o consumo de massas. Por conseguinte, todo este pano de fundo de uma urbe recreativa e entretida revela a falta de um compromisso na educação para uma cidadania participativa".

Quem o diz é o director do Museu Carlos Machado, que foi o conferencista convidado para mais um almoço dos rotários, subordinado ao tema dos museus - responsabilidade social e inclusão. Um encontro que serviu para o padre Duarte Melo tecer críticas à política de acontecimentos lúdicos que tem sido levada a cabo na baixa, desde o Coliseu Micaelense até às Portas do Mar. Uma cidade, na sua opinião, em permanente estado de festa e que vive o "drama da poluição ruidosa que brutalmente entra pelos lugares de espírito e de recolhimento".

O responsável pelo Museu Carlos Machado foi mais longe na sua visão crítica e invocou o que considera ser a "verdade terrível" dos últimos tempos. No fundo, a constatação de que "a cultura identitária tem sofrido feridas provocadas por um totalitarismo da chamada ‘cultura da aparência’, pautada pela militância do lúdico e pelo descontrolo de uma febre de entretenimento, que só tem contribuído para o vazio, a vertigem e o empobrecimento da racionalidade democrática". A sua dissertação serviu para chegar à conclusão que "estamos a assistir à invasão abusiva de um amontoado de produtos avulsos, de uma cultura de superfície, própria das sociedades líquidas em que impera o individualismo, o anonimato e o entretenimento hedonista, promovidos e divulgados pela ambição da aparência e que, infelizmente, fidelizam públicos, precipitando-os para o nada".

Dois dos projectos que mais destaca o padre Duarte Melo - e que são também socialmente "inclusivos" desde que há quatro anos assumiu a direcção do Museu Carlos Machado - são o "Museu Móvel" e o "Museu em sua Casa". O primeiro visa, através de uma viatura adaptada a funções museológicas, sensibilizar a população para a necessidade de conservar e divulgar o seu património, enquanto o segundo procurou sensibilizar o público para a importância do património no desenvolvimento local.

Também fez outra revelação: o Museu Carlos Machado conta com um orçamento anual de apenas 50 mil euros para a realização de exposições e eventos culturais, o que é insuficiente e obriga a recorrer às ajudas do mecenato.

O museu possui três estruturas: Igreja do Colégio dos Jesuítas, Recolhimento de Santa Bárbara e Convento de Santo André - este último a "casa-mãe", encerrada para obras de ampliação e remodelação. O concurso de prévia-qualificação para a selecção do atelier que desenvolverá o projecto designou, para esta tarefa, o gabinete do Arquitecto Paulo David. Uma intervenção que privilegiará a "conservação da colecção, renovação do discurso expositivo e adaptação do espaço a uma museologia adequada".


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