"Austeridade excessiva" pode "prejudicar terrivelmente a democracia"

"Austeridade excessiva" pode "prejudicar terrivelmente a democracia"

 

Lusa/AO online   Nacional   10 de Out de 2012, 09:49

O ex-Presidente da República Jorge Sampaio considerou, numa conversa na Internet com leitores do diário francês Le Monde, que uma "austeridade excessiva pode prejudicar terrivelmente a democracia", e ceder terreno à emergência de extremismos.

“Devo dizer que a austeridade pela austeridade, a austeridade excessiva, pode prejudicar terrivelmente a democracia. Porquê? Porque a democracia precisa de esperança”, declarou o socialista aos internautas do diário, na terça-feira à tarde.

Em resposta à questão de um leitor que perguntou ao ex-Chefe de Estado português se “a austeridade desenfreada” que está a ser aplicada nos países do sul da Europa pode “destruir as democracias”, Jorge Sampaio disse ainda que o cenário atual pode ceder terreno aos extremismos.

“Se não se conseguir ver a luz ao fundo do túnel, a esperança desaparece, há pessoas dispostas a acreditar em tudo, e é por isso que os extremismos estão a florescer”, afirmou.

O ex-Presidente defendeu, contudo, que “a democracia não recua”, apesar de isso ser, “talvez, paradoxal”. A democracia, argumentou, “avança enquanto encara novos desafios, e talvez seja preciso redefini-la”.

O socialista destacou ainda o facto de, “durante décadas, se [ter falado] de Europa”, e de “agora se falar da Europa do norte e da Europa do sul”, dizendo detestar essa diferenciação: “Isso significa o fim de uma solidariedade necessária”, afirmou.

Sampaio considerou que “o grande desafio atual” é “construir uma alternativa” às “dificuldades crescentes” do sistema capitalista ocidental, acrescentando que, embora a tarefa seja “muito difícil”, mantém a esperança.

“Espero que possamos avançar na regulação, mas sei também que as forças maiores do mundo da finança são superiores à economia real. Gostava que a política enquanto tal pudesse dominar, regular o mundo da finança”, afirmou.

Sobre a União Europeia (EU), o ex-Presidente defendeu a necessidade de “reforçar democraticamente certas instituições” – em defesa de “uma Europa solidária, que busque a equidade” –, dando o exemplo da criação de um Senado, que funcionaria como uma segunda câmara do Parlamento Europeu, e da eleição do presidente da Comissão Europeia “diretamente pelo povo”.

“A partir do momento em que a burocracia de Bruxelas e dos decisores políticos se arriscam a perder o seu objetivo ao nível da solidariedade geral, devido a pressões de todos os tipos, corremos o risco de ver os cidadãos distanciarem-se da Europa”, afirmou.

Jorge Sampaio considerou também que estamos “imersos na globalização” e que “a Europa é a única resposta coletiva e multilateral”.

O ex-Chefe de Estado disse ainda que é necessária “uma nova articulação entre as instituições internacionais” para criar uma “governação mundial, que não existe”.

Questionado sobre qual a responsabilidade dos políticos pelo “descontentamento com a política e com a democracia”, Jorge Sampaio respondeu com otimismo: “Penso que a responsabilidade é muito partilhada. Mas é preciso combater o desespero a todos os níveis. Para ter uma sociedade democrática, não se pode parar de inovar, de propor. Nunca se pode perder a esperança”, concluiu.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.