Açoriano Oriental
Europeias2024
“Sou defensor de uma Europa das Nações que não perca a sua identidade”

José Pacheco, candidato do Chega pelos Açores nas eleições para o Parlamento Europeu do dia 9 de junho admite que o objetivo do partido é ganhar as eleições e alerta para a necessidade de inverter a “subsidiodependência” dos Açores em relação à Europa


Autor: Arthur Melo/Carolina Moreira

Presidente e deputado do Chega na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, José Pacheco, de 53 anos, ocupa o lugar número sete da lista nacional do Chega às eleições europeias de 2024 .

Esta é a primeira vez que o Chega apresenta uma candidatura ao Parlamento Europeu. Qual é o objetivo do partido para o ato eleitoral do próximo dia 9 de junho?

O objetivo, obviamente, é ganharmos as eleições europeias. Tem sido esta a fasquia que André Ventura tem colocado para estas eleições e acho que é possível. As sondagens indicam isso mesmo.

Sendo o sétimo candidato da lista nacional, acredita que pode ser eleito para o Parlamento Europeu?

Espero que sim. Espero que cheguemos ao sétimo [candidato eleito]. Para isso, temos que vencer as eleições europeias e assim seja.

André Ventura, na apresentação do programa do Chega, mostrou-se bastante convicto de que esta eleição poderá servir de barómetro a outras que possam vir a acontecer. É possível uma surpresa no dia 9 de junho, ou seja, o Chega vencer as eleições para o Parlamento Europeu em Portugal?

Sim, porque a política tem mudado. Obviamente que há muito mérito de André Ventura, mas também há aqui um cenário que é um cansaço de 50 anos desta suposta democracia, em que as pessoas se foram cansando de promessas vãs e de algum abandono por parte dos políticos.

Com alguma amargura, vejo muitas vezes os políticos muito mais preocupados em encontrar um racista em cada esquina, um fascista em cada esquina ou hastear a bandeira LGBT do que propriamente resolver a vida das pessoas. E quando tenho idosos a viver com 300 euros, não estou preocupado com bandeiras nem a andar aqui a adjetivar o que as pessoas são ou deviam ser, ou supostamente são.

Acho que temos de caminhar, temos de fazer esta mudança e as pessoas começam a compreender. Quando entrei para o Chega, era bastante difícil ser do Chega. Digo a brincar que tinha amigos que atravessavam a rua para não conversarem comigo, para não me cumprimentar, que sentiam algum pudor, vergonha. Felizmente, são as mesmas pessoas que vêm ter comigo e vêm-me dar os parabéns pelo trabalho que vamos desenvolvendo e as coisas que vamos dizendo. Ou seja, a política mudou. Eu quero acreditar que estamos a contribuir para aproximar a política das pessoas. Não podemos é afastar os políticos das pessoas, fechá-los em gabinetes, com soluções supostamente miraculosas para resolver a vida das pessoas e que não resolvem. Há que estar na rua, há que estar com as pessoas, há que ir aos cafés, aos restaurantes, às igrejas, às coroações, às procissões, onde as pessoas estão. E temos de perceber o que as pessoas querem.

Nos Açores, temos grandes dificuldades ao nível europeu, porque continuamos a ser o pedinte à porta da Igreja, que aceita todas as migalhas que caem da mesa, que aceita que façam pouco de nós, porque é o que a Europa tem feito, e vamos aos poucos até perdendo a nossa identidade.

Eu sou e sempre fui um convicto defensor de uma Europa, mas uma Europa das Nações. Acredito no projeto europeu...

... O Chega assume-se como um partido europeísta.

Certo, mas não com este sistema que nós temos, em que temos aqui uns países ricos que atiram umas migalhas aos países pobres. Se assim não fosse, com tantos milhões que já vieram para os Açores a nível de formação profissional e outras áreas sociais, como é que podemos continuar na cauda da Europa como a região mais pobre de Portugal? Algo não funcionou e nós temos de começar a perceber o que é que não funcionou. Até era um desafio bastante interessante que se fizesse um levantamento dos muitos milhões que foram investidos nos Açores e as suas consequências. Com certeza que vamos encontrar muitas coisas em que há boas consequências, mas grande parte deste dinheiro o gato comeu. Não trouxe melhoria à vida dos açorianos, além de que a Europa não dá nada que não peça algo em troca.

