Açoriano Oriental
“Hoje, trabalham nos Açores quatro lojas maçónicas, espalhadas por três ilhas”

Fernando Cabecinha Iniciou a sua atividade maçónica há 32 anos e desenvolveu diversos cargos na Obediência, nomeadamente membro do Conselho da Ordem, Presidente da Grande Dieta e Grande Conselho Maçónico e é, desde dezembro de 2021, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa

“Hoje, trabalham nos Açores quatro lojas maçónicas, espalhadas por três ilhas”

Autor: Paulo Simões

Qual é o papel de um Grão-Mestre da Maçonaria?


Compete aos maçons fazer a maçonaria, porque é neles que reside o poder maçónico.

O Grão-Mestre representa o Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa e procura ser o garante da harmonia e da união dos maçons.

A Maçonaria, enquanto Ordem Iniciática e enquanto Obediência exprime-se através dos seus órgãos competentes, nomeadamente o Grão-Mestre.

Quando decidiu ser maçon e porquê?


Um dia um amigo maçon lançou-me o repto para ingressar na Maçonaria. Depois de algumas conversas, de algumas leituras, verifiquei que se tratava de uma ordem iniciática que propagava os princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade e que se preocupava com a redução das desigualdades sociais.

Entendi que isolado não tinha as melhores condições para me desenvolver e atuar em benefício da sociedade.

Quais são os valores basilares da Maçonaria?

Defender todas as condições para que todos sejamos sempre livres, individual e coletivamente, num processo de aperfeiçoamento constante e no cumprimento, sempre, das Leis de cada Estado. Combatemos todas as formas de tirania e corrupção.

Quem pode ser maçon e como é feito o convite para integrar uma loja maçónica?

Quem for livre e de bons costumes. Quem se der bem com a defesa da Liberdade e das Liberdades que tornam uma sociedade mais justa. Quem tenha vontade, tempo e espírito para esta caminhada sem fim para o aperfeiçoamento pessoal e o trabalho no desenvolvimento da sociedade.

Normalmente, o convite é feito por um maçon, mas também pode “bater à porta”.

Em qualquer dos casos, será sujeito a um escrutínio e, se se confirmarem os preceitos necessários para ser maçom, dar-lhe-emos entrada.

Existe uma perceção pública de elevado secretismo na Maçonaria em Portugal, que os maçons têm reserva em se assumir como tal. Porquê esse secretismo? O que receiam?
A Maçonaria é discreta e não secreta. Está registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, as nossas instituições têm natureza jurídica registada, número de pessoa coletiva. É conhecida a localização da sua sede social, cumprindo as Leis do Estado.

Politicamente onde se enquadra a Maçonaria?

Na defesa das Liberdades que permitem a realização e progresso individual e coletivo, responsável, da humanidade e da cada pessoa.

A Maçonaria tem algum papel ativo na vida partidária e no Estado?

A Maçonaria não tem qualquer interferência nas instituições. Os maçons, enquanto cidadãos, têm os mesmos direitos de qualquer outro de afirmarem as suas capacidades nas instituições de que fazem parte.

Qual tem sido o papel da Maçonaria na história recente de Portugal?

Como já afirmei anteriormente, são os maçons que fazem a Maçonaria.

Vários maçons, principalmente após o 25 de Abril de 1974, assumiram cargos de relevo na vida do País. Mas ao contrário do que se afirma, por ignorância ou má-fé, não foi a Maçonaria que lá os colocou, mas foi o seu mérito pessoal que foram escolhidos.

Provavelmente, o feito mais relevante de um maçom foi a criação do Serviço Nacional de Saúde, cuja figura maior foi António Arnaut, que foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa.

Em que áreas da sociedade intervêm os maçons e de que forma?

Ao nível do pensamento, das ideias e dos ideais. Intervimos no plano social e filantrópico, onde temos o dever de acentuar a nossa intervenção nacional e internacionalmente num mundo conturbado e muito desigual.

Num mundo em que os extremismos parecem estar a ganhar um maior protagonismo, que papel pode e deve a Maçonaria desempenhar?

Os maçons são baluartes na defesa de valores fundamentais de tolerância e da liberdade que, por sua vez, são pilares para o desenvolvimento das sociedades e do Homem. Somos um espaço em que cultivamos esses valores e procuramos sempre o nosso aperfeiçoamento individual para melhor transmitirmos os nossos os Valores na sociedade, independentemente dos locais onde trabalhamos e desde que nos mantenhamos fiéis aos princípios maçónicos.

A sua vinda aos Açores significa que a maçonaria está ativa na Região?

A implantação da Maçonaria nos Açores data de 1792, através da instauração de uma loja maçónica em S. Miguel, onde se destaca a figura de Francisco António de Sousa, proveniente da Madeira. Também nessa data consta a existência de uma loja na Horta, à qual está ligada a figura de Tomás de Ornelas Frazão.

Tal como no resto do País, a instauração da ditadura militar em 1926, e particularmente a sua orientação mais antiparlamentar a partir de 1930, é marcante para o declínio da Maçonaria açoriana.

Depois do 25 de Abril, a Maçonaria voltou a organizar-se e foram surgindo novas lojas que procuram dar continuidade ao trabalho anteriormente realizado, cumprindo o desígnio de aliar a tradição com a modernidade na defesa e afirmação dos valores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade e manterem viva a escola de valores éticos e cívicos que visam o desenvolvimento da sociedade açoriana.

Hoje, trabalham nos Açores quatro lojas, espalhadas por três ilhas e ainda recentemente consagrei um Templo maçónico em Ponta Delgada.

