Manuel Ferraz Cardoso

“Escrever também exige que se tenha vivenciado”

“Escrever também exige  que se tenha vivenciado”

 

João Rocha   Cultura e Social   22 de Dez de 2017, 09:07

Manuel Ferraz Cardoso escreveu o romance “Alice”, já na segunda edição.

Com 69 anos de idade, casado, com dois filhos e três netos, é professor do ensino básico aposentado, assumidamente apaixonado pela escrita e leitura.



O romance “Alice” já vai na segunda edição. Estava a contar com uma adesão tão significativa de leitores?

Realmente “Alice” – atendendo a que a nossa terra é um meio pequeno e que os hábitos de leitura, dum modo geral, são escassos e pelo que parece estão a diminuir cada vez mais –, teve algum sucesso que ultrapassou as minhas expectativas, muito embora eu tivesse o pressentimento, desde sempre, que iria cativar a atenção dos leitores. Trata-se, sobretudo, do “ser”, “estar” ou “ter” genuinamente açorianos. Havia alguma curiosidade acerca do livro, talvez porque o que o antecedeu – Lunetas e Outras Solidões –, uma pequena coletânea de contos de índole meramente açoriana –, foi uma porta que felizmente se abriu para este livro. Devo também muito deste pequeno sucesso de vendas à bondade dos meus amigos que o foram recomendando, que formularam críticas positivas nas redes sociais.

Qual é o segredo de “Alice” para nos prender à leitura?

Ninguém é bom advogado em causa própria. Não posso, não devo, nem quero, de forma alguma “gabar a noiva”. Eu gosto muito do livro. Acho que me saiu bem. Fiquei satisfeito comigo neste trabalho. Quando o escrevi fui rebuscar na minha memória vivências de há cinquenta anos e mais. Revivi pessoas e lugares. Tiques. Costumes. Falares. Preconceitos. De vez em quando dou por mim a reler algum capítulo ou algum parágrafo e… nada lhe tirava ou acrescentava. É o que eu sinto. Foi o que eu consegui. Obrigou-me a muita pesquisa, embora possa parecer que tudo saiu ao “correr da pena”. Escrever é difícil. Dá muito trabalho escrever e quando se escreve a pensar nos leitores os cuidados são redobrados. É um romance de ficção. Os personagens não são reais, nem a história o é, mas tem muito que se pode “encaixar” nas mentalidades, tipos e usos daquela época. É essencialmente uma história de amor que… acaba bem, apesar de os personagens terem vivenciado caminhos difíceis e tristes.

Só mesmo os leitores poderiam responder acertadamente à questão que me coloca. Contudo, devo referir que aquilo que os prendeu à leitura, de acordo com a maioria das opiniões que expressaram, foi o amor e ternura que estão patentes em todo o livro. Para muitos, os mais novos, a surpresa de se depararem com formas de manifestação de amor que lhes era desconhecido, do tempo dos seus pais ou dos seus avós. O livro reporta-se ao tempo em que ainda se escreviam cartas de amor. A aproximação era difícil e muito formal, sujeita ao escrutínio da sociedade. Hoje estamos na era dos telemóveis, do computador. Com o Messenger ou com SMS é diferente. Hoje vai-se diretamente aos assuntos, descomplexadamente. As abordagens agora são fáceis. Para os antigos, os da minha geração, o livro é um motivo para revisitar as vivências daquela altura. E é talvez por aí que o livro prende os leitores – o AMOR e as SAUDADES DO PASSADO. É um livro genuinamente açoriano, passado em S. Jorge (o primeiro romance, creio, que se passa em S. Jorge), Faial e Terceira.

As vivências açorianas são um filão inesgotável para a escrita?

