Lisboa

Condicionamento ao trânsito nos bairros históricos continua a gerar polémica


 

Lusa / AO online   Nacional   14 de Out de 2007, 11:51

O condicionamento do trânsito nos bairros históricos de Lisboa, medida tomada em 2002, continua a gerar contestação por parte de moradores e comerciantes, mas a EMEL pretende manter a iniciativa.
    Em Dezembro de 2002, o Bairro Alto torna-se a primeira zona histórica, de Lisboa, a ver algumas das suas ruas com trânsito condicionado, seguindo-se os bairros de Alfama (Agosto 2003), as zonas da Bica e de Santa Catarina (Maio de 2004), e a freguesia do Castelo (Setembro de 2006).

    Cinco anos depois, Maria Figueira, presidente da Junta de Freguesia da Encarnação, no Bairro Alto, considera que a medida de condicionamento “podia ser mais positiva”, e que é “muito urgente fazer uma avaliação da mesma, junto dos moradores e comerciantes”.

    Aponta “dificuldades de comunicação com a EMEL” nos pontos de entrada na freguesia, e exemplifica que se um morador pretender descarregar compras em sua casa, já depois das horas de autorização, o controlador da EMEL não o deixa entrar na área condicionada.

    Quanto aos lugares de estacionamento, disponíveis para os moradores na Encarnação, cita que “não são suficientes”, e adianta que só existem na freguesia lugares para um terço dos moradores.

    A solução passa, defendem, por uma melhor comunicação entre os moradores e comerciantes do bairro e a EMEL.

    Dulce Galhardo, 29 anos, é moradora e comerciante na zona da Bica (Bairro Alto), e lamenta “condicionar a sua vida aos horários da EMEL”, referindo ainda que a “atribuição de lugares nalguns parques exteriores é feita por sorteio”.

    “Quando fecharam não nos perguntaram nada”, frisa Paulo Ribeiro, comerciante de 43 anos na Rua da Atalaia, também no Bairro Alto.

    Já para António Mestre, 50 anos, igualmente comerciante do bairro, o local “está melhor do que antes”, e “o único inconveniente é os carros de apoio ao comércio não poderem entrar depois da hora limite”.

    Vítor Manuel, 53 anos, é lacónico: “É da pior ordinarice que houve”.

    Para este morador e dono de um café, “o comércio está a morrer” no bairro, apontando o dedo à EMEL.

    Em Alfama a polémica também existe.

    No entender da presidente Junta de Freguesia de Santo Estêvão, Lurdes Pinheiro, o “trânsito continua desregulado” e a EMEL “diz que não é da sua responsabilidade”.

    Lurdes Pinheiro explica que tentou marcar uma reunião entre todos os interessados e a empresa municipal, mas esta tem vindo a adiar a reunião.

    Para piorar, salienta que a Carris se prepara para suprimir três carreiras que passam por Alfama.

    Para Francisco Maia, presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel, “só houve pequenas melhorias em termos de fluidez na circulação, mas que “em caso de incêndio, são mais fáceis e práticas as operações dos bombeiros.

    Há também quem lance a acusação de que “as regras não são as mesmas para todos”, como afirma Alberto Rodrigues, tesoureiro da Associação de Comerciantes de Alfama.

    “Há benesses” para algumas “empresas com um certo estatuto e com contactos privilegiados com as cúpulas, como por exemplo a “Continente e a Pão de Açúcar”, diz ainda.

    Anabela Santos, 58 anos, cabeleireira à 40 no bairro, é incisiva: “A EMEL está a matar Alfama”.

    Uma palavra de ordem espalhada por cartazes, ao longo da Rua dos Remédios.

    Outro problema que destaca é o de “muitos carros se estragarem nos pilaretes retrácteis”.

    Os mais idosos também se queixam, como é o caso de António Augusto, morador de 89 anos, indicando que “há ruas completamente fechadas”, o que “complica a vida aos mais idosos”.

    A freguesia do Castelo foi a última a ver as suas ruas condicionadas, e para o presidente da junta, Carlos Lima, “o balanço foi favorável”.

    Em declarações à Lusa, o autarca declara que “houve concordância e acautelamento para que os comerciantes ficassem satisfeitos”, ao mesmo tempo que se criou “estacionamento para os moradores", o que veio “satisfazer” as suas necessidades.

    Mas avisa que os “parques de estacionamento mais próximos pagam-se e são caros”.

    Quanto ao problema da segurança, aponta que a sua falta, no Castelo, “faz com que as pessoas não queiram deixar os carros longe”.

    Recém-chegado à freguesia, Pedro Pires, produtor de teatro, não vê com bom olhos a existência de parques pagos, e acha que a medida de condicionar o trânsito deve ser tomada apenas quando há “infra-estruturas para acolher os carros” no exterior.

    Este morador de 32 anos alerta para os veículos de pessoas que não são do bairro mas que lá ficam “noites inteiras”.

    Para Marina Ferreira, presidente da EMEL, o sistema existente “dá qualidade de vida aos moradores” dos bairros, por isso diz que pretende mantê-lo.

    Na sua opinião deve haver uma “comunicação e articulação” com as juntas de freguesia, visto serem o “balcão de atendimento” que a EMEL usa para solucionar os problemas.

    Apesar da polémica que a empresa de estacionamento suscita junto de alguns moradores e comerciantes, a presidente da empresa municipal declara que “há grande apreço pela EMEL” nestes bairros.

    “O condicionamento melhorou a mobilidade” dentro dos bairros, destacando depois não ser “possível satisfazer toda a gente”.

    Confirma existir um “défice de lugares” de estacionamento e que Lisboa precisa de mais parques que sirvam as zonas históricas, sendo uma das soluções a “criação de parques subterrâneos”.

    A Agência Lusa tentou ainda clarificar a situação junto do executivo lisboeta, mas a única declaração que obteve, de fonte da autarquia, foi que “a decisão foi tomada noutro mandato”, sem mais comentários.
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