"UV" de André Laranjinha na Galeria Arco 8

"UV" de André Laranjinha na Galeria Arco 8

 

Tânia Silva   Cultura e Social   15 de Ago de 2008, 11:34

Desde a câmara obscura ao vídeo André Laranjinha expõe vários mecanismos de produção de imagens que questionam a veracidade de tudo aquilo que visualiza em torno da sua real aparência ou da sua habitual artificialidade
Procurar e questionar a veracidade da imagem de tudo aquilo que visualiza, em torno da sua real aparência ou da sua (quase) habitual artificialidade é um dos objectivos do artista André Laranjinha com a exposição “UV”.
A mostra foi inaugurada no passado dia 25 de Julho e estará patente na Galeria Arco 8, em Ponta Delgada, até 30 de Agosto.
Na exposição “UV” o artista mostra uma série de mecanismos de produção de imagem que são produzidos de forma simples e com materiais pobres. Entre eles, está uma câmera obscura, uns binóculos, uma projecção de vídeo, uma projecção da luz de um telemóvel e uma televisão com a imagem de um olho, que faz referência ao temas abordados na exposição, nomeadamente a visão, a imagem e a luz.
Segundo o artista as ideias para esta mostra começaram com experiências. “Fiz pequenas experiências com câmeras de vídeo em casa e com outros matérias”, realça o André Laranjinha.
Ademais, esclarece que o facto de ser pintor e de expor há já algum tempo, faz com que se preocupe muito com a imagem e, por isso, surgiu a ideia de fazer uma exposição deste género.
Para além disso, o artista diz que a iniciativa partiu também da magia das primeiras projecções e “do fascinio de ver que, com umas lentes básicas, com copos e com instrumentos desse género consegue-se fazer imagens e tem um efeito mágico, embora seja uma coisa muito simples”, afirma. Acrescentando que se pode “assemelhar um pouco à Alegoria da Caverna, de Platão, pois também é uma projecção, entendia como mágica”.
A artista André Laranjinha nasceu a 9 de Novembro de 1977 em Lisboa e está a viver na ilha de São Miguel há dois anos, sendo esta a primeira vez que expõe os seus trabalhos na Região.
É formado em Artes Plásticas/Pintura, pela Faculdade de Belas Artes em Lisboa.
Para além da pintura, ocupa os seus dias a leccionar Desenho na Academia das Artes, em Ponta Delgada, e a trabalhar noutras áreas, nomeadamente na criação vídeos comerciais, de publicidade, ilustrações infantis e design gráfico.
André Laranjinha já fez várias exposições colectivas e individuais de Pintura. Individualmente já expos “13:SETE”, na galeria SETE, Coimbra (2005); “Pinturas para um Estado Novo” (2004), na galeria Castelo 66, Lagos; “4 Imagens”, na galeria Arte Periférica no Centro Cultural de Belém, e mais recentemente “Island II” e a “Island”, ambas em Lisboa, entre outras.

“A imagem é uma mentira, pois é uma coisa que não é real, mas algo que é manipulado”

Na exposição “UV” questiona a veracidade da imagem. De que forma o faz?
André Laranjinha - Isto é uma conclusão que acabei por tirar, depois das experiências que eu fiz.
Questiono a veracidade da imagem já há algum tempo, porque trabalho em pintura desde o ano 2000 e sempre a questionei, até porque fiz trabalhos hiper realistas e é sempre uma mentira, porque é uma pintura, uma superfície artificial.
Portanto, é um mecanismo para transmitir uma realidade e não é a realidade em si, mas uma representação. Para mim a imagem é isso, ou seja, quando vejo um filme não estou a ver a realidade, mas a representação de uma imagem abstracta que entendemos como sendo real. Acho que as experiências, patentes na exposição, traduzem isso de uma forma muito depurada.
Por exemplo, a Câmera Obscura que construí para a exposição é um bom exemplo, porque mostrava uma imagem diferente daquilo que se estava a passar na realidade.
Fale-me um pouco desse mecanismo de produção de imagem e o que pretendeu com a sua concepção?
Na construção deste instrumentos, fiz um buraco entre a sala de exposição e uma sala de arrumos. Na sala de arrumos estava a acontecer uma performance do pintor, Rui Tiago, mas a projecção para aquela sala mostrava uma imagem invertida, mas com uma definição muito boa, mesmo não havendo meios digitais.
Por isso, as pessoas ficaram intrigadas e acharam estranho a imagem, pensando mesmo que se tratasse de um vídeo que estava ali a ser projectado.
No entanto, depois constatavam que estava a acontecer aquilo no outro lado da parede e a imagem era bastante diferente da realidade.
Para além disso, este mecanismo de produção da imagem acaba por citar um pouco da história da pintura, uma vez que a Câmera Obscura era usada por artistas desde o século XV, como um auxílio para os esboços nas pinturas. Daí, também, a presença do artista a pintar lá dentro.
Para além da Câmera Obscura, utilizou outros mecanismos de produção de imagens. Fale-me um pouco deles e dos materiais utilizados.
Os mecanismos de produção de imagem presentes na exposição são uns binóculos; uma projecção de vídeo - que acaba por ser uma espécie de pintura por se tratar de uma imagem muito estática; uma projecção da luz de um telemóvel; a Caixa Escura; uma televisão com a imagem de um olho - que não se trata de uma peça que questiona a imagem, mas serve para fazer referência aos temas que ali estão a ser tratados, a visão, a imagem e a luz.
Para além disso, existe também três caixinhas pequenas, que são uma espécie de maquetes, em que se pode ver de forma diferente, porque no seu interior possuem uns espelhos, fazendo com que, ao olharmos para dentro delas, tenhamos um ângulo de visão a 45 graus.
No que diz respeito à formalização e concepção das peças para a exposição, preocupei-me, essencialmente, em usar materiais pobres, de forma a não causar nenhum impacto de distância para as pessoas e, desta forma, se sentirem mais à vontade para tocar e agarrar, sem o medo de estragar, porque o que se pretende com a criação desses objectos é que eles funcionem em termos técnicos.
O facto de ter escolhido materiais pobres para a exposição fez com que se criasse uma relação interessante, interactiva e desinibida das pessoas perante a exposição.
A exposição só “resulta” à noite. Porquê?
A exposição funciona muito bem às escuras, devido às projecções presentes na exposição. Por isso só pode ser vista à noite.
Enquanto um artista que trabalha com a imagem. Com a define?
A imagem está em excesso desde há cinquenta anos. No entanto, hoje em dia, com a era digital, está cada vez mais.
Actualmente, todas as pessoas são fotógrafos e toda a gente faz filmes, mas nem todos questionam as origens da imagem. Não questionam o que vêm na televisão e acreditam, porque não há tempo para não acreditar. Mas eu não acredito. Até porque enquanto artista tenho de questionar esse excesso de imagens que existem.
Por isso, para mim a imagem é uma mentira, é uma coisa que não é real, pois é a manipulada.
É com base nesse pressuposto que eu tenho vindo a trabalhar sempre.
Os objectos que cria e os quadros que pinta são pensados previamente ou são fruto da intuição?
Os objectos que eu crio são sempre coisas da intuição, não é premeditado, mas sim algo que resulta de experiências, como são exemplos os mecanismos de produção de imagem existentes na exposição “UV”

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