Células estaminais

Investigação feita em Portugal está entre as mais avançadas do mundo


 

Lusa/AO   Nacional   18 de Nov de 2008, 07:29

A investigação com células estaminais em Portugal está entre as mais avançadas no mundo, nomeadamente em engenharia de tecidos e medicina regenerativa, e há cada vez mais empresas a oferecer serviços, segundo especialistas nesta área.
"Estamos bastante à frente na expansão celular, temos um trabalho de muita qualidade na regeneração de osso, cartilagem e pele, por exemplo, e há muito trabalho ligado às células estaminais em neurociências", disse à Lusa Luís Reis, presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular.

    As células estaminais têm a capacidade de se diferenciar em vários tipos celulares e de se renovar e dividir indefinidamente. No caso das que se encontram no sangue do cordão umbilical, o seu isolamento e criopreservação (conservação através de congelação) proporciona aos recém-nascidos e familiares a sua eventual utilização no tratamento de doenças que venham a contrair ao longo da vida.

    Segundo Luís Reis, que dirige o Grupo 3B's (Biomateriais, Materiais Biodegradáveis e Biomiméticos) da Universidade do Minho, este serviço "é bem oferecido e há eventualmente mais negócio nesta área em Portugal do que noutros países".

    Numa das cinco empresas portuguesas dedicadas à criopreservação das células estaminais do sangue do cordão umbilical - a Crioestaminal, com sede em Cantanhede (Coimbra) - são já quase 25 mil os pais que decidiram guardar as células dos filhos por 20 anos.

    Os pais pagam actualmente 1.200 euros por este serviço à Crioestaminal, uma "spin-off" da Universidade de Coimbra criada em 2003, que ultrapassará este ano os seis milhões de euros em volume de negócios.

    Raúl Santos, director da empresa, salientou à Lusa a aposta da companhia em projectos de investigação, nomeadamente o que desenvolve neste momento com o grupo de Joaquim Sampaio Cabral, do Instituto Superior Técnico, para a expansão das células estaminais.

    "O projecto visa estudar as melhores condições para multiplicar o número de células estaminais hematopoiéticas presentes no sangue do cordão umbilical, de modo a permitir alargar a sua utilização a um maior número de pacientes, como por exemplo os de maior peso corporal", explicou. É que o número de células necessárias para aumentar a eficácia de um transplante depende muito do peso corporal: quanto maior for, maior será a necessidade dessas células.

    Em termos do desenvolvimento da investigação, Luís Reis destacou a abertura recente, no Avepark, nas Taipas (Guimarães), da sede do novo Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, de que é também director, e que "irá polarizar muito todas as actividades nesta área em Portugal".

    "Fomos seleccionados por todos os outros membros do Instituto para assumirmos essa liderança, com critérios científicos, por sermos os mais produtivos e mais activos nessa área, e temos já pessoas de 25 países a trabalhar nele", acrescentou.

    No edifício do Instituto está instalada a Stemmatters, uma empresa nascida no seio do Grupo 3B's com o objectivo de desenvolver terapias regenerativas para o osso, a cartilagem e a pele, e que venceu em 2007 o Prémio Nacional de Empreendorismo START, atribuído pelo BPI, a Microsoft e a Universidade Nova de Lisboa.

    Outra empresa de biotecnologia celular, a EcBio, com sede em Oeiras, tem por objectivo fazer chegar ao mercado aplicações terapêuticas com células estaminais para doenças sem terapia satisfatória ou sem terapia de todo.

    "Estamos a falar tanto de doenças com grande incidência e prevalência, como de doenças raras", explicou à Lusa o seu administrador e director científico, Pedro Cruz.

    Entre as primeiras estão as neurodegenerativas (Parkinson, em especial), a diabetes, em que a empresa visa atacar com terapias celulares o "pé diabético" (úlceras nos membros inferiores que não saram), e ainda as doenças cardiovasculares, sobretudo na área do enfarte de miocárdio.

    Na área das doenças neurodegenerativas, Pedro Cruz referiu um projecto desenvolvido com o neurologista Carlos Lima, do Hospital Egas Moniz, que consiste no implante de células estaminais da mucosa olfactiva na espinal medula de pacientes paraplégicos, devolvendo-lhes com isso alguma mobilidade.

    Na generalidade, segundo este investigador, há uma série de fontes de células em investigação e os resultados clínicos demonstrados com algumas delas mostram que podem trazer maior qualidade de vida. E "isso pode fazer toda a diferença para as pessoas", sublinhou.

    "Nem sempre os resultados são os desejados, já que os ganhos são por vezes de apenas 20 a 40 por cento da função inicial, mas o importante é que estamos a fornecer ao organismo mais ferramentas para ele curar os problemas que tem", acrescentou.

    "O número de células estaminais vai diminuindo na maior parte dos órgãos, à excepção da medula óssea, à medida que vamos envelhecendo, e é por isso que quanto mais substrato conseguirmos dar ao organismo, maior será a minimização destes problemas", concluiu.

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