Cientista português recebe prémio na área da microbiologia

Cientista português recebe prémio na área da microbiologia

 

Lusa/AO   Nacional   27 de Set de 2007, 08:21

Avanços no estudo de uma bactéria responsável pela maioria das infecções sexuais e por casos de cegueira que atingem milhões de pessoas valeram ao investigador português João Paulo Gomes um prémio europeu de referência na área da microbiologia.
O jovem investigador do Centro de Bacteriologia do Instituto Nacional Ricardo Jorge (INSA) recebe a 08 de Outubro o "PhD Award 2007", uma distinção atribuída às três melhores teses europeias de doutoramento de 2006 na área da sequenciação dos genomas de microorganismos patogénicos para o Homem, pela rede transeuropeia 'ERA-NET PathoGenoMics', fuinanciada pela União Europeia.

    Para João Paulo Gomes, receber o prémio "faz muito bem ao ego" e "é bastante gratificante", após cerca de cinco anos de investigação.

    A tese de doutoramento "Contribution for the understanding of biological differences among Chlamydia trachomatis serovars using Genomics and Transcriptomics" foi defendida na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e o estudo foi feito em colaboração com o laboratório norte-americano Childrens Hospital Oakland Research Institute, na Califórnia.

    "Este foi um trabalho feito essencialmente cá e isto mostra que em Portugal se faz investigação muito boa e com qualidade", afirma, realçando que "quem conhece um bocadinho a realidade dos Estados Unidos percebe que a investigação nos EUA, muitas vezes considerada de ponta, é feita à custa de mão-de-obra estrangeira".

    No trabalho, João Paulo Gomes expõe as diferenças do genoma dos 18 serotipos da bactéria intracelular 'Chlamydia trachomatis', que afecta actualmente cerca de 80 a 90 milhões de pessoas no mundo.

    As variantes desta bactéria são a maior causa bacteriana de infecções sexualmente transmissíveis e de traucoma, um problema que começa com uma inflamação no olho para depois se transformar numa conjuntivite crónica e que pode conduzir à perda de visão, comum em zonas rurais do Médio Oriente, África, Austrália, América Latina, entre outras.

    O estudo incidiu especialmente sobre a vertente de doenças sexualmente transmissíveis, um problema de saúde pública que afecta muito as mulheres europeias e que em cerca de 70 por cento dos casos é assintomática, causando complicações como a doença inflamatória pélvica, a gravidez ectópica e a infertilidade tubária, entre outras.

    "As pessoas estão infectadas sem o saber, sem ter qualquer tipo de sintoma, o que faz com que sejam reservatórios de transmissão, e portanto transmitam aos seus parceiros com uma certa facilidade", explicou, salientando que "isto está na base da elevada prevalência desta bactéria em todo o mundo".

    A tese de doutoramento consistiu "num estudo detalhado da biologia desta bactéria, nomeadamente nas diferenças a nível do código genético de todas as suas 18 variantes".

    "Estudámos o melhor possível as variações genéticas de variante para variante, bem como as variações de funcionamento de alguns dos genes que nós sabíamos poderem ser importantes", a pensar no objectivo de contribuir para o "desenvolvimento de métodos de diagnóstico eficazes que façam o despiste das doenças em todo o mundo e, por outro lado, o desenvolvimento de uma vacina adequada ao combate a estas infecções", realça o investigador.

    Descobriu que a bactéria é mais diferente de variante para variante do que se esperava.

    Tal como um vírus, a Chlamydia Trachomatis desenvolve-se dentro das células e, como é uma bactéria intracelular, os cientistas pensavam que teria uma evolução muito lenta.

    "Não é isso que acontece. O que acontece é que ela é uma bactéria muito polimórfica, ou seja, tem uma variação genética muito grande, tem uma variedade muito maior do que se esperava e isso tem uma dificuldade acrescida para o desenvolvimento de uma vacina", afirmou o investigador, salientando que o desenvolvimento de uma vacina contra esta bactéria teria de ser adequada obrigatoriamente para a maior parte das variantes em circulação.

    Na investigação, João Paulo Gomes usou bactérias isoladas de doentes infectados há muito pouco tempo, contrariamente ao que tradicionalmente se faz neste campo - a utilização de bactérias isoladas de doentes há muitas décadas, multiplicadas num laboratório norte-americano que depois as vende para investigação a laboratórios de todo o mundo.

    "Usámos um número razoável de bactérias isoladas há muito pouco tempo e verificámos que a bactéria evoluiu no sentido de uma muito grande diversificação, o que provavelmente é resultado da pressão imunitária do nosso organismo. As nossas defesas atacam a bactéria e ela, para se tentar defender, desenvolve mutações e vai-se modificando", criando mais uma dificuldade a quem queira desenvolver uma vacina no futuro, explica.

    Devido a estas descobertas, o investigador insiste na "necessidade imperiosa de utilizar bactérias isoladas há muito pouco tempo", por, pelos vistos, estar em constante mutação.

    Se por um lado as bactérias de laboratório permitem aos investigadores comparar resultados por partirem de condições semelhantes, por outro não são as bactérias que estão actualmente na natureza, a infectar o ser humano, explicou.

    "Deixaram de circular na comunidade, deixaram de sofrer a pressão imunitária, deixaram de sofrer durante a infecção o processo de defesa das nossas defesas e, portanto, são bactérias que não precisaram de evoluir", salienta.

    Esta investigação não é "um trabalho acabado".

    "No final ficámos com mais perguntas do que aquelas que tínhamos quando começámos", referiu, salientando pretender "acima de tudo continuar esta linha de investigação" e estudar a evolução da bactéria a um nível mais alargado do seu genoma, o que lhe dará trabalho durante os próximos anos.

    "Aquilo que nós nos propomos agora como linhas futuras de investigação é fazer um estudo nos mesmos moldes, mas bastante mais alargado, ou seja, abrangendo outras regiões do cromossoma desta bactéria para que as conclusões sejam mais precisas e para dar ferramentas a outros grupos de investigação resultados úteis que possam usar", conclui.

    A entrega do prémio a João Paulo Gomes decorrerá durante o 3º Congresso Europeu de Microbiologia, em Göttingen (Alemanha), durante o qual o investigador do INSA irá fazer uma apresentação do seu trabalho.
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