Elevadas cargas de metais pesados em Ponta Delgada

Elevadas cargas de metais pesados em Ponta Delgada

 

Olímpia Granada   Regional   24 de Set de 2007, 17:31

Armindo Rodrigues é o responsável pela Unidade de Histologia e Hispatologia do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, que se dedica essencialmente à investigação dos efeitos da poluição nos seres humanos.
Armindo Rodrigues é o responsável pela Unidade de Histologia e Hispatologia do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, que se dedica essencialmente à investigação dos efeitos da poluição nos seres humanos. Concretamente, o que fazem?
Preocupa-nos muito em termos de investigação quais os efeitos que têm os resíduos ou outros poluentes na saúde das populações e dos ecossistemas.
Fizemos um trabalho, por exemplo, na segunda metade dos anos 90, na Marina e Porto de Ponta Delgada , sobre os efeitos do tributilestanho (TBT) utilizado em tintas antivegetativas usadas, em particular, nos barcos de grandes dimensões - o que hoje é ilegal - para que não se desenvolvam algas e se incrustem invertebrados nos cascos; ora o TBT é bastante perigoso para humanos e para outros organismos e procuramos desenvolver um bioindicador e biomarcadores (indícios que os organismos nos dão de que estão a ser afectados pelos poluentes) recorrendo a um búzio de uma espécie em que existem machos e fêmeas tendo-se verificado que as fêmeas desenvolveram órgãos masculinos na presença desse poluente. Portanto, em vez de utilizar humanos (que não se pode nem queremos!), utilizamos os organismos vivos capazes que funcionam como sentinelas das agressões que estão a ser sofridas pelos sistemas biológicos à presença de determinado poluente.
Essa informação foi divulgada?
Foi publicado a nível internacional e, provavelmente, também se soube a nível regional.
Testamos ainda um outro organismo como bioindicador (ou seja, como uma espécie sentinela), o caracol de jardim comum, denominado Helix Aspersa, que se revelou um excelente bioindicador do grau de poluição rodoviária em Ponta Delgada e, até, no ambiente limítrofe.
O que é que detectaram?
Dedicamo-nos muito a metais pesados que são elementos, a maior parte deles, com elevado poder de toxicidade e detectamos elevadas cargas em determinados locais de Ponta Delgada presentes nesses organismos e que revelaram efeitos (alterações) em alguns tecidos como resposta a um stress ambiental, neste caso de metais pesados decorrentes da poluição rodoviária onde a magnitude era maior. Também publicamos este trabalho.
Pode antecipar a sua intervenção no seminário “Visão Global de Gestão de Resíduos”?
A minha participação incidirá sobre os efeitos que esses resíduos podem ter nas populações, particularmente dos humanos.
Por exemplo, em Helsínquia foi construído um parque habitacional sobre uma lixeira que tinha sido desactivada há 30 anos e começou a verificar-se que determinado tipo de doenças tinha uma elevada incidência nos habitantes desse bairro; fez-se um estudo epidemiológico para ver até que ponto havia, ou não, uma associação com a qualidade do solo sobre o qual tinha sido edificado aquele parque habitacional e verificou-se que tinha muitos metais pesados e outros poluentes bastante perigosos e verificou-se, também, através dos registos de saúde que existia uma maior propensão para desenvolver mais cancros, asma e uma série de patologias do que um grupo de controle que vivia num bairro fora daquela zona. Isto para dar uma ideia de que estes estudos possibilitam uma indicação muito clara dos efeitos que os poluentes de resíduos sólidos, ou não, podem ter sobre as populações…
Como é que a legislação pode adaptar esses conhecimentos científicos?
Começa a haver uma mudança e há já muita legislação no que diz respeito a limites e valores de referência, com muitas entidades aptas a fazer medições e a União Europeia tem patrocinado ao mais alto nível eventos que prevêem a biomonitorização humana (…).
O que mais preocupa os investigadores da Universidade nos Açores?
A nós interessa-nos algo para o qual as pessoas parecem não estar despertas e que não resulta da acção humana: a actividade vulcânica é, também, um factor de poluição, ainda que natural, fonte de metais pesados (de enxofre e de uma série de elementos agressivos) e, nessa medida, preocupa-nos desenvolver medidas capazes de diminuir o grau de exposição e os seus efeitos.
Temos alguns estudos que apontam para uma maior taxa de incidência de bronquite crónica, por exemplo, na população das Furnas face à população de Santa Maria.
Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.