Sim, as vivências açorianas são um filão inesgotável para a escrita. Acho até que são uma mais-valia riquíssima e pouco explorada. Temos esta grandiosidade do mar e … tanto que se pode falar do mar, temos a beleza inenarrável destas nossas ilhas. Cenários belíssimos. Estamos num cantinho do mundo que ainda está a ser descoberto. Temos a bondade deste povo que é, a meu ver, única. Pouco se escreve por cá e existem excelentes escritores. Pode-se escrever nos Açores sobre os Açores e os sentimentos do povo dos Açores. As temáticas são múltiplas e ricas. Julgo que existem muitos talentos escondidos, mas manietados pelas dificuldades que se colocam a quem tenta escrever um livro. Os custos de edição são elevadíssimos. As editoras têm apoios do governo, mas os escritores não. Tenta-se colocar um livro no mercado e as grandes superfícies ou até algumas livrarias da região nem se dão ao trabalho de responder a um mail que lhes enviámos com a nossa proposta. Nem se interessam saber se a obra é boa ou má, simplesmente não respondem. Tem acontecido comigo. E sei que com outros também. Não há interesse, ou existe pouco, em promover a literatura açoriana, é o que é!

Sei que muitos tentam, mas desanimam. Depois ninguém pense que escrever traz lucro aqui na Região. As margens de lucro para o autor são mínimas. Ser escritor nos Açores é ser um pouco aventureiro. É preciso ter muita persistência. A minha editora faz um bom trabalho de produção gráfica, mas as vendas estiveram e estão quase todas a meu cargo, o que provoca também algum desgaste. Todavia aconselho quequem tenha um bom livro em carteira avance com ele.

Os leitores açorianos são sensíveis às próprias especificidades do seu arquipélago?

Sim, são! Estão ávidos de temas que se debrucem sobre as nossas ilhas, o nosso povo. Ser-se ilhéu e açoriano é também ter-se um sentimento de estirpe, fiel à sua terra e às suas origens. Ama-se as pessoas, a terra e o mar. Saímos de cá, mas ansiamos pela hora de voltar à terra que nos viu nascer e crescer. Toda a natureza nos envolve e acalenta. Toda alma do povo do Pico está expressa na obra de Dias de Melo. O Faial na de Vitorino Nemésio, etc … Que me perdoem os demais, mas enumerá-los aqui seria um rol muito extenso. Mesmo os livros de história da região (S. Jorge) como os que tem publicado Frederico Maciel, cativam muito os açorianos e não só. Os açorianos são orgulhosos da sua terra. Os que nos visitam compreendem esse orgulho e… quase sempre voltam. Alguma coisa de mágico tem os Açores. A nossa sensibilidade às especificidades das ilhas, o nosso orgulho, tem razão de ser.

Já tem um novo projeto literário na forja?

Ando “às voltas” com um novo projeto. Já tenho uma boa parte escrita. Obriga-me, obviamente, a muita reflexão e pesquisa. Levantando uma pontinha do véu, posso dizer que abordo novamente a temática Açores, a guerra colonial e Angola, enfim, fundamenta-se em vivências que tive, presenciei ou ouvi, de algum modo, mas que vou ficcionar. Ninguém pode escrever sobre o que não conhece, não é verdade? Alguém escreveu: “se Hemingway não tivesse pescado no Caribe, nunca teria escrito O Velho e o Mar”, o que é bem verdade. Escrever também exige que se tenha vivenciado.

Está a caminho dos setenta anos. Espera escrever até quando?

É verdade, meu amigo! Estou à beira dos setenta! Foram setenta anos com tempos bons e maus. As memórias são muitas.

Eu, se me permite, reformulava a sua pergunta: “Espera “ler” até quando”?

Gosto muito de ler. Leio bastante e espero ler ainda por mais alguns anos com “tino” para entender o que leio. É Uma das coisas que desejo muito.

Agora respondendo à sua pergunta: vou tentar acabar este projeto e depois logo se verá. Já não me resta muito tempo para fazer projetos a longo prazo, tenho bem essa noção. Veremos. Entretanto vou lendo e…. escrevendo o que puder e souber, sem prazos nem compromissos. É essa também uma vantagem de se chegar a esta idade - alimentamos em nós um sentimento poderoso de liberdade.









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