“A Europa precisa de uma limpeza”. É este o título do programa eleitoral do Chega. Quais são as principais medidas que o partido defende para uma Europa mais limpa?

Essas agendas do politicamente correto, das modinhas que andam para aí e que em nada mudam ou melhoram a vida das pessoas. A única coisa que fazem é mudar a trajetória social desta sociedade, desta humanidade e só nos trazem prejuízo.

O pacto ambiental que a Europa nos anda a impor e que condiciona a nossa agricultura está errado. Estas coisas não são pensadas, são impostas. E nós comemos a troco de alguns milhões.

As agendas climáticas são o maior veneno que há aí, isso foi uma moda que pegou.

O setor primário será o dossier prioritário do Chega no Parlamento Europeu. Curiosamente, a agricultura e as pescas são as atividades económicas mais importantes na Região. Que propostas tem o Chega para estes setores?

Ao nível do POSEI, nós precisamos de um reforço que seja pensado e refletido com os profissionais das áreas, quer seja a agricultura, quer seja a pesca. Tenho reunido com os dois setores por várias vezes. Penso que a lavoura, a agricultura, está um pouco melhor do que as pescas. As pescas estão completamente abandonadas.

Criou-se uma cultura da subsidiodependência, em que qualquer coisa é um subsídio. Não vejo soluções, vejo subsídios. Querem fibrar os cascos dos barcos, lá vai mais um subsídio. Querem motores mais eficientes , e sim amigos do ambiente. Eu também sou ambientalista, não sou é parvo! O ambiente deve ser preservado com os seres humanos incluídos. Daqui a dias, temos as formigas, os carrapatos e as pulgas, não temos é os seres humanos.

Os pescadores também querem dar esse contributo, querem contribuir para a melhoria das reservas ecológicas. Mas ninguém fala com eles. Impõe-se. Atira-se um milhão, vai mais um subsídio.

Os Açores vivem de subsídios. Nós temos de inverter isso. Temos que produzir com uma dimensão que nós temos - atlântica - com uma riqueza que nós temos - atlântica - que os outros é que estão a apanhar o peixe, e nós andamos aqui de mão estendida e com o cotovelo no balcão da taberna. Isto é completamente errado e tem que ser invertido!
Nós temos que ter pescadores que ganhem o seu ordenado, bem, como já alguns lavradores foram conseguindo e, só depois, é que podemos falar dos apoios. Os subsídios dão menos trabalho, cansam menos as costas.

Na lavoura, também temos problemas: a importação de certos produtos para os animais, o velho problema do preço do leite que está a desvalorizar os nossos produtos e falta a mais-valia dos nossos produtos, quer seja o nosso pescado, quer sejam os produtos lácteos e hortícolas.

Temos que valorizar o que temos e o que dá e o que é diferenciador: exemplos da meloa de Santa Maria e da Graciosa e do nosso ananás. Tenho visto alguma aposta na floricultura, algo que penso que temos clima e um bom solo para isso e podemos muito bem fazer este tipo de investimento. Mas o que tem funcionado é que a Europa é que nos diz o que temos de cultivar e o que não podemos cultivar. Toda a gente se lembra do queijo de cabra em folha de conteira que foi proibido.

Mas a Europa das Nações é aquela em que nós não perdemos identidade. Eu sou da geração Coca-Cola, mas gostava que os meus filhos fossem da geração Laranjada. Ou seja, uma geração que preza dos seus costumes, a sua terra e que valoriza, em primeiro lugar, o que é nosso e o que é possível ser nosso.

Que outras bandeiras vai erguer em Estrasburgo em defesa dos Açores?

