Forças de segurança em alerta no aniversário da execução de Saddam


 

Lusa   Internacional   29 de Dez de 2007, 17:54

As forças de segurança iraquianas foram postas a partir de hoje em estado de alerta para impedir "qualquer acto criminoso" no domingo, primeiro aniversário da execução do antigo presidente iraquiano Saddam Hussein
O ministério do Interior, além disso, instaurou um recolher obrigatório na localidade de Al-Daur (150 quilómetros a norte de Bagdad), perto da qual Saddam foi detido em Dezembro de 2003 pelas forças norte-americanas.
"É certo que Saddam Hussein ainda tem fiéis, vamos esperar para ver o que se irá passar", declarou hoje Abdul Khalaf, porta-voz do ministério do Interior, numa conferência de imprensa em Bagdad. 
Segundo o oficial, as forças iraquianas estão prontas para impedir qualquer acto criminoso, embora não seja de esperar grandes manifestações públicas em memória do ditador, que foi julgado por um tribunal iraquiano e condenado à morte pela chacina de 148 aldeões xiitas nos anos 1980 e enforcado na madrugada de 30 de Dezembro de 2006.
A cena, filmada num vídeo pirata, suscitou na altura forte controvérsia interna e no estrangeiro, pela brutalidade das suas imagens.
Saddam Hussein, descendente de uma família de camponeses, nasceu na aldeia de Al-Awja, perto da cidade sunita de Tikrit, situada a 150 quilómetros de Bagdad, a mesma onde o lendário Saladino viu pela primeira vez a luz do dia.
Cedo aprendeu a primeira lição sobre a eficácia da violência, pelas surras que quando ainda criança levava do padrasto, com quem a mãe se juntou após o pai ter abandonado o lar e a família antes mesmo do nascimento daquele que viria a ter pulso de ferro no Iraque.
O tio materno Khairallah Tulfah, um militar que veio depois a ser governador de Bagdad, foi a figura mais importante na formação da personalidade de Saddam, tendo-o posto sua protecção na capital e favorecendo a sua formação, primeiro, e depois o início da sua ascensão na carreira política.
Em 1956, aos 19 anos, aderiu ao Partido Socialista Árabe Baas (fundado na Síria por Michel Aflaq) e, no mesmo ano, participou num golpe de Estado fracassado contra o rei Faisal II. 
Dois anos depois, participou noutro golpe, dessa vez contra Abdul Karim Qassim, carrasco do monarca e líder do novo regime golpista. Acusado de conspiração, foi condenado à morte à revelia em Fevereiro de 1960, sentença da qual conseguiu escapar fugindo vestido de mulher para o Egipto da Síria, cujas autoridades lhe concederam asilo político.
No Cairo, concluiu os seus estudos secundários e foi admitido na Escola de Direito, cujo curso concluiria em 1968, tendo-se relacionado com jovens membros do Partido Baas egípcio, de inspiração esquerdista e pan-árabe. 
Acabou sendo perdoado e voltou a Bagdad após a revolução liderada pelo partido Baas em Fevereiro 1963, de cuja organização militar viria a assumir o comando. 
Saddam Hussein casou duas vezes: em 1963, com sua prima de sangue Sajida Khairallah, filha do tio que o adoptou e com quem teve dois filhos e duas filhas, Raghad e Rana, e em 1988 com uma mulher também de seu clã, Samira Fadel Shahbandar, que lhe deu outra filha, Hala, que actualmente vive em Beirute. 
Saddam teve também dois filhos varões, Uday e Qusay, que exerceram cargos importantes nos serviços de repressão iraquianos e ambos mortos após a ocupação do Iraque pelas forças internacionais comandadas pelos Estados Unidos.
Conhecido por admirar o ex-ditador soviético Josef Stalin, Saddam nunca foi um ideólogo, mas apelou muitas vezes ao nacionalismo árabe, ao Islão e ao patriotismo iraquiano para cimentar a sua liderança.
Em Novembro de 1969, foi nomeado vice-presidente do Conselho do Comando Supremo da Revolução, tornando-se assim o "número dois" do regime, depois do presidente, general Al-Bakr, que era seu parente.
Como vice-presidente do Iraque durante o governo do idoso e frágil general Ahmed Bakr, Saddam controlou firmemente o conflito entre os ministérios governamentais e as forças armadas numa altura em que muitas organizações eram consideradas capazes de derrubar o governo, criando um aparelho de segurança repressivo. 
O novo regime logo se aproximou da União Soviética e em 1972 um Tratado de Amizade e Cooperação foi assinado entre os dois países. Depois, também foram selados acordos com a Alemanha Ocidental, o Japão e os Estados Unidos.
A economia do Iraque cresceu a um ritmo forte na década de 1970. Saddam destacou-se por investir fortemente na saúde e na educação. 
Em 16 de Julho de 1979, o presidente Al-Bakr renunciou por motivos de saúde e Saddam Hussein assumiu então os títulos de chefe de Estado, presidente do Conselho do Comando Supremo da Revolução, primeiro-ministro, comandante das Forças Armadas e secretário-geral do partido Baas. 
De imediato, cercou-se de uma dezena de oficiais da sua confiança, que colocou em cargos de responsabilidade. É então que o poder se torna verdadeiramente autocrático, com os primeiros anos a serem marcados pela execução de centenas de oposicionistas e a morte de 5.000 curdos em Halabja, em consequência da intoxicação provocada pelas bombas de gás Tabun lançadas pela aviação iraquiana.
A ambição de Saddam de tornar-se o líder mais poderoso do Médio Oriente Médio levou-o a declarar guerra ao Irão, tendo nessa época chegado a receber apoio norte-americano, uma vez que os Estados Unidos temiam as consequências da ascensão da Revolução Islâmica na região. 
