Mota Amaral nunca temeu ou desejou que EUA alienassem os Açores

O antigo presidente do governo açoriano Mota Amaral diz que nunca temeu nem desejou que os Estados Unidos da América se apoderassem da região para salvaguardar as Lajes, face à iminente deriva marxista no país em 1975



“Nunca temi nem desejei uma coisa dessas”, afirma João Mota Amaral à agência Lusa, a propósito dos 50 anos da autonomia, admitindo que, “da parte americana, existia e existe um interesse nos Açores”.

No sábado, 27 de junho, assinala-se meio século sobre as primeiras eleições legislativas regionais, realizadas em 1976, tal como na Madeira.

Para o também antigo presidente da Assembleia da República (2002 - 2005), o interesse americano era na perspetiva de que os Açores fossem “uma região estável, onde as coisas funcionassem e, se possível, se desenvolvessem”.

Os Estados Unidos da América (EUA) estavam dispostos a apoiar a independência dos Açores em 1975 se Portugal derivasse para o comunismo, segundo especialistas em geopolítica e historiadores, bem como documentos secretos desclassificados por Washington.

De acordo com documentos secretos norte-americanos que foram entretanto divulgados publicamente, Washington - que deu indicações aos seus militares para defenderem a Base das Lajes a tiro, se necessário - tinha vários cenários previstos para os Açores para salvaguardar os seus interesses geopolíticos.

Mota Amaral faz notar que “quando arrancou a autonomia, na primeira sessão preparatória da Assembleia Regional, esteve na região o embaixador dos EUA em Lisboa [Frank Carlucci]”, a seu convite, o que “foi muito contestado pelos responsáveis nacionais”.

“Era indispensável que os EUA dessem uma palavra de apoio às novas instituições [democráticas dos Açores], que concretizaram através de ajuda financeira ao nosso desenvolvimento. Durante muitos anos, recebemos da parte americana uma ajuda financeira indispensável”, afirmou.

Apesar de suspeições de Lisboa sobre uma eventual “diplomacia paralela” com os EUA, diz o social-democrata, as suas relações com o país “sempre foram feitas à luz do dia e conhecidas pelos responsáveis nacionais”, no âmbito do que se designava como o ‘lobby’ açoriano em Washington.

Este ‘lobby’ envolvia políticos norte-americanos de origem açoriana com assento no Congresso e Senado federais, e também a nível estadual, de forma predominante em Massachusetts, Califórnia e Rhode Island, a par de elementos do clã Kennedy, como Patrick Kennedy, sobrinho do antigo Presidente dos EUA.

O primeiro líder do Governo Regional (1976 - 1995) considera que “seria vantajoso" reeditar o ‘lobby’ açoriano nos EUA, apesar de presentemente se estar a "procurar fazer uma nova definição geoestratégica mundial”, o que “torna extremamente difícil o diálogo, na medida em que está do lado de lá uma parte que não dialoga”.

“Isso não vai durar sempre, e espero que seja possível noutra altura e noutras circunstâncias estabelecer esse diálogo e retirar daí resultados para os Açores positivos”, afirma.

Neste momento, estima-se que nos EUA habitem 1,5 milhões de pessoas de origem açoriana, preconizando Mota Amaral a manutenção das relações bilaterais “no pressuposto de que as circunstâncias vão mudar e não vai prevalecer esse ambiente de loucura que se está a viver neste momento”.

Mota Amaral vê com naturalidade a utilização da Base das Lajes para apoiar o conflito no Médio Oriente: isso mesmo "viram também as pessoas com a obrigação de se pronunciarem sobre esta matéria”, que são “os responsáveis regionais e nacionais atuais”.

Em Ponta Delgada, fica localizado o consulado mais antigo dos EUA, fundado em 1795, além de ser nos Açores, na ilha Terceira, que fica localizada a Base das Lajes, posto militar avançado dos EUA no Atlântico.

Portugal e Estados Unidos possuem um acordo bilateral de defesa e cooperação, revisto pela última vez em 1995.


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