Como se organizam os maçons açorianos?

Tal como os outros em qualquer parte do mundo, em Lojas.

Mas, como já referi anteriormente, como cidadãos, alguns pertencem a associações cívico-culturais, a grémios e neles desenvolvem atividade
Que papel desempenha a Maçonaria na sociedade regional?

Como todos os dias constatamos, as Liberdades, a Igualdade de oportunidades a par da atenção ao que é desigual – e que tem de ter um tratamento diferenciado e digno – a saúde pública, a educação, estão cada vez menos garantidas para todos. Nos Açores, na Madeira e no Continente, a Fraternidade (que significa, como afirmava António Arnaut, solidariedade com amor) precisa entrar nos corações dos membros de uma sociedade que progressivamente vai privilegiando o individualismo e a indiferença face ao próximo.

Existem maçons na Diáspora açoriana? Que influência podem ter para os Açores e para o país?

Onde está um maçon está a Maçonaria. Essa grande responsabilidade que cada um de nós acarreta e, no caso, dependendo da sua ligação aos seus locais de origem, os maçons devem sempre afirmar os Princípios e Valores da Maçonaria e que norteiam a sua vida.

Quais são os principais desafios que a Maçonaria enfrenta nos Açores?

Os mesmos que em qualquer lugar, salvaguardadas as suas naturais especificidades: lutar contra os preconceitos e afirmar os princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, afirmando o direito ao livre pensamento e à liberdade de consciência.

Tem havido alguma evolução na Maçonaria no arquipélago?

Os efeitos da pandemia produziram os seus efeitos negativos, não só afetando a saúde de maçons como afastando-os do convívio fraterno com os seus concidadãos.

O trabalho que tem vindo a ser feito é de consolidação das lojas, dos seus trabalhos e no aumento das iniciativas de caráter cultural, social e filantrópico junto da sociedade.

E no país?

Também no País os efeitos nefastos da pandemia se fizeram sentir e a fórmula encontrada foi a de nos reorganizarmos em função da nova realidade, dos novos desafios com que nos deparamos, com as consequências perversas da guerra que a Federação Russa infligiu à Ucrânia.

O Grande Oriente Lusitano celebra 220 anos de existência. O que fica destes mais de dois séculos de atividade?

Ao longo de quase três séculos de Maçonaria em Portugal, a sua História confunde-se com a História do País, refletindo sempre a pluralidade que a caracteriza.

Cito-lhe, a título de exemplo, alguns momentos importantes:

A fundação da Real Academia das Ciências, com a participação de maçons como o Abade Correia da Serra.

A construção do regime constitucional a partir de 1820, e mais intensamente após 1834, com a presença de maçons nos diversos partidos liberais e a sua participação em sucessivos governos. Destaque para figuras como José Estêvão, o Duque Loulé, Almeida Garrett.

A abolição da pena de Morte (1867). O autor do projeto de lei foi D. António Aires de Gouveia, Bispo de Betsaida, que pertenceu à Loja Urbiónica, de Coimbra.

O Código Civil de 1867, cujo principal autor foi o Visconde de Seabra, que pertenceu a uma Loja maçónica de Rennes, na emigração, durante o miguelismo.

A participação de muitos maçons na proclamação da República em 1910.

A difusão do ensino, com a criação de organizações específicas como a Sociedade Promotora de Escola, com a Escola Oficina nº 1, na vanguarda na moderna pedagogia, e as Universidades Livres e Populares em Lisboa, Porto e Coimbra.

A criação de inúmeras escolas de ensino primário, por iniciativa de maçons, como Francisco Grandella, ou de lojas que as financiava, Em Lourenço Marques, a primeira escola primária pública foi fundada pela Loja 1º de Janeiro, que contratou um casal de professores para nela lecionarem.

A luta pela Liberdade, em muitas situações, em diversos momentos. Contra a Ditadura Militar imposta em 1926 e durante o Estado Novo. Muitos morreram outros foram demitidos, deportados e presos.

Dou-lhe um outro exemplo: na recente série televisiva «Abandonados», um dos protagonistas foi o capitão Pires, resistente contra os japoneses, morto em resultado dos ferimentos sofridos. O que não se referiu, é que ele pertencia a um Triângulo maçónico de Dili, fundado em 1935.

Não costumamos vangloriarmo-nos nem publicitarmos o bem que fazemos, mas posso dizer que fomos a primeira Obediência Maçónica a reagir à invasão e, através de uma parceria com uma autarquia local e uma ONG trouxemos, recebemos e integrámos cerca de 350 ucranianos.

Faz sentido ser maçon nos dias que correm?

Hoje, mais do que nunca, os valores que defendemos são atuais e é urgente continuarem a ser garantidos. A Humanidade sofre momentos de guerras, os direitos essenciais à vida, à qualidade de vida e as liberdades individuais e coletivas estão novamente a ser ameaçados. Os efeitos cruzados de crises financeiras, de conflitos armados, da especulação e da corrupção ameaçam a vida de muitas pessoas, aumenta a pobreza e coloca em causa uma vida com dignidade para milhões de seres humanos.

A atividade dos maçons não conflitua com a de outras organizações de caráter social. Os maçons procuram acrescentar valor ao que já é feito e ao que é bem feito.

Infelizmente, todos somos poucos para minimizar o sofrimento gradual dos membros mais desfavorecidos da nossa sociedade.

Diria, assim, que resta o papel que os maçons souberem desempenhar, tal como o fizeram no passado e o fazem hoje.



















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