Países lusófonos intensificam cooperação para combater seca


 

Lusa / AO online   Internacional   28 de Nov de 2007, 09:24

Entidades de vários países lusófonos defenderam terça-feira a necessidade de cooperarem no combate à seca extrema, um dos principais problemas que se regista em diferentes regiões do globo.
O encontro "Água para Todos" reuniu representantes do Brasil, Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que apresentaram as diferentes experiências adoptadas actualmente no combate à seca.

"Essa troca de experiências permitirá o lançamento de pontes para projectos de cooperação, uma forma de tomar contacto com diferentes realidades em relação a um tema comum", disse à Agência Lusa um dos organizadores do encontro.

João Paulo Lobo Ferreira, engenheiro do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNE) de Portugal, avançou ainda que as discussões são o contributo da sociedade civil organizada para a resolução do problema.

"Queremos trocar diferentes experiências de como fazer face à escassez de água tirando partido da ciência", salientou o organizador.

Lobo Ferreira apresentou a recente investigação para desenvolvimento de uma técnica que permitirá a recarga artificial do maior sistema aquífero do Algarve, o Querença Silves.

"Precisamos tirar partido do excedente de água de anos mais húmidos com o seu armazenamento artificial no aquífero para evitar que o excesso dos reservatórios seja jogado inteiramente no mar", disse.

A investigação indicou ser possível armazenar o excesso no aquífero, a exemplo do que já decorre em regiões da Austrália, permitindo que água seja bombeada novamente à superfície em anos de seca extrema, como aconteceu em Portugal entre 2004 e 2005.

"É como uma poupança, onde poupamos nos anos de excesso de água para utilizar depois nos anos de grande escassez, com a garantia de evitar o comprometimento dos níveis das águas subterrâneas", salientou Lobo Ferreira.

O presidente do Instituto Nacional de Gestão dos Recursos Hídricos (INGRH) de Cabo Verde, António Pedro Borges, realçou que a escassez de água é "um dos grandes desafios" do arquipélago, nos próximos anos.

    "Actualmente, grande parte do abastecimento é garantido por meio das águas subterrâneas que já começam a apresentar os seus limites", afirmou.

    Uma das poucas soluções encontradas pelo INGRH foi aumentar os investimentos para duplicar até 2010 o volume actual da dessalinização da água do mar.

"Não há outra hipótese, uma vez que estamos a registar um grande aumento do consumo de água em Cabo verde, nomeadamente por causa do aumento dos investimentos da indústria hoteleira", disse Pedro Borges.

Actualmente, a dessalinização é responsável por 75 por cento do abastecimento da Cidade da Praia e de 100 por cento da ilha de São Vicente.

    "Apesar do quadro dramático, Cabo Verde tem 85 por cento de cobertura de água potável, o que representa um dos maiores índices da África", afirmou o responsável.

Óscar Netto, director da Agência Nacional de Águas (ANA), o regulador brasileiro do sector, realçou que a seca extrema é um dos principais problemas da região Nordeste e de parte do Sudeste do Brasil, com baixos índices de chuvas.

O responsável salientou igualmente que 80 por cento da população brasileira está concentrada numa faixa territorial de apenas 100 quilómetros do oceano Atlântico.

"Essa grande concentração, resultado de um acelerado processo de urbanização das cidades brasileiras, trouxe problemas de escassez de água e de poluição dos rios", disse.

Na região Nordeste do Brasil, a ANA tem investido na construção de barragens e de canais para transportar a água até os maiores centros urbanos, além de projectos de dessalinização.

Em Angola, a escassez de água aumenta de Norte para Sul do território, obrigando a soluções de abastecimento com base em recursos superficiais e subterrâneos.

    Na região Sul de Angola, a exploração de águas subterrâneas tem sido mais estudada, segundo dados divulgados pelo director Nacional de Águas, Armindo Mário Gomes da Silva.

Nas áreas urbanas, regista-se uma cobertura de 70 por cento da população, mas apenas 34 por cento têm padrões mínimos, com a oferta de 70 litros diários por habitante.

Os 30 por cento da população urbana de Angola são servidos por chafarizes ou por camiões-cisterna, enquanto apenas 18 por cento das redes de saneamento estão tecnicamente adequadas.

No meio rural, estima-se que apenas 40 por cento da população angolana tenha acesso à água potável e 26 por cento são beneficiados com algum tipo de equipamento sanitário.

O encontro "Água para Todos" insere-se no VII Simpósio de Hidráulica e Recursos Hídricos dos Países de Língua Portuguesa (SILUSBA), promovido pela Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH) e pela congénere portuguesa, a APRH.

Criados inicialmente em 1986 com o objectivo de discutir políticas luso-brasileiras de recursos hídricos, esses encontros periódicos foram alargados, a partir de 1994, com a inclusão dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP).

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.