Açoriano Oriental
“A ternura é a melhor maneira para tocar o que é frágil em nós e nos outros”, diz D. Armando Esteves Domingues

Bispo de Angra preside pela primeira vez à Festa do Senhor Santo Cristo, desafiando os peregrinos a olhar para as feridas do mundo não como uma abstração mas a partir de pessoas concretas. D. Armando lamentou a aprovação da Lei da Eutanásia: "Oxalá Maria e Jesus nos ensinem o valor da vida, a amá-la e a defendê-la, ou a dar razões aqueles que muito sofrem para desejar viver, uma vida cheia... em Cristo" e desafiou os jovens a participar na renovação da Igreja.

“A ternura é a melhor maneira para tocar o que é frágil em nós e nos outros”, diz D. Armando Esteves Domingues

Autor: Igreja Açores

Bispo de Angra preside pela primeira vez à Festa do Senhor Santo Cristo, desafiando os peregrinos a olhar para as feridas do mundo não como uma abstração mas a partir de pessoas concretas. D. Armando lamentou a aprovação da Lei da Eutanásia: “Oxalá Maria e Jesus nos ensinem o valor da vida, a amá-la e a defendê-la, ou a dar razões aqueles que muito sofrem para desejar viver, uma vida cheia… em Cristo” e desafiou os jovens a participar na renovação da Igreja

A imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres é “o emblema da humanidade humilhada e ofendida” afirmou esta tarde o bispo de Angra no sermão no final da Procissão da Mudança, o momento em que a Imagem do Senhor Santo Cristo é entregue à Irmandade e devolvida ao povo durante pouco mais de 24 horas.

“Não podemos curvar-nos diante do nosso Santo Cristo se não estivermos dispostos a curvar-nos perante as suas feridas abertas e a sangrar nos corpos e espíritos dos nossos irmãos e irmãs de todas as línguas, povos, nações, raças, classes sociais, níveis culturais, opções políticas, orientações sexuais e crenças religiosas” sublinhou o prelado que preside pela primeira vez a esta festa, por ser tradição o bispo de Angra, no inicio do seu episcopado, presidir sempre à maior festa religiosa dos Açores organizada pela Igreja.

“Jesus está em agonia até ao fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos que Ele” disse apelando a que os peregrinos saiam desta festa fortalecidos pelo mesmo amor manifestado por Jesus à viúva de Naim, quando devolveu a vida ao filho.

“Com a sua compaixão apaga o sofrimento da mãe e com o seu poder derrota a morte com a Vida que só Ele é e pode dar” afirmou o prelado.

“O evangelho falava de multidões e hoje faço convosco parte dessa multidão.Ainda mais neste silêncio que se respira tão denso de espiritualidade. Deixai-me partilha a tristeza do Papa esta manhã, quando lamentava que na terra onde Nossa Senhora apareceu se tivesse aprovado a Lei da Eutanásia. Fátima e o Santuário do Senhor Santo Cristo estão muito unidos: na primeira aparição de Nossa Senhora, em maio de 1917 também aqui se realizava esta festa. Hoje poderia ser o dia do abraço da mãe ao filho e o abraço de ambos a todos os que sofrem e que têm dores”, disse o prelado.

“Oxalá Maria e Jesus nos ensinem o valor da vida, a amá-la e a defendê-la, ou a dar razões aqueles que muito sofrem, para desejar viver, uma vida cheia… em Cristo”, apelou.

“Também este grande profeta, Jesus Cristo, vem até ao nosso cortejo. Não precisaremos também nós desta criatividade de Deus e de dar uma reviravolta à vida?”, interpelou.

“O maligno faz-nos olhar com juízo negativo a nossa fragilidade, o Espírito por seu lado traz-lhe luz e ternura que é a melhor maneira para tocar o que é frágil em nós e nos outros” disse, frisando que o “dedo apontado e o juízo que usamos no confronto com os outros muitas vezes são claro sinal da incapacidade de resolver dentro de nós as próprias debilidades”.

O prelado elogiou, por outro lado, a devoção ao Senhor Santo Cristo mas desafiou os peregrinos a olhar igualmente para o outro como “irmão e parte de si”.

“Fala-se frequentemente das feridas sociais, coletivas: a fome, a pobreza, a injustiça, a exploração dos mais fracos – embora nunca o suficiente –, mas corre-se o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas. Pensemos antes nos sofrimentos dos indivíduos, das pessoas com um nome e uma identidade precisos” afirmou o prelado, .

Dirigindo-se particularmente aos jovens, até pelo facto do lema desta festa- “Levanta-te: Eu te ordeno”- retirado do Evangelho de Lucas, estar sintonizado com o da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, que decorrerá de 1 a 6 de agosto- Maria levantou-se e partiu apressadamente-,  o prelado lembrou que levantar-se  significa também “ressuscitar, despertar para a vida”.

“ «Levanta-te» dirigido aos jovens pode querer dizer: «sonha», «arrisca», «esforça-te por mudar o mundo», reacende os teus bons desejos, contempla o céu, as estrelas, o mundo ao teu redor, levanta-te e torna-te aquilo que és” disse D. Armando Esteves Domingues.

“ Precisamos de um olhar jovem e católico sobre a Igreja e o mundo que nos obriguem à renovação de métodos e estilos”, afirmou.

“Precisamos de jovens com um olhar mais evangélico sobre os caminhos do diálogo e da paz; de jovens que tenham a fraternidade universal como bandeira; de jovens que vejam em Cristo um parceiro fiável a quem vale a pena seguir e jovens que nos façam também sentir jovens, capazes de mudança”, disse ainda.

“Todos precisamos de vós, caros jovens”, enfatizou lembrando que é precisa “uma esperança renovada” para o mundo que ponha cobro à guerra.

“Estamos aqui como peregrinos, de coração aberto, sem reservas diante deste amor louco de Deus por nós tão bem espelhado na imagem do Senhor Santo Cristo, um amor de sempre. (…)Jesus viu e cuidou. Jesus vê-nos chegar, rezar e ficar em silêncio a ver, porventura, o filme da própria vida, diante da Dele. Deixemo-nos olhar” interpelou o bispo de Angra, convidando cada peregrino a reconciliar-se nesse olhar.

“Podeis ser expressão daquilo que de bom é capaz o ser humano: ajudar o outro a conquistar a dignidade. Toda a criatura humana é capaz da heroicidade do dom a Cristo presente em cada irmão, como Ele o é para nós”, disse o prelado.

O sermão terminou com uma referência a Madre Teresa da Anunciada e à devoção que tinha por esta imagem “que gastou a vida e não se poupou a esforços para dar força e dignidade à fé dos católicos, centrando-a em Cristo”.

A Procissão da Mudança começou com o toque do Provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres na `porta regral´ do Convento da Esperança, na qual recebeu a Imagem das mãos das irmãs zeladoras, comunidade contemplativa das Irmãs do Bom Pastor. Até amanhã,  ao final da Procissão Solene, a Imagem ficará à guarda da Irmandade. Depois do sermão e do Te Deum, interpretado pelo Coral de Santa Catarina, do Faial, regido pelo maestro Padre Marco Luciano Carvalho, a Imagem seguirá para São José onde ficará para a Vigilia até amanhã de manhã. À meia-noite, o bispo de Angra presidirá a uma Missa com os jovens da ilha de São Miguel e amanhã voltará a presidir à Missa campal, no Campo de São Francisco, com transmissão em direto na RTP Açores e RTP Internacional.


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