“Quanto mais completa for uma arte, mais estou a completar as outras ao mesmo tempo”

Filipa Gomes. Violinista, professora, criadora, intérprete, amante da poesia e da natureza, a jovem artista encontrou em São Miguel não apenas oportunidades profissionais, mas também um ambiente artístico que lhe permite concretizar os seus projetos e fazê-lo chegar a um público de todas as idades




Natural da aldeia de Cepões, no concelho de Ponte de Lima, Filipa Gomes encontrou nos Açores, o local ideal para desenvolver os seus projetos artísticos que cruza música, poesia, teatro, literatura e natureza. As memórias da sua infância são “bastante coloridas”, começa-nos por dizer, recordando que fazia “o percurso a pé, da escola para casa. Tinha um amigo que, às vezes, até dizia ‘vamos por um atalho’, mas o atalho nunca era um atalho, porque levávamos muito mais tempo do que era suposto. A verdade é que havia o contacto com a natureza, íamos pelos bosques”. 

A ligação aos livros chegou cedo. Os pais, além de cultivarem a terra, tinham uma loja de roupa localizada em frente a uma biblioteca. “Acho que isso, de certa maneira, potenciou este contacto com os livros, com a leitura, e mais tarde com a poesia, em específico”. Por volta do quinto ano, começou a tocar violino. Conta-nos que o pai ofereceu-lhe um piano e “fiquei super chateada, porque não queria um piano... Se fosse tocar algum instrumento na vida seria o violino... não sei bem de onde é que criei esta ideia, porque tendo esta vida mais de aldeia, não há muito contacto com a música - agora já começa a haver (...)”. A música acabaria por contagiar a família. O avô tocava bandolim, “infelizmente ainda não aprendi a tocar, mas gostava imenso. Ele adorava ouvir-me tocar violino. Entretanto, quando comecei a tocar violino, o meu pai começou a aprender concertina”. Para Filipa Gomes esta é uma das maiores riquezas da arte, “a capacidade de inspirar outras pessoas a descobrirem a sua própria voz. Acho que isso é muito bonito”.

Concluiu a licenciatura em Performance na Universidade de Aveiro e o mestrado em Ensino de Violino. O final deste último coincidiu com o início da pandemia, e isso “trouxe uma série de dificuldades, a tese acabou ficar mais atrasada, tive que voltar a implementar o meu projeto. Mas, por um lado foi bom, porque foi o que me trouxe cá”. Surgiu a oportunidade de vir dar aulas para o Conservatório Regional de Ponta Delgada durante três meses. Contudo, “quando voltei ao continente, fiquei sempre com a sensação de que tinha de regressar”, recorda. 

Quando disse aos pais que iria regressar aos Açores, “eles ficaram um pouco apreensivos, porque a primeira vez que vim, penso que eles achavam que não ia durar muito tempo. Quando regressei, eles já ficaram  mais reticentes, no sentido de que não vou a casa tantas vezes”, mas depois os pais ficaram mais tranquilos quando perceberam que não estava cá sozinha. Estar longe da família, do lugar onde se nasceu, acaba por ser “mais desafiante, no sentido em que, como a minha infância foi boa e como gosto muito do lugar onde cresci, às vezes há uma dualidade entre perceber como é que posso, de alguma maneira, deixar que estas duas partes de mim se complementem”, disse, para acrescentar que “às vezes, é um pouco difícil pensar em tudo o que se deixou, mas também é uma escolha (…). Não significa que não se volte atrás ou que não se possa tomar outro tipo de decisões. Simplesmente, agora são estas as cartas que tenho e é com isso que vou trabalhar”.

