O julgamento do processo Nortada prosseguiu com o sexto capítulo da acusação, dedicado às ligações entre Alexandre Gaudêncio, ex-autarca da Ribeira Grande, o empresário Paulo Silva e as suas empresas e Miguel Fernandes, da Soundsgood, tendo este último arguido decidido não falar.
Ligações que datam de 2013, na primeira vez que Gaudêncio se candidatou à Câmara Municipal, e têm o seu expoente no polémico concerto de MCKevinho, em abril de 2019 e que levantam a questão de uma alegada trocas de favor entre ambos, com o empresário a servir de banco ao candidato e depois presidente, tendo em vista ser ressarcido com a organização de eventos promovidos pelo município.
À acusação de que Paulo Silva alegadamente pagava despesas da sua campanha à autarquia da Ribeira Grande, Alexandre Gaudêncio afirmou que “nunca aconteceu” e que todas as despesas da campanha de 2013 foram pagas pelo PSD. Ao facto de haver emails enviados da sua conta pessoal para Paulo Silva, com indicações de pagamentos a efetuar, o antigo edil justificou como sendo para pagar figurantes de uma ação de campanha.
A edição da Aldeia de Natal de 2013 também deixou dúvidas ao coletivo de juízes: já como autarca eleito, Gaudêncio terá tentado que a Ponte Norte pagasse as despesas do evento, tendo esta associação recusado. Novamente, surge um email de Gaudêncio para Paulo Silva para que este transferisse dinheiro.
“Em 2013, a câmara estava com restrições orçamentais, regras apertadas de contratação e despesa. Queríamos dinamizar o concelho com artistas locais e o Paulo Silva podia ajudar-nos a pagar os eventos”, afirmou. O que levou o presidente do coletivo de juízes, José Vicente, a afirmar: “O município não podia fazer despesa mas quis e fez essa despesa. Arranjou um ‘banco’ para pagar essa despesa”.
“Banco” e “IPSS” foram algumas das alcunhas dadas pelos juízes à Fábrica de Espetáculo, que chegou a transferir dinheiro para pagar a propina a uma pessoa, o que levou os juízes a questionar Gaudêncio se a Câmara Municipal não tinha Ação Social (ouvido à posterior, Paulo Silva diz só ter tido conhecimento do fim a que se destinou essa transferência com a acusação do Ministério Público).
Revelando desconhecimento de alguns factos, Gaudêncio foi confrontado com o concerto do brasileiro MC Kevinho, por 123 mil euros, o que levou o juiz José Vicente a afirmar que “por este valor, o artista deve poder atuar no espetáculo de intervalo da final do futebol americano”.
O ex-autarca explicou que foi Paulo Silva quem lhe apresentou a proposta e que entendeu ser uma boa oportunidade para promover a Ribeira Grande, por se tratar de um artista que arrastava multidões. No entanto, era a Soundsgood que detinha o exclusivo do artista e foi com esta empresa que a autarquia acabou por protocolar a vinda do artista.
Além dos 123 mil euros pagos (onde estava incluído os 69 mil euros de cachet do artista), a empresa privada ficou com a receita de bilheteira, tendo o juiz Renato Grazina interpelado o que ganhou a câmara com o espetáculo.
“Não houve retorno económico, mas houve retorno mediático”, respondeu Gaudêncio, acrescentando que “reconheço que foi um mau negócio mas ganhamos notoriedade”.
Da parte do Ministério Público, o procurador confrontou Alexandre Gaudêncio com a transcrição de uma conversa telefónica entre o ex-autarca e Miguel Gonçalves, da Soundsgood, onde, após a notícia do Açoriano Oriental a expor o custo do concerto de MC Kevinho, em que o empresário expressava preocupação na eventualidade de uma auditoria ou investigação às contas do espetáculo.
Foi ainda revelado um email de Miguel Gonçalves a questionar o porquê do aluguer do pavilhão da Associação Agrícola de São Miguel (onde se realizou o concerto do artista brasileiro) ter passado de 10 mil euros para 35 mil euros.
Seguiu-se, da parte da tarde, a audição de Paulo Silva, com o empresário imediatamente questionado do porquê de efetuar pagamentos a pedido de Alexandre Gaudêncio.
“Tem uma empresa vocacionada para o lucro: o que ganhava com os adiantamentos, que não tinham esteira legal? Disponibilizar-se a pagar despesas que não eram suas, era com o intuito de vir a ganhar convites ou concursos?”, disse o juiz José Vicente.
“Nunca. Houve vários eventos que não ganhei”, retorquiu o empresário.
Mas o coletivo não estava convencido, com o juiz Renato Grazina a afirmar “Recebia emails para pagar a X e a Y, para coisas que nem sabia. O senhor fazia isso com o objetivo de ser convidado”.
Sobre o concerto de MCKevinho, Paulo Silva revelou que fez a produção local, tendo recebido cerca de 10 mil euros por isso, pagos pela Soundsgood. Contudo, negou que tenha sido uma forma de ser ressarcido de verbas adiantadas anteriormente à autarquia.
O julgamento prosseguirá na próxima semana, com Paulo Silva a continuar a ser ouvido em tribunal.
