Balanço de uma "brincadeira" na Covilhã

Balanço de uma "brincadeira" na Covilhã

 

Lusa/AO   Nacional   30 de Out de 2007, 06:58

Um homem morto e outros quatro na cadeia é o balanço com que os aldeões de uma pequena localidade no sopé da Serra da Estrela vão hoje ter que enfrentar, como resultado daquilo em que insistem chamar de "uma brincadeira".
Segunda-feira à noite, na capela de Borralheira de Orjais, Concelho da Covilhã, já se velava o mais trágico de uma noite de bebedeira colectiva que terminou em tragédia domingo de manhã, com um homem de 42 anos morto.

    A essa hora, um juiz de Instrução do Tribunal da Covilhã determinava a prisão preventiva de três jovens entre os 17 e os 22 anos e um homem de pouco mais de 40, acusados do homicídio do vizinho.

    Na aldeia, nesse momento, a mãe, completamente descontrolada gritava pelo filho já no caixão, aguardando o enterro que se realiza hoje à tarde.

    A escassas centenas de metros da casa mortuária, um dos poucos vestígios da tal "brincadeira" (como o povo designa o comportamento do grupo que culminou na morte de um dos seus conterrâneos): um palmo de corda fina e escura pendurado no cadeado que tranca o expositor de comunicados da Junta de Freguesia, fixado na parede de um café.

    Aquele bocado de baraço aguentou o peso de João José de Almeida Inácio até a polícia o soltar, já morto.

    Na grade da janela do mesmo café, outra corda parecida fixou-lhe uma perna, à altura da mão. O corpo, ensopado em álcool como uma esponja, não resistiu e cedeu. A autópsia não revelou porquê mas a morte acabaria por ser o desfecho. São precisos mais exames.

    A tal "brincadeira" de que povo fala foi a de "crucificar" um dos seus conterrâneos, impedindo-o de se mover e abandonando-o à morte.

    Conta quem viu de manhã, estavam espalhadas pela rua "mais de 20 ou 30 garrafas de Martini", que foram consumidas depois dos dois cafés existentes no local terem fechado e da clientela ir para a rua "bem bebida".

    Testemunhos ouvidos no estabelecimento em frente dizem que a vítima estaria "perdida" de bêbada já por essa altura. Com mais as garrafas que foram bebidas de seguida, contam ainda os mesmos relatores, o homem, asmático, terá aceite a proposta de ser amarrado. Sempre na "brincadeira".

    Mas há quem encare a questão de outra forma. No outro café, que não o que suportou a tragédia, enquanto o balcão está corrido de homens que vão dando goles em minis ou em taças de tinto, entra um cliente que pede um bica e deixa os outros calados.

    "Brincadeiras de merda. Não tinha ainda acontecido por sorte", afirma revoltado, aparentemente consigo próprio.

    Parece falar para outros presentes quando recorda algo semelhante, feito de outra vez a outra figura da terra. "Éramos cinquenta contra um na serra, à noite". Que lhe atiravam figos. Uma espécie de praxe sem incorporação nem matrícula. Um dos presentes vai mais longe e quer repartir o mal pelas aldeias vizinhas.

    Acontece "nesta e nas outras". E mais não revela.

    Olhando pela porta, do outro lado da rua que se atravessa em três passos, no expositor onde o penduraram, já lá estava, segunda-feira à tarde o anúncio do falecimento de João Inácio.

    Crueldades do destino fizeram com que fosse morrer suspenso no expositor onde se anunciam os falecimentos de Borralheira de Orjais.

    "Brincadeira"? O juiz de Instrução deve ter achado que não e mandou quatro dos elementos do grupo aguardar o julgamento na cadeia. Na terra diz-se que há mais culpados mas ninguém aponta o dedo.

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