Criminalidade

População "receosa" e criminosos "orgulhosos"

População "receosa" e criminosos "orgulhosos"

 

Lusa/AO online   Nacional   28 de Ago de 2008, 15:48

O aumento da criminalidade está a deixar os portugueses "receosos" de que "o vizinho do lado seja um assaltante" e os delinquentes "orgulhosos" na pele de "gangsters do Faroeste". À beira de um clima de paranóia, as minorias étnicas são muitas vezes associadas aos crimes, independentemente da culpa.
Este é o retrato traçado por especialistas em criminologia contactos pela agência Lusa para comentar os efeitos na população de um Verão marcado por violentos assaltos a bancos e bombas de gasolina e actos de 'carjacking' (roubo de viaturas com violência na presença do condutor).

    "O aumento da criminalidade gera uma sensação de insegurança geral na população", defendeu o psicólogo criminal Ricardo Santos.

    "As pessoas passam a andar sempre com um olhar desconfiado, com receio de que o vizinho do lado seja um assaltante. A situação poderá mesmo criar um clima de paranóia", explicou o psicólogo.

    A opinião de Luís Fernandes, investigador do Observatório dos Comportamentos Desviantes, vai no mesmo sentido: "A aparente facilidade com que se usam armas de fogo produz sentimentos de insegurança na população".

    Ricardo Santos lembra que, enquanto vítimas passivas de um crime, as pessoas ficam "frustradas" por não terem conseguido reagir no momento do assalto, sentindo por isso necessidade de identificar o criminoso.

    "Há uma tendência para tentar encontrar culpados e normalmente escolhe-se sempre o elo mais fraco. Geralmente a culpa recai nas minorias porque são mais frágeis e têm mais dificuldade em se defender. Desta forma, descarta-se a possibilidade de sermos nós próprios os autores dos problemas", explicou o psicólogo.

    Para estes especialistas, o aumento da criminalidade poderá estar associado à sensação de impunidade do criminoso e aparente sucesso e facilidade em cometer crimes.

    "Os indivíduos aptos a delinquir são pessoas racionais, que ponderam e estudam como vão fazer as coisas, avaliam até que ponto vão ter êxito. Se o trabalho policial e dos tribunais for eficaz, então poderá dissuadir o delinquente", lembrou Luís Fernandes.

    No entanto, as constantes notícias nos media na altura do Verão relatam episódios de crimes em que raramente se conhece o paradeiro do criminoso ou se fala em detenções.

    Os sucessos em operações "aparentemente difíceis" como os assaltos a bancos, que até agora passavam uma imagem de "espaços bastante fortificados e vigiados", podem estar a criar um certo "entusiasmo nos indivíduos que começam a pensar que afinal é fácil", referiu Luís Fernandes.

    Para os delinquentes, existe ainda o factor "orgulho". A constante exposição mediática permite-lhes um "exibicionismo que os tornam em figuras públicas como se fossem gangsters do Faroeste", disse Carlos Poiares, do Departamento de Psicologia Criminal da Faculdade Lusófona.

    "Para quem já está no mundo do crime, pode ser motivo de orgulho para os seus pares mostrar que fizeram um assalto do qual saíram incólumes e que dá na televisão", corrobora Ricardo Santos.

    As operações mal sucedidas significam, para eles, apenas que quem as praticou "foi burro" e que eles, "mais espertos, vão conseguir ultrapassar todas as dificuldades", defende o psicólogo.

    Ricardo Santos admite ainda que, no actual contexto de crise económica, possa haver quem esteja a atravessar dificuldades financeiras extremas e descubra, neste ilegal modo de vida, "uma solução rápida para resolver os problemas".

    A contribuir para esta tentação está também o actual "contexto de economia liberal que instalou a ideia do ganho fácil, que se pode enriquecer de um dia para o outro, em vez da ideia de trabalho, esforço e mérito pessoal", lembra o investigador do Observatório de Comportamentos Desviantes.

    "Agora parece que a melhor forma de ganhar dinheiro é indo a um concurso de televisão. Se não der para ir ao concurso, vai a um banco", ironiza.

    "O enriquecimento fácil, a forma como se mostra na televisão todo esse fausto, as imagens da casa dos jogadores portugueses, a história do jogador que este ano já gastou 600 mil euros em automóveis transmitem mensagens às pessoas. As pessoas regalam-se no sofá a ver as fortunas fáceis e depois criam-se estes climas", lamentou Luís Fernandes.

    Tanto o especialista do Observatório como o investigador do Departamento de Psicologia Criminalidade garantem que há muito que os especialistas alertavam para a actual situação.

    "Há 15 anos já havia indicadores do que iria acontecer, mas só agora se começou a trabalhar", revelou à Lusa Carlos Poiares, lembrando os elevados números de insucesso e abandono escolar em algumas zonas do país, onde arranjar emprego é cada vez mais difícil.

    Carlos Poiares estima que a situação ainda possa piorar e alerta: "Se não se fizer nada agora, dentro de cinco anos teremos um cenário verdadeiramente desastroso".

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