Em primeiro lugar, vou defender em português porque não nos devemos ajoelhar. Esta coisa de ir para lá armado em turista e falar em inglês não é para mim, até porque falo muito mal inglês.

Tudo o que esteja relacionado com os Açores, de forma transversal, quero levar para lá.

Penso que as questões da imigração têm de começar a ser atacadas já. As questões culturais também e os fundos. Porque esta coisa da Europa tornou-se algo gigantesco e difícil de decifrar. Eu tenho dificuldade em decifrar que tipos de apoios há.

A invasão da Rússia na Ucrânia e o conflito bélico entre Israel e o Hamas, na Palestina, provocaram uma espécie de corrida ao armamento à escala mundial. Na Europa já se fala na constituição de um exército europeu. Qual a posição do Chega sobre esta matéria?

Quem não põe um ferrolho na sua porta, o mais certo é ser roubado. E isto é o que está a acontecer à Europa que nunca investiu - e isto está nosso programa - 2% de investimento na defesa.

Depois, Portugal tem problemas acrescidos. Temos uma área marítima muito extensa, com poucos meios navais. Não defendo que devemos ter navios de guerra pela guerra, mas devemos ter navios de guerra pela defesa e pela vigilância da nossa área. A nossa Zona Económica Exclusiva está a ser roubada por outros países.

Na ótica do Chega, os fundos comunitários têm sido bem aplicados nos Açores?

É questão de perguntar na rua se as pessoas acham que o PRR está a ser bem aplicado. Não chega aos bolsos das pessoas. O PRR foi desenhado pelos socialistas, essa corjazinha de malfeitores, em que grande parte desses fundos vão para o Estado. Não é o Estado que gera riqueza. O que gera riqueza são os privados, são as empresas, as famílias que trabalham. O Estado apenas devia ter um papel de fiscalizador e de gestão, mas começa a ter um papel de manipulador da economia e esse dinheiro não tem sido bem aplicado.

Mas temos de ser honestos. Muitos fundos europeus foram fundamentais para os Açores, no desenvolvimento de muitas áreas, de muitas infraestruturas. No entanto, temos um cancro enorme no currículo que foi o Fundo Social Europeu, em que houve muitas falcatruas, de largos milhões mal aplicados supostamente na formação. Se tivessem sido bem aplicados, nós hoje seríamos profissionalmente muito mais evoluídos.

Também temos um problema enorme com a burocracia. Para tudo precisamos de uma centena de papéis, quatro assinaturas, o boletim de vacinas e o número do sapato. Temos de simplificar.

Quais as áreas em que a União Europeia devia prestar uma atenção mais cuidada em relação aos Açores?

Devíamos ter uma plataforma comercial, um hub, na Praia da Vitória. A União Europeia trava-nos também esse desenvolvimento a nível de taxas alfandegárias, mas isto poderia não só beneficiar os Açores, como toda a Europa.

Em 2019, os Açores conseguiram eleger um deputado ao Parlamento Europeu, perdendo-o pouco depois devido ao seu precoce falecimento. É possível quantificar as perdas que a Região sofreu nos últimos cinco anos com esta situação?

Não, não é possível. Temos lá um gabinete, mas o ideal é termos lá alguém. Ter uma voz no Parlamento Europeu passa por ter uma mudança constitucional, em que nós possamos ter um círculo eleitoral para os Açores e para a Madeira.

Que mensagem gostaria de deixar aos eleitores açorianos para, por um lado, combater a enorme abstenção verificada nas eleições de 2019 (81,29%) e, por outro, para que votem Chega no próximo dia 9 de junho?

Se nós não votamos, depois não podemos reclamar. Não podemos passar cheques em branco. Temos de votar se queremos uma Europa interventiva positivamente nos Açores. Caso contrário, os senhores que estão de cartola na Europa, os donos disto tudo, não vão querer saber dos Açores. Eu prometo que vou para lá falar na minha Língua materna.





PUB
Regional Ver Mais
Cultura & Social Ver Mais
Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados