Agricultura: revolução energética e pobreza

Agricultura: revolução energética e pobreza

 

António Almeida   Regional   28 de Nov de 2008, 22:58

No momento em que o mundo confirma a sua dependência, exponencialmente
crescente, da produção energética, países e regiões do globo debatem
as soluções adequadas à redistribuição da riqueza.
Estima-se que morram por dia 50 mil pessoas. A pobreza extrema (viver com menos de 1 dólar por dia) e a pobreza moderada (viver com entre 1 a 2 dólares por dia) a que estão sujeitas 2,7 biliões de pessoas colocam desafios à escala global que envolvem decisões agrícolas, energéticas e ambientais. O sucesso das economias e do emprego vai depender das decisões estratégicas nestes sectores.
A dependência do uso de combustíveis fósseis e dos equilíbrios político-económicos com os países produtores de petróleo colocaram o mundo e os decisores políticos noutra encruzilhada. A Agricultura volta a estar no centro das atenções, não apenas como um sector produtor de alimentos mas fundamentalmente pela capacidade de produzir biocombustíveis através de produções agrícolas energéticas.
O solo arável, há dois anos atrás, a viver sérios riscos de abandono, incentivado por políticas de set-a-side, de quotas de produção, de grande instabilidade nos preços, e com a redução efectiva do número de explorações agrícolas associada ao êxodo rural, está hoje com valor acrescentado face ao grande desafio energético da actualidade. Entre produzir energia e alimentos, os agricultores serão influenciados pela resposta dos mercados e pelos sistemas de compensação que determinarão a melhor opção para viabilizar a sua actividade e a melhoria do rendimento médio das empresas e das famílias.
Ao tornarem-se mais competitivos os países ricos crescem as desigualdades económicas mas compreendem-se cada vez melhor as dependências mundiais. A actual crise financeira mostra a vulnerabilidade económica no mundo e coloca a globalização como um fenómeno sujeito a interrogações legítimas. Muitos países deixaram de sentir necessidade política de defender a Agricultura e o problema das reservas alimentares de segurança passaram a ser tratados à escala europeia ou mundial. A ideia de comprar a quem produz mais barato tem também um custo. Talvez o de promover o desemprego e contribuir para a redução da produção e da riqueza dos países de menor dimensão.
Por outro lado, o aumento dos consumos alimentares e energéticos na Ásia, resultante do crescimento económico e da melhoria do rendimento médio das famílias, obriga a intensificar a produção agrícola, a explorar solos alternativos para a produção alimentar e, consequentemente, ao aumento na utilização de fertilizantes e à redução, em parte, das preocupações ambientais.
O modelo de desenvolvimento económico sustentável e integrado de uma região ou de um país, tem de ser repensado à luz das necessidades actuais e, tendo em linha de conta as exigências dos consumidores ao nível da qualidade de vida e de bem-estar, poderá caminhar-se para soluções irreconciliáveis.
Com a perspectiva da duplicação da população mundial nos próximos 40 anos e a necessidade estimada em aumentar a produção alimentar em 250%, todas estas preocupações emergentes colocam também em debate a questão relativa à produção de organismos geneticamente modificados (OGM) destinados à alimentação animal e humana. A segurança alimentar é um princípio inabalável, em permanente avaliação pela comunidade científica, mas principalmente reconhecido pelos consumidores como um pilar de garantia da saúde.
Quando a produção de OGM for cientificamente comprovada como uma forma segura e fiável de produção agrícola, garantindo maior produtividade por hectare, melhor qualidade do produto, menor consumo em fertilizantes e agroquímicos e, por via disso, resultar em menores preços, não tardarão as economias a reagir a esta nova solução para alimentar o mundo. Algumas dúvidas que ainda legitimamente subsistem serão esclarecidas nos próximos tempos e o mercado mundial não tardará a harmonizar os critérios de aprovação de OGM. Não será naturalmente justo que os EUA, a Europa e a Ásia adoptem soluções diferentes na produção para depois, ao nível global do consumo, passarem a ser aceites pelos consumidores os produtos finais resultantes da utilização desses OGM.
Como facilmente se depreende, muitos interesses estão ainda por clarificar mas será à escala mundial que algumas decisões virão a ser assumidas.
Preservar os recursos naturais que podem proporcionar a produção de energia e de alimentos, como são os solos, a água e o ar (e o mar), numa perspectiva de sustentabilidade e de manutenção do seu potencial agrário, num cenário de aumento impensável da população mundial e das suas exigências como consumidores, não é tarefa fácil.
Muitas das decisões de carácter económico terão de ser sustentadas por suporte científico, sob pena das consequências serem indesejáveis ou incontroláveis.
A capacidade de lideranças políticas ao nível mundial e o estabelecimento de consensos económicos serão fundamentais para garantir a estabilidade social e o desenvolvimento sustentável, desde que o Homem perceba que não deve ficar refém da sua própria e confusa ambição.

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