Nos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo, a fotografia transforma-se em testemunho. Desde sexta-feira e até 16 de março, é possível visitar uma exposição que obriga a fazer um exercício pouco confortável, olhar para o envelhecimento sem filtros, a partir do ponto de vista de quem o vive diariamente e sem poses ensaiadas.
A mostra, da autoria de César Araújo, enfermeiro no Lar do Recolhimento Jesus Maria José - Mónicas e fotógrafo analógico, apresenta um conjunto de imagens que dão corpo ao silêncio, à espera e à rotina que marcam a vida de muitas mulheres que vivem em acolhimento residencial.
A exposição “Os Seus Olhos, o Nosso Mundo - Uma Janela para a Realidade da Terceira Idade” é composta por 26 fotografias, todas captadas no interior do lar. As imagens são registadas sempre à altura dos olhos das utentes, colocando o visitante no lugar delas: a cama onde algumas passam grande parte do dia, a refeição servida, o teto que se torna paisagem, a janela que permite ver o lado de fora, o espelho onde se cuidam e ainda se reconhecem, e os objetos religiosos que acompanham as horas. Cada fotografia é um registo das atividades e gestos que fazem parte de um quotidiano repetido.
Não são apenas utentes, são pessoas inteiras
O projeto nasceu da experiência profissional de César Araújo, que trabalha diariamente com estas mulheres. O autor sentiu a necessidade de contrariar um fenómeno que reconhece como comum entre quem trabalha neste contexto, a perda gradual de sensibilidade: “Com o tempo, começamos a ver as pessoas apenas como utentes. Esquecemo-nos de que ali estão histórias de vidas inteiras”, explica. A fotografa surgiu, assim, como uma forma de recuperar o olhar, para si próprio, para os colegas e para a comunidade.
Algumas das imagens revelam a solidão prolongada que marca o dia-a-dia no lar. Algumas utentes estão acamadas e passam praticamente todo o dia com a mesma vista, interrompida apenas pelos momentos de cuidado prestados por enfermeiros e auxiliares. Em alguns casos, o contacto humano direto ao longo de 24 horas resume-se a uma ou duas horas.
A espera estende-se, muitas vezes, às visitas de familiares. Embora nunca esqueçam os filhos e netos, como mostram as fotografias expostas nos quartos e as imagens guardadas nas mesas de cabeceira, a presença da família nem sempre é regular. Há utentes que recebem visitas uma vez por semana, outras uma vez por mês e algumas apenas uma vez por ano. Ainda assim, a memória é viva: “Elas nunca esquecem a família. Mesmo quando as visitas são raras, mantêm fotografias, falam dos filhos e netos, e têm o cuidado de telefonar em datas importantes”, sublinha César Araújo.
Projeto construído com as utentes e a equipa
A exposição reflete também a cultura e os hábitos de uma geração. A religião ocupa um lugar central, visível nos terços, nas imagens sacras e na oração diária, momentos que representam paz e estrutura num quotidiano marcado pela repetição. Os trabalhos manuais, como o croché, surgem também como ocupação do tempo.
O projeto foi recebido com entusiasmo pelas utentes que acompanharam todo o processo, viram as fotografias e reconheceram-se nelas. Na exposição, certos objetos pessoais, como peças de croché, elementos religiosos e outros objetos do quotidiano acompanham as fotografias, aproximando o público das histórias que ali estão representadas.
A equipa do lar teve também um papel fundamental, apoiando o trabalho e permitindo que, em plena rotina de cuidados, fosse possível parar para registar os momentos que surgiam de forma natural: “Não era uma obrigação deles, mas aceitaram e ajudaram sempre”, refere César Araújo, sublinhando o caráter coletivo do projeto.
Um apelo à comunidade
Mais do que uma exposição artística, esta mostra assume-se como uma chamada de atenção à comunidade. Um convite à reflexão sobre o envelhecimento e o acolhimento residencial : “É um alerta. Nos lares, as equipas esforçam-se por dinamizar atividades e tornar os dias diferentes, mas a verdade é que a rotina acaba sempre por ser muito forte”, admite César Araújo, sublinhando que, apesar do trabalho desenvolvido, o quotidiano num lar é marcado pela repetição, muitas vezes mais do que em centros de dia, onde existe maior rotatividade e estímulo.
César Araújo destaca, sobretudo, a importância da presença e da visita: “Cada um sabe da sua rotina e do tempo que dispõe, mas ali vivem mulheres que cuidaram de filhos, netos e maridos a vida inteira e que hoje partilham um espaço coletivo, onde esperam a visita das famílias”.
“Os Seus Olhos, o Nosso Mundo - Uma Janela para a Realidade da Terceira Idade” é a primeira exposição a solo de César Araújo e resulta de um percurso recente na fotografia analógica. O projeto acabou por ganhar dimensão própria e encontrou na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo o espaço adequado para dar visibilidade a uma realidade que dificilmente chega ao centro da cidade.
A exposição pode ser visitada até 16 de março, nos Paços do Concelho de Angra do Heroísmo, com entrada livre. A proposta é parar, olhar e respeitar o envelhecimento.
