Rede Anti-Pobreza Portugal reclama mais envolvimento do Estado para combater fenómeno


 

Lusa/AO Online   Nacional   8 de Out de 2019, 11:40

A Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal quer envolver o Parlamento e as câmaras municipais na luta contra o fenómeno, seguindo um estudo de duas universidades que defendem apoio especializado para quem empobreceu na sequência de episódio traumático.

Em entrevista à Lusa, o presidente da Rede, Jardim Moreira, falou da que vai ser a nova etapa da luta daquela instituição e que consta do programa de atividades da iniciativa “Pelo combate à pobreza e à exclusão social”, que decorrerá no distrito do Porto entre 17 e 24 de outubro, promovido pelo Núcleo do Porto da EAPN (sigla em inglês da rede) Portugal.

O estudo das universidades de Harvard, nos Estados Unidos, e de Utrecht, na Holanda, defende que as pessoas que empobreceram em resultado de situações traumáticas só com ajuda especializada ultrapassarão essa condição social, disse o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal.

Ambas as universidades estudaram “o impacto das situações de carência forte e de problemas semelhantes no ser humano”, tendo concluído haver “danos múltiplos a nível cerebral”, explicou o responsável.

E prosseguiu: “verificaram através da neurociência que o impacto é profundo na parte frontal do cérebro humano, onde se geram as decisões, sendo que quem é confrontado com um problema desses deixa de ter essa capacidade e que na parte occipital, que é a zona dos afetos, sentimentos e autoestima, também baixa substancialmente essa capacidade”.

Perante esta situação, acrescentou o presidente da EAPN Portugal, defendem “as neurociências que, acima de tudo, é necessário desbloquear a pessoa, ao nível do cérebro, sistema nervoso e emocional, para que recupere a autoestima e seja capaz de sair, apoiada, da situação em que se encontra”.

Afirmando-se contra “as políticas apenas existencialistas”, que acusou de “despejar dinheiro para o problema” sem levar “a nenhuma solução”, Jardim Moreira tem definidos os parceiros para avançar no terreno com o projeto que resultou do estudo académico.

“Temos de intervir a nível macro, junto dos partidos e na Assembleia da República, mas também nas comunidades intermunicipais e nas câmaras”, relatou o responsável dos próximos passos.

Enfatizando que, no decurso dos 27 anos da presença da rede em Portugal, tem “tentado compreender o fenómeno da pobreza na sua essência”, dessa análise, disse o responsável, resultaram duas conclusões.

“Em primeiro, que a pobreza não tem reduzido em termos percentuais, apesar das múltiplas políticas públicas, normalmente quase assistenciais”, disse Jardim Moreira, citando um outro estudo, apresentado em Lisboa, que conclui “que a pobreza perdura ao longo de cinco gerações”.

E acrescentou: “em segundo lugar, sobre o dinheiro que está a ser gasto por ano no Rendimento Mínimo Social, 333 milhões de euros, o efeito não é de transformação, mas de manutenção, porque as pessoas não saem dessa situação”.

Das reuniões que tem com técnicos das câmaras para tratar das questões da pobreza, disse ter recebido “queixas” de que esse trabalho não se repercute nos resultados, considerando que para tal contribuem “as políticas que vêm do 25 de abril, que mantêm sempre perto de dois milhões de portugueses, conforme a época económica que se vive, na pobreza”.

Na conversa com a Lusa, o presidente da EAPN Portugal revelou que “começa a ser reivindicada a felicidade como um direito humano e a verdade é que a pobreza é um impedimento para a pessoa viver a sua felicidade”.

E acrescentou: “a Universidade dos Açores, está a preparar-se para apresentar uma proposta às Nações Unidas para que se inclua nos Direitos Humanos o da felicidade”.


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