Em comunicado, a associação empresarial das ilhas de São Miguel e de Santa Maria, salienta que os Açores estão “numa fase de crescimento e consolidação do seu destino turístico”, pelo que é “difícil aceitar" que este percurso esteja "ameaçado por uma sucessão de decisões (ou omissões) que colocam a região numa situação económica critica".
Na quarta-feira, o presidente executivo da Ryanair, em entrevista à Lusa, disse que a companhia aérea vai encerrar a base nos Açores no fim de março, uma decisão “final”, motivada pelas taxas aeroportuárias e pela tributação ambiental europeia.
Na nota, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) sublinha que "a anunciada saída da Ryanair, aliada à redução da operação da SATA Azores Airlines e à ausência de investimento em alternativas credíveis, está a ter — e continuará a ter — consequências negativas profundas na economia regional".
Para a associação, trata-se de uma crise “perfeitamente evitável”, que evidencia a falta de visão estratégica, de planeamento a médio e longo prazo e “sem responsabilização política clara”.
Segundo a associação empresarial, a presença da Ryanair nos Açores tem "um papel estratégico que vai muito além do número de passageiros transportados e do número de lugares" que disponibiliza para o arquipélago (cerca de 120000 lugares, ida e volta, no aeroporto de Ponta Delgada em 2025)”, mas sobretudo pelo seu papel enquanto “um verdadeiro regulador de preços nos mercados onde opera.
“A sua saída implica, de forma previsível e amplamente comprovada noutros destinos, uma subida significativa dos preços praticados pelas companhias de bandeira que asseguram as ligações aos Açores” e agravando o encargo com o Subsídio Social de Mobilidade e com “a despesa pública nacional”, penalizando a economia regional e os contribuintes, alerta a associação presidida por Gualter Couto.
A associação critica ainda “a incompetência” na gestão do processo, rejeitando a responsabilização da companhia aérea e apontando falhas ao Governo Regional e à Visit Azores, que se "desleixaram à sombra do Governo da República que está de barriga cheia, com Lisboa e Porto a abarrotar de turistas e sem terem necessidade de se preocupar com os Açores”.
"Poderíamos ter tido novamente a easyJet em Ponta Delgada com benefício geral para toda a região, mas preferiram exigir que voasse também para a Terceira, como se o turismo crescesse por decreto e, assim, ficámos todos em pior situação por tacanhice política. É legitimo questionar se a saída da Ryanair não se deve também à exigência de operar em duas ilhas sem ter conseguido sequer consolidar o destino numa, que por sua vez pudesse escoar para as restantes através da Sata Air Açores", sustenta.
Para a CCIPD, “a incompetência" na gestão do ‘dossier’ "vai sair muito caro aos açorianos e à economia" e "não vale a pena atirarem areia para os olhos a culpar a companhia aérea".
A Câmara de Comércio refere que os efeitos já são visíveis com “hotéis com taxas de ocupação em queda”, frotas de rent-a-car “mobilizadas, restaurantes e empresas de animação turística a operar “muito abaixo da capacidade instalada”, alegando que é este o retrato de “várias ilhas, mas sobretudo em São Miguel.
Esta quebra traduz-se “inevitavelmente em menor receita fiscal, menor emprego e maior pressão sobre as finanças públicas regionais”, sustenta a CCIPD, que sublinha ter alertado “desde maio do ano passado” o Governo açoriano.
A CCIPD aponta também fragilidades graves na promoção do destino, destacando o orçamento “insuficiente” da VisitAzores — cerca de oito milhões de euros, face aos 30 milhões da Madeira — e a baixa taxa de execução de “apenas 40%”.
Por outro lado, acrescenta, a direção regional do Turismo está “demissionária há mais de um ano, sem estratégia visível, sem promoção relevante”, ao contrário da Madeira que apostou numa “gestão profissional do destino”.
A CCIPD exige, por isso, "uma estratégia profissional e independente de gestão" do destino turístico, um plano urgente e "credível" para garantir acessibilidades aéreas, o reforço da promoção externa e "um investimento imediato" na qualificação do produto e das infraestruturas.
Empresários de São Miguel e Santa Maria alertam para "crise inevitável" no turismo
A Câmara de Comércio de Ponta Delgada alertou para o impacto da saída da Ryanair dos Açores e redução da operação da Azores Airlines, considerando que a região está "à beira de uma crise inevitável" no turismo
Autor: Lusa/AO Online
