E-Learning para a Economia do saber

E-Learning para a Economia do saber

 

Lisa Ventura Garcia   Regional   23 de Nov de 2007, 11:37

A intersecção entre a tecnologia e o ensino é uma área que está a transformar a face da aprendizagem como a conhecemos e promete revoluções, silenciosas mas profundamente significativas, no futuro próximo.
Depois de um período de recobro no pós-bolha da Internet, o e-learning tem vindo a recuperar o seu momento, emergindo como uma aplicação essencial da Internet, capaz de influenciar – de forma consistente e global – a forma como aprendemos e ensinamos. Mais consciente, mais profissional e mais conhecedor dos obstáculos e das potencialidades, o e-learning tem ainda hoje muito caminho para trilhar, mas a diferença é que neste momento multiplicam-se as organizações que colhem já frutos consistentes dos investimentos feitos nesta área. Essencialmente, o mundo aprendeu a usar o potencial do e-learning.
Neste uso da tecnologia, como em outros, Portugal demorou a aquecer os motores. Os projectos de e-learning mais significativos em Portugal, nomeadamente no campo universitário, têm poucos anos de vida e, quando submetidos a um escrutínio mais detalhado, verifica-se que a maioria destes projectos não contempla a totalidade das respectivas comunidades académicas e não suscitou um número razoável de novas ofertas formativas adaptadas ao ambiente de ensino mediatizado pela Internet. Para percebermos a relativa gravidade desta situação importa sabermos, por exemplo, que logo no início deste milénio a University of Phoenix Online contava já com mais de 50.000 “e-alunos”. A totalidade dos alunos de licenciatura e M.B.A desta universidade norte-americana realizavam já os seus estudos integralmente online. Uma importante percentagem destes eram profissionais activos que investiam na formação ao longo da vida e agradeciam a possibilidade de prosseguirem estudos sem terem que interromper a vida. Agora, em 2007, mais de 96% das Universidades norte-americanas oferecem oportunidades de aprendizagem online.
Perante estes factos, sobre a capacidade norte-americana para disseminar conhecimento através do e-learning, é inquietante verificar que já restam poucos anos até 2010, a meta temporal estabelecida na Estratégia de Lisboa para a Europa “tornar-se na economia baseada no conhecimento mais dinâmica e competitiva do mundo”. Para que este desígnio aconteça, e Portugal contribua, as nossas Universidades e Institutos Politécnicos (mas também a formação profissional e a formação empresarial) terão que acelerar francamente o passo e, de uma vez por todas, encararem o facto de que necessitam de trabalhar seriamente as tecnologias da informação e da comunicação a seu favor.
A integração efectiva (e não “experimental”) das TIC nos sistemas educativo e empresarial é essencial para que se atinja o dinamismo e a competitividade perseguidos pela Estratégia de Lisboa. Se a educação e formação em Portugal não souber aproveitar as oportunidades abertas pelo e-learning – ensino ubíquo, ensino ao longo da vida, ensino ao ritmo do aprendente, ensino individualizado ao modo de aprendizagem do aprendente, entre outros benefícios – não é o e-learning que falha. Somos nós todos – instituições de ensino, empresas, regiões, associações profissionais – que falhamos por inércia.
Na Região Autónoma dos Açores, a nossa Universidade (UAc) lançou o seu projecto de e-learning no início de 2005, seguindo de perto os “pioneiros” portugueses na matéria (Universidade de Aveiro, Universidade do Minho, Universidade do Porto). O facto é que, olhando para um universo de aproximadamente 160 Instituições de Ensino Superior em Portugal, a Universidade dos Açores surge entre as primeiras que realizaram um investimento significativo no e-learning, até porque muitas persistem ainda em seguir completamente alheadas desta urgência.
Na UAc o impulso decisivo para o e-learning esteve ligado a uma iniciativa governamental denominada Campus Virtuais, que impulsionou diversas Instituições de Ensino a criarem os seus respectivos Campus Virtuais, incluindo a infra-estrutura para o e-learning. No entanto, passados quase 5 anos sobre o início do programa, o Ensino Superior nacional continua, na generalidade, falho de uma oferta de e-learning significativa.