Foi em São Miguel que encontrou não apenas oportunidades profissionais, mas também um ambiente artístico que considera estimulante, ou seja, “percebi que era um lugar pequeno, mas ao mesmo tempo há muita coisa a acontecer culturalmente. Há muitas ideias fora da caixa e um pensamento bastante divergente. Acho que isso é uma mais-valia para o tipo de trabalho que quero fazer”. E os projetos foram surgindo, “comecei a colaborar com a Sinfonietta de Ponta Delgada, surgiu uma parceria com o Luís Senra, na altura ganhámos uma proposta do ‘Mão em Mão’, no âmbito do Azores 2027, em parceria com a CRESAÇOR, com o projeto ‘Natureza Reconetiva’, que pretendia ligar pessoas, natureza e arte. Entretanto, surgiu o convite por parte da Quadrivium para trabalhar com eles”. (…) No final do ano passado tomou a decisão de ser artista independente, “um trabalho mais focado em procurar e explorar o que é que quero que seja o meu caminho, também perceber como – porque sou uma pessoa que tem muitos interesses, não só musicais, mas também de literatura - posso juntar tudo isto, e ganhei um fascínio imenso por arte para a infância. Isto é algo que também estou a explorar este ano”, afirmou, para acrescentar que “este ano está a ser um multicaminhos, estão a acontecer muitas coisas e muitas coisas diferentes umas das outras”. Nesse sentido, através do apoio PARES, promovido pela Anda & Fala, criou o espetáculo músico-teatral “Das Profundezas da Terra dos Sonhos”, destinado a crianças entre os três e os seis anos. Explica que “a ideia é utilizar literatura infantil açoriana para construir a história e apresentar o espetáculo nas escolas (...)”. 

Outro dos projetos em desenvolvimento é “Toca TuQui”, integrado na Floresta Cultural. Neste espetáculo, concebido especificamente para um espaço florestal, o próprio ambiente natural faz parte da narrativa, sendo que a novidade é que “foi feito especialmente para aquele lugar. Por exemplo, durante o espetáculo aparece uma arpa feita com um tronco de árvore”. Como atriz, teve o seu primeiro papel de destaque na peça ‘Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações’, de Eleonora Marino Duarte, com quem já havia trabalhado, mas foi a primeira vez a “trabalhar com o Bruno Correia e com o Wellington. Foram espetaculares. Durante todo o processo, foram muito presentes, ensaiámos imenso, com muito respeito uns pelos outros, pela energia dos outros e estamos a tentar que a peça possa ir a outros lugares”, confessa.

Em paralelo com a criação artística, Filipa Gomes mantém atividade pedagógica na Escola de Música de Rabo de Peixe, onde leciona violino. Mais do que ensinar a técnica, procura transmitir valores, porque “gosto muito de pensar o ensino, não só como o ensinar violino, mas também ensinar o estar em comunidade, fazer música em conjunto. E sinto que estou a conseguir criar isso na escola”, disse, sublinhando que “é uma escola com um ambiente muito positivo, muito descontraído, muito respeitador”. Questionada sobre qual das várias áreas artísticas ocupa um lugar especial, Filipa Gomes, responde que nenhuma existe isoladamente: “Diria que não há uma arte de que goste mais. Quanto mais completa for uma arte, mais estou a completar as outras ao mesmo tempo”. Essa visão estende-se também à forma como encara o papel da cultura na sociedade. Para Filipa Gomes, é necessário “mais atividades de mediação entre a arte e o público. Não para impor a arte às pessoas, mas para dar a conhecer”.

Em termos de projetos a curto prazo, Filipa Gomes refere que, “entre os dias 9 e 18 de julho, vão decorrer os Open Studios da Anda & Fala. Depois, tenho um concerto no dia 10 de julho, no Espaço Rubro. Este concerto vai ser uma instalação artística com performance, poesia. Também quero fazer uma oficina onde as pessoas vão estar a trabalhar poesia. Em conjunto com a rádio vaivém, criei um conjunto de obras de radioarte e, estou a trabalhar em parceria com a Musiquim, com o Mário Moniz e com a Ana Rita. Estamos a construir um espetáculo também para crianças”. Por outro lado, gostava de voltar a recuperar dois projetos com o Luís Senra, nomeadamente ‘Reflexos da Origem’ e ‘Estes sons que sou eu’”. 

E como é que consegue gerir todos estes projetos? Ora, primeiro, diz-nos bem disposta, que “é uma loucura. Às vezes sinto que estou a stressar, mas é uma ansiedade positiva”. Depois refere que “é preciso muita organização, boa gestão do tempo e não perder o foco”, admitindo que “o meu maior desafio é parar. Saber parar”.

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