Iraque e Irão iniciaram a guerra aberta em 22 de Setembro de 1980 e o pretexto para as hostilidades foi uma disputa territorial, com apoio dos Estados Unidos, União Soviética e vários países árabes, todos eles desejosos de impedir a expansão de uma possível revolução no Iraque inspirada no Irão.
Em 2 de Agosto de 1990, apenas dois anos depois do fim de uma guerra de oito anos com o Irão, tropas iraquianas, cumprindo ordens de Saddam Hussein, invadiram e anexaram ao território iraquiano o vizinho emirado do Kuwait, país que mais ajudou financeiramente o Iraque durante a guerra contra Teerão. 
A verdadeira motivação da invasão foi o facto de, nesse período, o Kuwait frustrar os desejos iraquianos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de diminuir a produção para que o preço do barril no mercado aumentasse.
No início de 1991, uma coligação internacional dirigida pelos Estados Unidos (então governado por George Bush pai) obrigou o Iraque a retirar-se do Kuwait, mas as tropas da coligação detiveram-se na fronteira entre o emirato e o Iraque.
Vencido pelos aliados ocidentais, Hussein teve que aceitar o embargo económico imposto a seu país pela ONU, organismo que, ao mesmo tempo, fez um acordo para inspeccionar e desmantelar o programa de armamentos (especialmente biológicos e químicos) do país, sendo criado o programa "Oil for Food" (Petróleo por Comida).
Terminada a guerra, Saddam ainda teve que enfrentar as revoltas xiita e curda no Iraque, que não hesitou em reprimir duramente. Entre 1991 e 1992, os Estados Unidos, Reino Unido e França estabeleceram, sem o apoio de uma resolução da ONU, duas regiões de exclusão aérea, a norte do paralelo 36 e a sul do paralelo 32, com o alegado objectivo de proteger as populações curda e xiita.
Nem a debilitada situação económica nem o pós-guerra comprometeram o êxito de Hussein nas urnas, tendo em 15 de Outubro de 1995 o presidente iraquiano obtido o apoio de 99,96 por cento da população num plebiscito, o primeiro da história do Iraque, sobre sua continuidade no poder até 2002.
Durante os anos 90, a ONU exigiu a eliminação das supostas armas de destruição maciça, que o Iraque sempre negou ter, sendo a população do país castigada pelas duras sanções económicas impostas pelas Nações Unidas. 
Em 1997, começaram as desavenças do regime com a UNSCOM, comissão da ONU encarregada de supervisionar o desarmamento do Iraque, devido à suspeita de que o país buscava armamento químico e nuclear, o que constituiu pretexto para os Estados Unidos invadirem o Iraque. 
Em 1998, os Estados Unidos e o Reino Unido bombardearam o Iraque, tentando forçar o regime de Saddam a colaborar com as inspecções da ONU.
Em 2001, como resposta aos ataques terroristas do 11 de Setembro em Nova Iorque e Washington, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, incluiu o Iraque no chamado "eixo do mal", o que abria caminho para a nova campanha militar norte-americana contra o país. 
Após a campanha afegã contra o regime talibã, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, iniciou a "segunda fase contra o terrorismo internacional".
Bush acusou o Iraque de ter ou desenvolver armas de destruição maciça, contrariando as resoluções da ONU impostas após a Guerra do Golfo, e de manter vínculos com o terrorismo internacional. 
Em 2003, George W. Bush moveu contra Saddam uma guerra para tirá-lo do poder, acusando-o de cúmplice no terrorismo anti-Estados Unidos e iniciando a invasão em 20 de Março com um bombardeio inicial sobre Bagdad. 
Saddam foi expulso do poder pelas tropas dos Estados Unidos e britânicas numa guerra não sancionada pelo Conselho de Segurança da ONU. A sua saída do poder, porém, não significou paz para o Iraque, mas o início de um conflito de longa duração.
O paradeiro de Saddam foi desconhecido durante vários meses até que, em 4 de Abril, a televisão iraquiana mostrou o ex-ditador, cercado de aliados seus, passeando pelas ruas da cidade, tendo voltado a desaparecer depois de as forças da coligação invadirem Bagdad, em 9 de Abril. 
Escondido, continuou tentando motivar seus antigos combatentes, que se mostraram mais frágeis do que se imaginava e não resistiram ao poderio militar dos Estados Unidos, nem usaram as supostas armas químicas que motivaram o ataque e que nunca chegariam a ser detectadas.
Saddam Hussein, com barba e cabelos desgrenhados, foi capturado em 13 de Dezembro de 2003 quando se encontrava escondido e num abrigo subterrâneo de uma quinta agrícola na zona de Adwar, próximo de Tikrit, sua cidade natal, numa operação conjunta entre tropas dos Estados Unidos e rebeldes curdos. 
Em 1 de Janeiro de 2004, o Pentágono atribuiu-lhe o estatuto de "prisioneiro de guerra" e em 30 de Junho transferiu sua custódia judicial para o novo Governo provisório iraquiano.
Foi formalmente acusado de genocídio cometido em 1982 por ter ordenado o massacre de 148 iraquianos xiitas em Dujail, após ter sido alvo de um fracassado atentado contra a sua vida. 
Em 5 de Novembro de 2006, após um julgamento conturbado, o tribunal iraquiano condenou-o à pena de morte por enforcamento por crimes contra a humanidade, que foi executada em 30 de Dezembro de 2006.

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