Sociedade

As vidas suspensas das crianças institucionalizadas

As vidas suspensas das crianças institucionalizadas

 

Olímpia Granada   Regional   1 de Set de 2008, 12:01

Na “Mãe de Deus” dizem que “corta a alma” ver quanto as crianças esperam para saber do seu futuro, uma “suspensão” de vida que aumenta a sua fragilidade da qual há quem tente aproveitar-se, como os traficantes de droga. Instituição centenária reorganizou-se para encontrar novas soluções
O excessivo tempo de permanência das crianças em risco na instituição é a grande preocupação assumida pelos responsáveis da “Mãe de Deus”.
Luís Anselmo, presidente da Direcção desta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) micaelense com mais de 150 anos de existência, considera que “continua-se a privilegiar os laços de sangue em detrimento dos laços afectivos, esperando e esperando pela recuperação de famílias que à partida, sabemos, nunca se vão reequilibrar”.E assim, relata, “as crianças crescem, passam a jovens, a adolescentes, atingem a maioridade e sempre institucionalizadas, com danos psicológicos irreparáveis para elas próprias e custos financeiros elevados para o Estado, e muitas vezes, no final, com resultados desastrosos”.
“É simplesmente de cortar a alma assistir a este traumatizante percurso de muitas crianças e jovens”, desabafa Luís Anselmo que, apesar de ser presidente da direcção há cerca de dois anos, está envolvido na vida da “Mãe de Deus” há mais de oito.
“É necessário sermos mais pragmáticos e apostarmos muito mais nas adopções, nas famílias de acolhimento, enquanto são crianças de tenra idade. Podemos falar de 1, 2 ou até 3 casos de adopções falhadas, mas também podemos contrapor centenas de adopções com sucesso”, defende.
Por isso, Luís Anselmo defende que “vale a pena correr o risco e olhar sempre e mais para o superior interesse da criança”.
Um superior interesse que diariamente coloca desafios à instituição. A guarda das menores - uma vez que esta é uma IPSS predominantemente feminina exceptuando crianças mais novas do sexo masculino que ‘chegam’ com as irmãs -, não se esgota nos cuidados assistenciais.

Alvo de traficantes
Questionada, a irmã Maria da Conceição Martins, vogal da Direcção e há quatro anos na “Mãe de Deus”, admite que estas menores são um alvo para traficantes de droga.
A adolescência representa aqui como em qualquer outro contexto, uma fase da juventude em que aumentam as probabilidades de comportamentos de risco, mas potenciada pela fragilidade psicológica da maior parte das menores.
“Não há dúvida nenhuma, é um pouco como a lei da selva e as pessoas que traficam droga acham que as nossas adolescentes são potenciais consumidoras e, mais: que podem ser potenciais traficantes”, refere Luís Anselmo.
O responsável acrescenta que “infelizmente temos situações dessas que temos vindo a acompanhar com as nossas psicólogas, assistentes sociais, situações complicadas de pessoas que traficam e que se aproveitam da ingenuidade e da fragilidade das jovens”.
Fazendo notar que “são poucos os casos” que preocupam a instituição, quando perguntamos se é hoje mais difícil para uma organização de acolhimento lidar com jovens, diz:“Não sei se é mais difícil mas é diferente, os perigos são outros e temos que arranjar, também, soluções diferentes”.
Confrontado com a opção tornada pública de algumas instituições já terem optado por não manter jovens problemáticos, perguntamos a Luís Anselmo em que situações-limite se justificará “desistir” do potencial de um jovem.
“Posso responder claramente: nunca!”, responde sem hesitar, explicando que “não se sai da instituição por ‘portar-se mal’, embora haja situações tão complexas que, às vezes, a solução passa pela transferência para outro local, ilha ou até para o continente, situações que envolvem toxicodependência, ligações a traficantes e até pré-delinquência, para a sua própria protecção”.
Daí, também, reforça a irmã da Congregação S. José de Cluny que há mais de 70 anos está envolvida nesta missão, houve “necessidade de descentralizar os grupos e apostar numa acção mais personalizada junto de adolescentes”.
“Com a criação das valências os problemas não desapareceram mas foi um passo muito importante”, considera.
Actualmente a associação está, então, organizada da seguinte forma: Casa “César Cabido” (para acolhimento até 27 crianças e jovens em risco, no edifício sede, organizada em grupos uni-familiares); Casa “Crescer” (até 8 adolescentes a partir de 12 anos, provenientes de instituições de acolhimento ou de meios familiares disfuncionais, por decisão do Tribunal de Família e Menores ou das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em Risco); Casa de Transição “Lua Nova” (residência até 8 utentes com o objectivo de preparar jovens com idade igual ou superior a 16 anos para o ingresso na vida activa) e Casa de Transição “Maria do Santo Cristo” (segunda residência de transição para a vida autónoma com capacidade para 6 utentes); Residência de Autonomização (para até 3 jovens adultas a partir dos 18 anos de idade, com ou sem prorrogação de medida de acolhimento em instituição, com ausência ou incapacidade temporária da estrutura de suporte familiar ); a recente “ Laço Materno” (acolhimento até 9 mães adolescentes ou futuras mães com vista a proporcionar um projecto de vida consistente) e, por fim, a creche “Mundo Infantil” com 3 salas e um berçário com capacidade para 50 crianças.
A Residência Universitária Solidária aloja e acolhe jovens do sexo feminino, matriculadas em cursos da Universidade dos Açores e provenientes de famílias com baixos rendimentos.
Como contrapartida, fazem trabalho de voluntariado na Mãe de Deus.

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