Crianças cansam-se da escola quando Actividades de Enriquecimento não são lúdicas


 

Lusa / AO online   Nacional   19 de Out de 2008, 12:21

As Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) devem ser lúdicas e pouco rígidas, caso contrário podem ser cansativas para as crianças do primeiro ciclo, que chegam a ver a escola como "um ofício", alertou uma especialista em educação.
    Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, considera que as AEC propostas às crianças para ocupar o seu tempo livre depois das aulas devem ser "actividades lúdicas, que vão de encontro à sua vontade e interesse", nas quais elas possam escolher o que fazer, como ter música ou pintar, por exemplo.

    Se as AEC forem "demasiado orientadas, as crianças forem obrigadas a fazer [determinada actividade] e se forem mais aulas depois das aulas, penso que é muito cansativo e contraproducente", acrescentou.

    A especialista destacou que as AEC fazem parte do modelo de Escola a Tempo Inteiro que o Governo está a implementar, e que são "uma medida 'socialmente útil', que é feita a pensar nos pais", que podem trabalhar enquanto a escola mantém as crianças ocupadas.

    Porém, "estamos a falar de crianças muito pequenas que demonstram o cansaço das mais diversas formas, a que por vezes damos o nome de indisciplina", destacou.

    Maria José Araújo realçou ainda que o sistema propõe, na maioria das escolas, pelo menos duas aulas de 45 minutos cada, das 16:00 às 16:45 ou das 16:45 às 17:30.

    Desta forma, as crianças mais pequenas, que entram na escola às 09:00, "trabalham na escola cerca de seis a sete horas diárias, o que equivale a dizer que elas no seu 'ofício de aluno' trabalham o mesmo que um adulto".

    "Há muitos educadores (pais e professores) preocupados com isto. De tal modo, que quando têm hipótese, não deixam os seus filhos na escola depois do horário lectivo", destacou.

    A especialista destaca que "apesar dos educadores pensarem nas crianças quando fazem as actividades, a verdade é que raramente estas actividades surgem de um diálogo prévio com elas", mas antes de "um conjunto de orientações que o Ministério propõe, a autarquia tenta organizar e os professores tentam seguir".

    Segundo a investigadora, a decisão sobre a forma como funcionam estas actividades está ligada à concepção que a sociedade tem da infância e de saber se "as actividades devem ser pensadas com as crianças ou para as crianças".

    Maria José Araújo explica que, para os mais conservadores, este processo por que passa actualmente o primeiro ciclo "representa o regresso à escola tradicional", apostando nas disciplinas consideradas "nobres" (o português e a matemática) em detrimento das disciplinas menos consideradas, como as áreas de expressão.

    Para os que defendem uma escola mais participada e respeitadora do trabalho dos professores e da cultura das crianças, a rigidez do programa proposto "representa um retrocesso, numa versão mais autoritária, e tem sido considerada como um atentado à liberdade de aprender e ensinar".

    Neste contexto, a investigadora defende que "as actividades de enriquecimento devem ser pensadas com as crianças", dando-lhes oportunidade de exprimirem o que sentem e exteriorizarem a sua subjectividade.

    Se forem demasiado programadas, "deixando para a criança somente um espaço de execução, o processo de exploração das potencialidades da criança perde-se, pelo menos parcialmente, porque ela já não se entrega por inteiro num acto que já não vê como sendo autenticamente brincar", concluiu.

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