É que não basta a modernização da infra-estrutura tecnológica das instituições de ensino e formação para que se possa cultivar o e-learning. A componente “tecnologia” é, sem dúvida, instrumental, mas torna-se vazia de significado quando não vai acompanhada de acções formativas, informativas e de sensibilização, que mudem os comportamentos e a forma de trabalhar dos docentes, dos formadores e dos órgãos de gestão do ensino. Pelo contrário, pode-se estar a criar um novo problema: investem-se somas avultadas em infra-estruturas tecnológicas para serem (in)utilizadas em projectos de ensino que perpetuam formas antigas de transferência de conhecimentos.
Falta sensibilizar os docentes, falta formar e-professores, falta que a comunidade docente se disponha a aprender a ensinar online. Para ensinarem online e serem eficazes a fazê-lo os formadores e docentes têm que aprender a estruturar cursos para e-learning (não se resume a afixar ficheiros online…), e a relacionarem-se com alunos online num ambiente virtual de aprendizagem. Um ambiente virtual de aprendizagem pode ser tão ou mais rico e colaborativo quanto uma sala de aula tradicional. Estas são competências pedagógicas essenciais – não intuitivas, sim que se aprendem – e que faltam redondamente aos professores portugueses enquanto classe. Influenciar as competências e os métodos de ensino dos professores é um processo essencial para que o e-learning seja mais do que um conceito mais ou menos vago, mais ou menos experimental, em Portugal.
A ausência de reacção das nossas instituições de ensino perante esta urgência verifica-se não só pela ausência de oferta formativa adaptada ao e-learning como também pelo próprio desconforto que parecem demonstrar quando se envolvem com o ensino à distância mediatizado pela Internet: muitas das nossas Universidades, Politécnicos, Escolas Profissionais, e outras, não possuem, por exemplo, um método para calcular, para efeito de vencimentos, as horas despendidas pelos seus docentes a trabalharem no ambiente virtual de ensino. O e-learning cria novos cenários, também administrativos, que parecem acabrunhar as nossas instituições, onde teima em persistir, se calhar mais do que uma desconfiança crónica à mudança, uma falta de visão prospectiva.
Temos vindo a investir, enquanto país, na criação do edifício virtual para o e-learning (Campus Virtuais, e-Escola, Banda Larga, etc), mas agora falta-nos aprender como habitá-lo.
E o tempo para a mudança esgota-se. É que, para sermos uma economia do conhecimento competitiva não temos já tempo para esperar por uma nova geração de professores e gestores do ensino.
Na Macaronésia temos um exemplo em curso de como o e-learning pode promover a criação de redes de conhecimento, contribuindo para combater o isolamento da insularidade e para estabelecer pontes de contacto entre regiões. Trata-se do PIATE - Projecto Integrado de Apoio ao Turismo Através do E-learning.
De acordo com os promotores, “pretende-se através do Projecto PIATE que os Empresários do Sector Horeca, da Madeira, Açores e Canárias, e os seus colaboradores, tenham acesso a formação de elevado nível, com metodologias inovadoras, beneficiando das vantagens oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação”.
As Regiões Ultraperiféricas, sobretudo as que carregam uma dupla insularidade, como é o caso dos Açores, têm muito a ganhar com o domínio das Novas Tecnologias, e sem dúvida que o e-learning pode influenciar positivamente a qualificação dos activos profissionais da Região - assim se saiba montar e gerir um plano nesse sentido. Para tal é necessária uma planificação realista, com objectivos bem delineados e métricas associadas. Desta forma se evitará perpetuar o vício da “infra-estrutura sem conteúdo”.
Como arquipélago disperso que é, a Região Autónoma dos Açores terá muito a ganhar com a construção de uma estratégia integrada para o conhecimento, através do e-learning.
A eliminação de barreiras geográficas, a aproximação entre todas as sociedades insulares em espaços partilhados de aprendizagem, a abertura a horizontes mais amplos de educação para cada açoriano, a redução dos obstáculos físicos à prossecução dos estudos, a promoção da inclusão social, o acesso a novas competências “just in time” para milhares de funcionários nas nossas empresas – estes são apenas os maiores benefícios que a Região pode colher caso saiba estruturar a sua política educativa de forma a acolher e promover o e-learning.
A morte da distância como determinante da possibilidade de aprender é uma dádiva da Internet, que cada açoriano deve poder usufruir com confiança e disponibilidade.

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