Projeto de râguebi do Espaço T ensina valores a 50 jovens do bairro do Cerco do Porto


 

Lusa/Ao online   Outras modalidades   17 de Fev de 2019, 14:35

Num campo de râguebi sem postes, mas onde os valores como o respeito e a entreajuda circulam à velocidade da bola oval, 50 jovens aprendem a combater a realidade social do bairro do Cerco, no Porto.

Há seis anos a decorrer, o projeto Cercar-te, da associação Espaço T, tem vindo a impor-se da forma mais improvável, cativando cada vez mais jovens para uma realidade que funciona como um mundo diferente, num bairro associado à criminalidade e ao tráfico.

O presidente da Associação Espaço T, Jorge Oliveira, explicou à agência Lusa o projeto, que diariamente "tenta, do nada, construir uma escola social do râguebi".

A um quilómetro do Estádio do Dragão, num campo sintético, e numa hora cedida pelo Salgueiros, paga pela Junta de Freguesia de Campanhã, a face desportiva do projeto materializa-se duas vezes por semana, ao final da tarde, já depois de todos terem feito os trabalhos de casa, supervisionados pelos responsáveis do projeto.

"São cerca de 50 alunos de ambos os sexos, com idades entre os seis e os 14 anos", disse Jorge Oliveira, orgulhoso pelo "sucesso também ao nível escolar", cifrado numa "taxa de sucesso de quase 90%".

E prosseguiu: "antes de virem para o râguebi são trabalhadas as competências ao nível dos trabalhos de casa, teatro, dança, fotografia, pintura, sendo que o râguebi é quase um troféu para eles e a verdade é que se vê a tirarem boas notas todos os anos e a crescerem como pessoas".

A atratividade do projeto mexeu também com os adultos, como foi o caso do coordenador, Nuno Ferreira, que com formação na área das Artes, teve de adaptar-se e investir na área do desporto.

"A formação contínua é muito importante. Eu próprio cheguei para coordenar um projeto social em que não estávamos a contar, de início, com a componente desportiva, e de repente vejo-me com uma escola de râguebi e tive de adaptar-me e fazer formação", explicou à Lusa.

Trabalhando desde o escalão sub-8 aos sub-14, o projeto tem também atletas nos escalões sub-16 e sub-18, em equipas incompletas, o que fez com que criassem parcerias com outros clubes para dar-lhes a possibilidade de competir, havendo já dois jogadores cedidos ao CDUP e uma atleta a treinar também no Sport Club do Porto.

"A ideia é fazer crescer o projeto nos próximos dois anos à zona oriental do Porto", avançou Nuno Ferreira, que pretende "rapidamente duplicar ou triplicar" os 40 atletas federados do projeto Cercar-te, que na sua designação combina Cerco, nome do bairro, com arte, base do projeto para as crianças que lá residem.

Artur Passos, 16 anos, e André Ramos, 17 anos, são os primeiros exemplos de jovens que saíram das ruas do bairro para o projeto, nele adquiriram competências e valores para hoje jogarem num clube histórico do râguebi nacional, o CDUP.

"Neste desporto aprendemos a ser unidos, a ajudar o próximo e a não desrespeitar", salientou à Lusa Artur Passos, que apesar da baixa estatura, apresenta a corpulência para uma modalidade muito exigente ao nível do contacto físico.

Responsável "por uma parte dos que estão aqui a jogar", Artur frisou que o projeto mudou o seu quotidiano, tornando "mais focado no desporto", e com repercussões também nos estudos: "ao nível escolar tenho vindo a atingir os meus objetivos, melhorando as notas e chegando mais longe na escola, o mais rápido possível".

André Ramos tem o discurso alinhado com o colega, e também com a camisola verde do CDUP vestida, foi o "respeito pelo adversário, ser mais unido como uma equipa e amigos, e que depois se transporta para o dia a dia e escola", que expressou como principal legado do projeto que continua a integrar, ajudando os mais pequenos.

Desde janeiro no CDUP, "sonha chegar à seleção nacional, tirar a carta de condução e arranjar trabalho, tudo conciliado com o râguebi", salientou.

Vanessa Nunes, 15 anos, conheceu há três o projeto e hoje é assídua em estágios das seleções regionais, tendo já treinado no Sport Club do Porto.

Esse envolvimento, relatou à Lusa, mudou-lhe o "comportamento na escola", onde admitiu ter deixado de "portar-se um bocado mal" para "começar a dedicar-se mais aos estudos", sendo hoje uma "aluna com boas notas".



Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.